12 de maio de 2014

Duas ou três coisas sobre Vila Real

Francisco Seixas da Costa





Duas ou três coisas
sobre Vila Real





Desenhos de António de Belém Lima



Prefácio
Introdução

Carta ao Alvarito (28.4.07)
Pela voz amiga do Elísio, chegou-me há pouco, numa rua do Rio de Janeiro, a notícia de que havias partido para uma nova viagem. Por uma qualquer razão, tive vontade de te ter comigo, logo ali, para falarmos do muito que nos faltou dizer. Mas quem, como eu, sempre te conheceu o gosto eterno pela itinerância já não estranha mais esta tua partida. Só posso esperar que faças a viagem em serenidade e em paz.
Usei o “Alvarito” no título deste texto e tu estarás a perguntar-te porquê. De facto, nunca deixei de te chamar Álvaro, poupada que estava, pela intimidade de sempre, a necessidade de um cerimonioso Dr. Magalhães dos Santos. O Alvarito veio-me agora da forma carinhosa com que a minha Mãe, que irás encontrar pelas paragens desta tua nova viagem, sempre se te referia.
Desde há muito que me habituei à certeza de que, tu e eu, tínhamos precisamente a mesma idade, não obstante nos separarem bastantes anos na aritmética cronológica. Alguns não perceberão isso, mas tu sabes bem ao que me refiro: à cumplicidade que tínhamos em tantas e tantas coisas, às ironias que partilhávamos, às historietas que trocávamos – em especial depois de, nos últimos anos, teres descoberto as virtudes do e-mail. Nunca te senti mais velho do que eu; pelo contrário, nos últimos anos via-te cada vez mais próximo da irrequietude adolescente, do gosto pelo chiste, no teu humor provocatório, na tua forma solta de encarar a vida e até as grandes partidas que ela às vezes te pregou.
Não me conheço sem te conhecer. Lembro-me de me falares da imagem do meu Pai, ainda solteiro, hóspede do teu, recém chegado ao seu “exílio” vilarealense, com a sólida amizade e as saudades de Viana a juntarem-nos, como se ainda estivessem no Américo ou no Café Bar (ninguém vai perceber isto, em Vila Real), mas agora já na tertúlia relojoeira do Salgueiro ou aos jantares em vossa casa, na Rua Direita.
Foi aí, da Capela Nova ao Cabo da Bila, que tu aprendeste a alimentar o intenso afecto por uma cidade que nem sempre te retribuíu como devia. Logo a ti, Álvaro, que tens no jardim da tua casa, em Oeiras, um velho candeeiro da Avenida Carvalho Araújo, a iluminar-te as saudades da terra. Quando escreveste “A Rua Direita – Uma Janela sobre Vila Real”, o livro para que me pediste sugestões e sobre o qual trocámos tantos e-mails, percebi melhor que essa rua nunca saiu dentro de ti, continuavas a morar nela, onde quer que estivesses no mundo. E lá ficarás a morar.
Por ocasião desta tua viagem, porque será que me lembro de tantas coisas, Álvaro ?
Estou a ver-me entrar no jornal “A Capital”, aí por 73, com o Zé Aguilar, ambos fardados de tropas por empréstimo, numa visita de estudo, e de recebermos de ti um sonoro: “Afinal, isto é só vilarealenses! E então, o padre Henrique e o Bertelo, não vieram ?”. Essa “A Capital” onde um tal Vicente Gil nos trazia um tipo de humor, saudável e limpo, que, às vezes, julgo ver renascer agora no “Gato Fedorento”.
Encontrámo-nos várias vezes pelo mundo, um mundo que tu palmilhaste como poucos, colectando notas e comparando vidas, com argúcia e graça. Um dia, demos de caras um com o outro, numa bancada de um estádio em Glasgow, cachecóis verdes à volta do pescoço, gelados pelo frio escocês e ainda mais pela derrota inglória do nosso Sporting contra o Celtic. Por horas perdidas, em cidades diversas, jantávamos episódios do passado e bebíamos recordações mútuas, com a Gina, como tu dizias, sempre a gabar-se de ter sido tua explicanda de inglês. Em Oslo, lembro-me de inventariarmos figuras femininas da “Bila”, as quais, no nosso comum entender, se renderiam à virilidade das estatuetas do parque Vigeland. No meu carro, numa viagem entre Londres e Bruxelas, a caminho da Europália, tivémos que pedir-te para suspender a enxurrada de anedotas, para não morrermos de uma barrigada de riso.
Na política, ao longo de muitos anos, partilhávamos uma discordância quase abissal, que muito nos divertia. Nem por um segundo, porém, esse olhar diferente nos toldou a amizade, o entendimento e, o que é mais importante, a possibilidade de nos encontrarmos sempre no que era essencial – nos valores e no respeito pelos outros. Quando essa mesma política me tentou mais de perto, tive-te sempre a meu lado, no carinho das tuas crónicas semanais, com a amizade a apagar-te as naturais discordâncias. Ainda há meses, quase num dos teus últimos textos, me davas conselhos amigos na matéria.
As tuas viagens são sempre muito bem preparadas, estudadas ao detalhe, poupadinhas nos gastos – hábito teu com que, como sabes, o meu sentido esbanjador sempre embirrou. Mas, reconheço, são viagens seguras, sabes ao que vais, confias no caminho e tens a certeza do que encontrarás. Do lugar onde te escrevo, estou a olhar o Cristo do Corcovado iluminado e, parafraseando o título das tuas crónicas, quero mandar-te um imenso e eterno abraço, do Brasil, com saudades...

Um homem não canta a Nordeste (24.10.07)
Vila Real, nos anos 60, era uma cidade abafada. Praticamente não havia instituições com expressão cultural, a música era rara, exposições de valia não apareciam, o teatro sério era inexistente, conferências ou debates eram coisa não vista. Sobrava o cinema, onde se ia por rotina e quase sem critério.
Completado o liceu, aqueles da minha geração que tinham posses para isso abalavam para as universidades. Retornavamos nas férias, para tagarelarmos ao café na Gomes, ao bilhar do Excelsior ou da Pompeia, no bar do Tocaio. A “boîte”do Eurico Gama dava-nos a modernidade do jazz e do pop, pela noite dentro atenuávamos nas “francesinhas” do Cabanelas o vazio das noites mornas de conversa fiada. Mas tudo isso começava, para alguns de nós, a não chegar.
António Cabral surgiu-me então com a riqueza de um novo amigo mais velho. Conhecia-o à distância, como “explicador” de Literatura e seria a literatura a ligar a nossa nova relação. Não sei quem nos aproximou. Sei que me revelou imensa poesia, que me chamou a atenção para o “neo-realismo” que então estava em voga, escrita de um combate que tardava. Nunca lhe devolvi um livro de poemas de José Afonso que me emprestou. Em noites de cavaqueira, de feroz especulação intelectual, com o então militar e cineasta António Faria (que será feito dele?), discutíamos horas perdidas, pela rua Direita fora ou em algumas tascas de fecho tardio.
Era um homem de sorriso aberto, nervoso, gesto largo e um sentido agudo da vida, face à qual tinha já então claras hesitações existenciais, que mais tarde viria a enfrentar com imensa coragem, que só aumentou a admiração que por ele tinha. Era de ideias claras, era firme nelas, mas sempre o vi tolerante nos confrontos verbais. Na Vila Real desse tempo, para a minha geração, António Cabral era um oásis de frescura intelectual. E era um Democrata, coisa rara no mercado de gentes frequentáveis da cidade.
A política viria a sedimentar mais as nossas identidades. Trabalhámos juntos no lançamento da aventura eleitoral de 1969, até que a Diocese o obrigou a afastar-se dessa fátua onda de esperança, que rolava em tempos adversos. Apesar do ridículo anátema, continuámos as nossas horas de debate pela noite, na sua casa da rua das Pedrinhas.
Tempos mais tarde, ofertou-me, com uma bela dedicatória, o seu “Os homens cantam a Nordeste”, um livro onde estava todo o Douro que lhe corria nas veias, onde revisitou António Nobre com graça e força. Fui à aldeia de Cotorinho graças a um seu poema. Em Lisboa, fui seu episódico “advogado”junto da Sociedade de Autores, lutando, ironicamente, pelo direito ao seu nome literário, face a um homónimo monárquico do antanho.
Voltámos a ver-nos, brevemente, nos tempos francos de Abril, a que se dedicou com a garra de quem acreditava. É que Abril foi e é apenas para os que acreditam.
Com os anos, com a mudança profunda na sua vida e com as muitas andanças da minha, perdi-me um pouco de António Cabral, com quem cruzava abraços, nos nossos encontros episódicos em Vila Real. Sabia-osempre dedicado às questões culturais, à recuperação da memória popular, por escritos ocasionais que dele lia.
Há pouco mais de um ano, perto da Nossa Senhora da Conceição, falámos pela última vez. Hesitei em dar-lhe, no momento, um livro que recém-publicara, temeroso que achasse a minha escrita seca e oficiosa, ele que era um cultor de palavras com imaginação e festa. Não sei se fiz mal.
Agora, pelo que me chega, há menos um homem a cantar a Nordeste.
O frio (13.2.09)
Há dias, ao passar pela Place da la Nation, aqui em Paris, veio-me à memória um episódio, no mesmo local, sobre a qual já lá vão, quase dia-por-dia, 38 anos.
Era Março de 1971 e eu caminhava distraidamente pela praça, naquele tipo de turismo para quem o simples passeio por Paris era já metade do usufruto da viagem, quando dou de caras com um antigo colega de liceu, que sabia ter saído “a salto” de Portugal, e a quem tinha perdido, por completo, o rasto. Fizemos aquela festa tradicional, típica de dois transmontanos que se prezam. Generoso, convida-me a ir beber uma cerveja à sua casa, ali perto.
Foi-me contando que lavava janelas a partir das 6 da manhã (“não é nada mal pago, sabes? Mas é muito chato ter de sair de casa às 4!”). Em fins de tarde, aproveitava para assistir a uns cursos livres na universidade de Vincennes. Sem mo dizer expressamente, deu-me a entender que era militante de um partido político português na clandestinidade, o que conteve a minha curiosidade inquisitiva sobre o resto da sua vida em Paris.
Subimos ao apartamento onde vivia, uma sala e um quarto, num 4º andar sem elevador, com uma cozinha a meias com um argelino, de cuja área da casa chegava um cheiro a comida pouco apelativo. “O problema é o frio. A casa não tem aquecimento. Temos de pôr aquecedores, mas a electricidade é cara. Às vezes vou para a cama mais cedo, só para me aquecer”. E, num tom mais triste, daquela saudade que a minha presença lhe trazia, acrescentou: “Queres saber uma coisa? Lá em Vila Real, o nosso frio era diferente”.
Pois era. O frio da terra portuguesa, para quem sofria a distância e a tragédia da emigração e do exílio, tinha outro calor.

Aventura política (10.8.09)
O ano de 1969 anunciava-se decisivo. Em Agosto de 1968, Salazar caíra da cadeira. Marcello Caetano substitui-lo-ia no mês seguinte. Começara a “primavera marcelista”, um logro político que parecia evidente para muitos, mas que, para outros, ainda era visto como uma oportunidade a explorar para a mudança no regime.
Nos meios em que, à época, me movimentava, as esperanças na “abertura” marcelista eram nulas. A confirmá-lo, se necessário fosse, estava a “não homologação” ministerial dos resultados da eleição para a direcção associativa universitária, de que eu próprio fazia parte, e que deu mesmo origem a uma divertida reunião com o ministro José Hermano Saraiva (que um dia contarei). Dentre outras movimentações, nesse importante ano político, há ainda que destacar a grave crise académica em Coimbra. O país andava bem agitado.
E iria ficar mais. Em Outubro de 1969, teriam lugar eleições para a Assembleia Nacional. As primeiras do “marcelismo”. Em Lisboa, tinha já andado envolvido em algumas movimentações preliminares, como a célebre reunião no Palácio Fronteira, onde as águas políticas da Oposição se separaram. À esquerda, ficava a maioritária CDE (Comissão Democrática Eleitoral), onde predominava o PCP, aliado a “católicos progressistas” e a franjas mais radicais. Constatada a impossibilidade de acordo, Mário Soares e os seus amigos da ASP (Acção Socialista Portuguesa) haviam criado a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática), que concorreu isolada apenas em Lisboa, Porto e Braga. No resto do país, a escassez de recursos oposicionistas forçava à necessária unidade.
Era o caso de Vila Real. De férias na capital transmontana, sou contactado pelo António Leite (em casa de cuja avó se fizera a primeira reunião oposicionista) para integrar a estrutura local da CDE. Foi um período intenso de reuniões e mais reuniões, redacção de artigos e manifestos, agitação dos meios da juventude, alguma tensão ideológica intergeracional. Mas, algum tempo mais tarde, lá estou eu, com Otílio de Figueiredo e Délio Machado, no trio que foi fazer a apresentação formal da lista oposicionista ao Governador Civil, Torquato de Magalhães.
Esse mês de Agosto, em Vila Real, foi inesquecível. Sob a hábil e paternal liderança política de Otílio de Figueiredo, prestigiado médico e figura intelectual local, a oposição estruturava-se num leque amplamente pluralista. As clivagens políticas lisboetas, não nos sendo indiferentes, eram atenuadas pela necessidade de arrebanharmos todas as vozes contestatárias. Estas iam desde elementos que sabíamos ligados ao PCP até ao “reviralhismo” republicano tradicional, passando por figuras da esquerda moderada, que imaginávamos próximos da ASP e de Mário Soares. E, naturalmente, por lá andava algum radicalismo “esquerdalho”, a maioria sem partido, mas com muito sangue na guelra. Neste, recordo em especial o entusiasmo quase “anarca” do João "Bouquet", a grande alma da logística da CDE de Vila Real. E algumas outras figuras (não éramos muitos…) que não cabe aqui elencar.
Esse mês de Agosto de 1969 e o período que se lhe seguiu tiveram de tudo um pouco: reuniões clandestinas, incontáveis viagens pelo distrito, contactos com outros núcleos oposicionistas, discussões épicas na Gomes (o principal café da cidade), chamadas à polícia, censura de artigos na imprensa, dificuldades nas tipografias, ameaças profissionais a muitos aderentes, colagem de cartazes anónimos (fui o criador de um que apenas tinha escrita a palavra “MEDO”, impressa a preto forte, cortada por duas pinceladas de tinta vermelha), pides encartados e “bufos” locais a vigiarem a nossa sede, caravanas de propaganda ameaçadas fisicamente, frequentes insultos pelas ruas por parte de turiferários do regime, a necessidade de fotografar os cadernos eleitorais (não havia cópias distribuídas nem existiam ainda fotocópias, pelo que tivemos de fazer fotografias de todas as páginas das listas de eleitores, no Governo Civil, com um imenso custo financeiro), a impressão e distribuição dos nossos boletins de voto (para quem não saiba, cada lista eleitoral preparava então os seus próprios boletins, aqueles que iriam ingressar nas urnas, e tinha de os entregar pessoalmente a cada eleitor, porta-a-porta, porque os correios eram caros e não fiáveis!), etc.
Foi um belo mês de Agosto! Nunca mais o vou esquecer.
Um Verão quente (12.8.09)
Estávamos nos últimos dias de Agosto de 1974 e os agentes da polícia política PIDE/DGS (os “pides”), presos desde o 25 de Abril na cadeia penitenciária de Lisboa, haviam iniciado um novo motim. Era um movimento em tudo idêntico ao que tinham desencadeado no início do mês e que provocara a constituição de uma “comissão de inquérito”, composta por um representante de cada um dos três ramos das Forças Armadas, da qual eu era relator, enquanto oficial miliciano do Exército.
Tinha assumido essas funções na qualidade de assessor do general Galvão de Melo para as questões do desmantelamento da PIDE/DGS e da Legião Portuguesa. Galvão de Melo, da Força Aérea, era um dos sete membros da Junta de Salvação Nacional, que então dirigia o país, e, seguramente, a figura mais à direita dentro daquele órgão. Por uma singular ironia, competia-lhe a tutela da Comissão de Extinção da polícia política do anterior regime, tarefa que o não entusiasmava por aí além. E, por outra singular ironia e fruto de diversas circunstâncias, coube-me em rifa ser seu assessor.
Os pides consideravam então estar a ser vítimas de uma imensa “injustiça”, seriam totalmente infundadas as inúmeras acusações de torturas e atentados aos Direitos Humanos que sobre eles impendiam, a esmagadora maioria jurava nunca ter feito outra coisa que não fosse estar nas fronteiras a pôr carimbos nos passaportes. Uns anjos, em suma. Poder-se-á dizer que a sua posterior não indiciação quase colectiva pela Justiça provou que tinham razão?
Descontentes com o prolongamento da sua detenção e respectivas condições, mobilizados por um pretexto conjuntural, os pides tomam alguns guardas da Penitenciária como reféns, abrem o “gradão”, a porta de ferro que lhes permite invadir a parte central da prisão, e anunciam que estão “à disposição” do general Galvão de Melo, que acabara de fazer uma polémica e ultraconservadora proclamação televisiva, que lhes terá ressuscitado a esperança de uma libertação rápida.
No auge desta nova crise, o chefe da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, comandante Conceição e Silva, foi de helicóptero ao Algarve, com o seu adjunto Alfredo Caldeira, para tentar obter orientações de Galvão de Melo. Na conversa, o general, enfadado por ver interrompido o concurso hípico da Penina, terá deixado os seus interlocutores de mãos a abanar. Estávamos assim, num domingo à tarde, reunidos no gabinete do director da Penitenciária, a discutir o que fazer a seguir.
Esgotadas algumas hipóteses de solução, o José Manuel Costa Neves, chefe de gabinete de Galvão de Melo, decide tomar o assunto em mãos: “Eu vou lá dentro falar com os pides. Quem é que quer vir comigo?”. A idade tem destas coisas e a precipitação é uma delas. Por isso, disse de imediato: “Eu vou contigo”. Arrependi-me no segundo seguinte, mas já era tarde: cinco minutos depois estava a seguir a figura alta e corajosa do então major (hoje general) Costa Neves e a entrar no meio de uma chusma de pides, que sabíamos que tinham armas retiradas aos guardas e desconhecíamos se tinham a intenção de também ficar connosco como reféns.
Enquanto o mar de pides se abria como as águas do mar Vermelho, para ambos podermos chegar ao centro da prisão, comigo numa taquicardia de tardio bom senso, recebo um leve toque num ombro e volto-me, sobressaltado. Dou de caras com o “Navalhas”, um colega de escola primária em Vila Real, que eu não via há muito e desconhecia ter escolhido tão distinta opção profissional.
“'Tás porreiro? Então por aqui?”, saiu-me, num registo social, como se o estivesse a encontrar no Rossio, à porta da Suíça. Apertei-lhe a mão, quase caloroso, para me dares ares de confiança bem à vista do grupo, que tinha já cem olhos sobre mim, com o “Navalhas” a retorquir-me: “É verdade! Quem também cá está é o “Bilrau”, mas não aderiu”. O “Bilrau” era também um antigo colega de liceu que, do mesmo modo, eu desconhecia ter enveredado pela prestigiante carreira de pide. E o meu convívio social-pidesco estendeu-se então, com a maior naturalidade, ao ausente “Bilrau”: “Ó 'Navalhas', dá um abraço meu ao 'Bilrau'… e tive imenso prazer em ver-te, pá!”.
Esta rápida sequência de vénias de cordialidade passou-se, aparentemente, sem que o Costa Neves nada notasse, entretido que estava já a lidar com os cabecilhas do motim e a transmitir ao selecto auditório as presumidas orientações de Galvão de Melo. Dez minutos depois, para meu imenso alívio, estávamos cá fora, sãos e salvos. Os pides acabaram por não se render na sequência da nossa esforçada diligência e só foram “convencidos”, horas mais tarde, pela chegada de um pelotão de “fuzos”, os Fuzileiros Navais que o Conceição e Silva mandou vir do Alfeite.
Desde esse inesquecível mês de Agosto de 1974, nunca mais vi o “Navalhas” ou o “Bilrau”. Coitados, com o acordo de Schengen, até ficaram sem fronteiras para praticarem a sua nobre profissão. Eles que só punham carimbos em passaportes...
Douro (15.8.09)
Há semanas, dei por mim a pensar no Douro. E, em especial, no que hoje representa o Douro para o nosso imaginário regional e nacional.
Nasci, fui educado e vivi durante algum tempo bem perto do Douro, a menos de três dezenas de quilómetros, por estrada. Para quem viajava bastante de comboio, como era o meu caso, a paisagem duriense fazia parte integrante e habitual do nosso cenário de trajecto, quer no tortuoso e bizarro percurso entre Vila Real e a Régua, quer entre esta vila (que o era, à época) e o Porto - que era então a mais próxima imagem de metrópole para os nortenhos.
Nas minhas memórias de infância e adolescência está aquela mancha de água que viajava quase sempre ao lado da linha férrea, às vezes aproximando-se dela de forma quase perigosa. Nelas estão também as regulares enchentes, uma espécie de destino a que as ruas mais baixas da Régua não escapavam. Mas, no nosso imaginário, o Douro não era mais do que isso.
Mas a que propósito vem isto? Vem a propósito do facto de eu, como muito boa gente do Norte do país, só ter acordado muito tarde para a fantástica beleza da região do Douro, para a paisagem magnífica e diversa que ela hoje oferece a qualquer viajante - de carro, de barco ou de comboio. Porque fazia parte do nosso cenário de rotina, não a tínhamos valorizado e, de certo modo, foi preciso que outros a olhassem de fora para que nós também a "víssemos".
O Douro, para além dos vinhos, mas agora muito por causa deles, é um património sem preço que importa a Portugal promover, sem o deixar descaracterizar.
Em Paris, numa data a anunciar, mas ainda dentro deste segundo semestre, em estreita cooperação com as autoridades durienses, vamos levar a cabo, nas intalações da Embaixada de Portugal, uma acção de promoção daquela região. Aí falaremos do vinho, claro, mas também das paisagens, da hotelaria, da gastronomia, da cultura e de um conjunto de outras vertentes que tornam aquela região, nos dias que correm, numa das grandes "surpresas" da oferta turística portuguesa.
Boaventura (19.10.09)
Hoje, apetece-me contar uma historieta da minha terra, de Vila Real, que ouvia ao meu pai.
Na minha adolescência, vivia na cidade uma figura de porte imponente, sempre bem vestida e com um chapéu cinzento, que parecia apenas pousado no alto da sua cabeça, que dava pelo nome de Boaventura. Ao que se sabia, o senhor Boaventura vivia dos rendimentos de anteriores actividades comerciais no Brasil, que lhe garantiam a prosperidade que transparecia no seu quotidiano. Homem sociável, bem disposto e de trato agradável, parava pelos finais de tarde na Relojoaria Salgueiro, na "rua central", local para conversas soltas, sem agenda, entre amigos.
Estava-se nos anos 60, algumas crises sacudiam então o país, tentativas de golpes políticos tinham sido abafadas, ideias "avançadas" (como à época se qualificavam as ideias de esquerda) iam fazendo o seu clandestino caminho, Portugal dava ares de estar já cansado de "viver habitualmente", como o doutor Salazar desejaria.
Num desses fins de tarde de charlas, um dos amigos do senhor Boaventura não resiste, e lança-lhe, irónico e ousado: "Ó Boaventura, você tem de se 'pôr a pau', homem! Isto está a aquecer, um destes dias o comunismo vem 'por aí acima' e o meu amigo, que não faz nada na vida, vai ter que começar a trabalhar".
O Boaventura não se desmancha e responde: "Pode ser que sim. Mas uma coisa é certa: quarenta anos de boa vida já ninguém me tira!".
Contei hoje esta historieta a Lídia Jorge, à hora do almoço. O comentário dela foi de que não era por acaso que o nosso homem se chamava Boaventura...
Saudades do Meireles (21.10.09)
A patética tragédia que envolveu a eleição autárquica na freguesia de Ermelo, em Mondim de Basto, fez-me recordar que, em Outubro de 1969, há precisamente 40 anos, fomos por lá fazer campanha eleitoral pela Oposição Democrática contra o Estado Novo.
Como já aqui foi referido, as listas eleitorais, ao contrário do que hoje sucede, eram então impressas sob responsabilidade das forças políticas promotoras (aliás, só havia duas: a "Situação" e a "Oposição"...) e entregues pelo correio ou directamente aos eleitores, neste caso num porta-a-porta mais seguro, mas nem sempre fácil.
Numa reunião da Comissão Democrática Eleitoral de Vila Real, dirigida por essa figura, para mim inesquecível, que foi o médico Otílio de Figueiredo, e que congregava o escasso número de quantos, no distrito, abertamente se dispunham aos riscos de enfrentar o regime, demo-nos conta que o concelho de Mondim de Basto era o único onde não dispúnhamos de nenhum contacto. Na discussão sobre o assunto, ao ser constatada esta lacuna, o Carvalho Araújo protestou: "Ora essa! Temos lá o Meireles! Já fez connosco o Norton e o Delgado. O Meireles é fixíssimo". (Um parêntesis para dizer que o nome "Meireles" me ficou na memória, mas posso estar enganado. Porém, para o que aqui importa, é irrelevante).
Convém esclarecer que o Carvalho Araújo era um homem já idoso, feroz republicano, que havia sido demitido da função pública nos anos 30, por actividades anti-regime. Tinha sempre um semblante grave e fechado, tratando-nos a nós, os mais novos que andávamos envolvidos na acção política da Oposição, com visível distância e até alguma desconfiança. Na verdade, não tínhamos andado com "o Norton" ou com "o Delgado": as eleições em que Norton de Matos havia sido candidato presidencial tinham tido lugar em 1949 (eu tinha nascido no ano anterior, o que, como se compreenderá, condicionou muito a minha participação na respectiva campanha...) e a idêntica aventura de Humberto Delgado fora em 1958 (altura em que as minhas prioridades se centravam na admissão ao liceu...). Porém, se o Carvalho Araújo assegurava o apoio do tal Meireles, era uma oportunidade que havia que aproveitar.
Assim, no dia seguinte, com a mala de um carro (creio que era um NSU do Délio Machado) cheia de envelopes já endereçados com boletins de voto, lá avançámos nós para Mondim. Aí chegados, com o Carvalho Araújo no comando das operações, fomos à procura do Meireles. Tarefa que se revelou menos viável, porque o Meireles havia falecido... já há sete anos!
Quando pensávamos que o Carvalho Araújo se ia deixar abater pela dura realidade, ele renasce: "Não há problema! Vamos à farmácia!". Olhámo-nos intrigados: "À farmácia? Para quê?". O Carvalho Araújo lança-nos, condescendente, a sociológica revelação: "Meus amigos, os farmacêuticos são sempre gente com espírito liberal, as farmácias são espaços de tertúlia, confiem em mim!". Verdade seja que as alternativas eram poucas e tínhamos necessidade de "despachar" as centenas de boletins de voto (os inscritos de então não eram muitos) que levávamos connosco.
O nosso homem tomou conta das operações, foi falar com o responsável da única farmácia local e, impante, regressou com o anúncio: "Eu não lhes dizia?! É um democrata, fica com os boletins de voto e encarrega-se de distribuí-los". Ficámos banzados! E a nossa admiração pelo sentido estratégico do Carvalho Araújo cresceu, de modo exponencial.
Semanas mais tarde, quando o nosso saldo eleitoral em Mondim de Basto se computou no magérrimo resultado de escassas dezenas de votos, o pior em todo o distrito de Vila Real, creio que tivemos a piedade de não comentar com o Carvalho Araújo a eficácia da sua "operação farmácia". E, mesmo sem o termos conhecido, sentimos fortes saudades do Meireles.
O abraço (17.11.09)
Achei que tinha mesmo de ajudá-lo. Aquele meu colega de liceu, que já não via há anos, sabendo que eu estava colocado na Embaixada em Luanda, nesses idos de 80, procurou-me, nas férias de Natal, para me pedir para tentar encontrar o seu pai, que há algumas décadas migrara para Angola, antes da independência do país, e que, há cerca de cinco anos, deixara de dar notícias. A sua mãe tinha-se desligado afectivamente do antigo marido e não queria saber dele. Mas ele, como filho, não. A última localidade onde vivera era a milhares de quilómetros da capital angolana, só acessível por estrada, a partir de uma outra cidade, esta com ligação aérea a Luanda. Teria morrido? Estaria em dificuldades? Desde essas férias de Natal, impus a mim mesmo a obrigação de procurar o paradeiro do sr. Matias, de Vila Real.
Convém lembrar que esse era um tempo de guerra civil em Angola, com muitas localidades isoladas e frequentemente sob tensão militar. A zona onde o Sr. Matias vivia (vivia?) situava-se em áreas onde os conflitos eram mais intensos. Mas sabia-se que, em Angola, havia sempre portugueses em todo o lado, por mais inóspitas que fossem as paragens.
Chegado a Luanda, fui ao Consulado e lá estava a ficha do sr. Orlando Matias. Tinha nascido há 74 anos. O último acto consular praticado datava de há já quase seis anos. Falei com os funcionários e pedi-lhes que, se e quando aparecesse alguém da cidade onde se supunha que o sr. Matias vivia, lhe pedissem para ir falar comigo, dois andares acima, naquele imenso e desagradável prédio onde eu trabalhava e vivia, na Rua Karl Marx, antiga Rua Vasco da Gama.
Semanas depois, apareceu alguém da referida localidade. Chamei-o e confirmei - boa notícia! - que o sr. Matias estava de boa saúde e ainda trabalhava. Quando referi à pessoa a razão pela qual queria encontrar o sr. Matias, pedindo-lhe para passar a minha mensagem, retorquiu-me: "Está bem, mas, por ora, não diga ainda nada à família dele. Vou tentar que ele fale consigo". Estranhei um pouco, mas as vidas africanas têm razões que a lógica desconhece. E respeitei o que o homem me pediu.
Os meses passaram, mesmo muitos. Até que um dia, da portaria, me chega o recado que um tal Orlando Matias estava ali, para me ver. Rejubilei. Mandei-o subir e recebi um homem tisnado, pequeno, magro mas com ar saudável, olho vivo e cara seca, sem sorrisos. Expliquei-lhe o encontro tido com o filho, meu antigo colega, tentei aligeirar a conversa, que sentia não fluir, num esforço para suscitar memórias comuns de Vila Real. Mas rapidamente comecei a perceber que, para ele, o passado era mesmo o passado.
A certo passo, disse-me: "Sabe, senhor doutor, se calhar é melhor não dizer ao meu filho que me encontrou". Fiquei perplexo e, de certo modo, desiludido. Depois de meses de espera, quando eu pensava ter resolvido o mistério e me preparava para dar a boa nova ao meu antigo colega, tudo se desvanecia. Porquê?
"Eu não vou regressar nunca a Vila Real. A minha vida é em Angola. Esta agora é a minha terra. Tenho aqui mulher e já cinco filhos, tenho um negócio que vai bem, mesmo com a guerra. A mulher e o filho que deixei em Portugal já não esperam ver-me, se calhar acham que eu morri. É melhor assim. Nem eu tenho dinheiro para lhes mandar, nem era capaz de abandonar a família que fiz por aqui. Diga ao meu filho que não me encontrou, faça-me esse favor".
Num segundo, percebi o drama do homem. Dei-lhe todos os meus contactos para o caso de precisar da minha ajuda e levei-o ao elevador. À despedida, não resistiu e, de dentro daquela secura que os trópicos e as dificuldades da vida haviam incutido no seu carácter trasmontano, disse uma coisa bonita: "Quando encontrar o meu filho, dê-lhe um abraço forte, por mim. Mas não lhe diga nada, está bem?". Nunca disse.
Independência (30.12.09)
O dia 1º de Dezembro, data que marca a recuperação da independência de Portugal face a Espanha, em 1640, parece ter hoje um significado residual para a maioria dos portugueses. Já muito poucos recordam a história da revolta aristocrática que, aproveitando habilmente a fragilidade conjuntural de Madrid, repôs a coroa numa personalidade portuguesa, na figura de um titular da família Bragança. Pergunte-se, pelas ruas do nosso país, a razão de ser deste feriado e - garanto! - as respostas serão as mais díspares e disparatadas.
A ditadura do Estado Novo procurou aproveitar, de forma oportunista, as grandes datas da nossa nacionalidade. Ao politizar esses momentos, ela contribuiu decisivamente para a diluição da sua importância no imaginário colectivo e, por uma reacção a contrario, fez deles afastar os cidadãos, o que resultou na quebra da herança histórica intergeracional com que se define um país. Confesso que sinto alguma nostalgia quando vejo o modo respeitoso como os franceses ou os britânicos comemoram as suas datas fundacionais, ao mesmo tempo que observo a displicência com que, em Portugal, se olham tempos similares nossos. E isto é tanto mais estranho quanto a nossa História, por ser muito antiga e rica, justificaria que as novas gerações olhassem para ela com bastante orgulho.
Na minha juventude, o 1º de Dezembro era uma data cheia de comemorações oficiais. Por todo o país, o dia era prenhe de desfiles e romagens esforçadamente patrióticos. Nos meus primeiros anos do liceu, em Vila Real, para a marcha militarista obrigatória que fazíamos pelas gélidas ruas da cidade, de calção castanho e camisa verde, com o cinto com um críptico S, a minha mãe acolchoava-me com camisolas interiores sobrepostas, para evitar as gripes que, à época, não tinham siglas cosmopolitas como as de agora. Mais crescido, passei a ir às "ceias do 1º de Dezembro" e a colaborar nas récitas do Teatro Avenida, onde a proverbial injustiça da crítica impediu que ficassem gravadas em glória algumas imorredouras "performances". Já de capa e batina, íamos cantar pela cidade o hino da Restauração, com uma letra "estadonovista" que era uma espécie de segundo hino da Mocidade Portuguesa. Os nostálgicos podem ouvi-lo aqui. Eu, confesso, ainda sei de cor a letra.
Hoje, o 1º de Dezembro está transformado numa data caricatural, comemorada por grupos minoritários, em busca de um reconhecimento que o público lhes nega e que só alguns blogues de seita acolhem. Neles sobrevive um anti-espanholismo primário - essa doença infantil do portuguesismo - que acaba por obscurecer os verdadeiros novos perigos que o país corre no plano externo.
Aletria e periferia (23.12.09)
A notícia correu célere por Vila Real: a aletria estava esgotada e um carregamento que viria do Porto, através do Marão, não podia passar por causa do gelo. Na pastelaria Gomes, centro virtual da cidade, o tema dominava conversas, à hora do café. Natal sem aletria? Até numa visita ao oftalmologista o assunto foi visto como relevante. Ao final da tarde, chega uma informação preciosa, com a revelação de um local da cidade onde o produto se vendia. Lá se foi, lá se comprou, não havia cliente sem um pacote.
Como podem observar, neste Portugal de periferia, há mais vida para além das escutas...
Vidas (29.12.09)
Ele há cada conversa!
Ontem, à porta de uma funerária de Vila Real, o respectivo proprietário, com quem trocava cumprimentos rituais de Boas Festas, disse-me, a certo passo: "Ainda hoje falei do senhor embaixador a um colega de Portalegre. Ele foi a França buscar um cadáver e queixou-se-me das demoras consulares por lá". Defensivo e burocrático, reagi logo: "Ele que me contacte se, no futuro, tiver problemas". E fui andando.
Entramos para a carreira diplomática com o sonho de fazer parte de grandes negociações internacionais para acabarmos a agilizar os negócios da morte. É a vida, como dizia o outro engenheiro.
Marão (1.1.10)
Atravessar o Marão, na minha infância e adolescência, era uma programada aventura. A serra era uma imensa barreira entre o nosso mundo e o mundo, centenas de curvas que davam direito a enjoos, que se iam atenuar com um copo de "Pedras" na "Lai Lai" ou no "Zé da Calçada", logo que chegados a Amarante.
Mais tarde, as idas para a universidade, na camionete do "Cabanelas" para o Porto, representavam mais de três horas de viagem, sempre com paragem obrigatória em Amarante, desta vez no largo do Arquinho, para um "reforço" no "Príncípe".
Nos eternos regressos a Vila Real, recordo o conforto psicológico que era descortinar, lá ao alto, as luzes da Pousada de S. Gonçalo, uma espécie de posto avançado da cidade, a qual se iria vislumbrar, quilómetros depois, numa certa curva de Arrabães.
Graças ao IP4, o Marão é hoje um "tigre de papel". Há dias, de Vila Real, fui jantar a Amarante e regressei em cerca de meia hora. Há quem vá, a meio da manhã, de Vila Real ao Porto, e volte para almoçar. Com o futuro prolongamento da A4 a Trás-os-Montes, tudo vai ser ainda mais fácil.
Portugal está bem mais pequeno. Não tenho a mais leve saudade daquele passado. Ou melhor: apenas me faz falta a Pousada de S. Gonçalo, ali perto do Alto de Espinho, ingloriamente "terceirizada", como dizem os nossos amigos brasileiros.
Cumplicidades (2.1.10)
Cada vez mais me convenço que comprar livros começa a ser um mero gesto de esperança de que vamos conseguir arranjar tempo para os ler. Com tudo o que tenho atrasado, nem duas vidas de ócio pleno me dariam para os milhares que já me enchem as estantes. E, contudo, continuo a comprar mais livros...
Há dois dias, em Orense, retraí-me de adquirir umas memórias da filha de Franco e outras de Mario Conde, uma biografia de Buñuel e uns textos de Cortázar que me faltavam, pela quase certeza de que não iria ler esses livros. Há uns anos, isso não me teria acontecido: compraria e, depois, logo se veria! Confesso que me entristeceu esta minha decisão... A idade começa a rimar com um excessivo bom senso.
Na minha conversa com o livreiro galego, falámos, com alguma emoção, de publicações que ele me havia vendido, em diversas visitas, vai para quatro décadas, nas anteriores instalações da sua Libreria Tanco. Eram coisas proibidas em Portugal, que o franquismo já então deixava publicar. Relembrámos as idas discretas às estantes nas traseiras da sua loja, de onde saíam textos anarco-sindicalistas, o diário do Che na Bolívia e publicações da linha "rosaluxemburguesa" ou do "internacional situacionismo". O que eu lia (ou tencionava ler) por essa altura...
Num certo momento, o meu amigo livreiro fez-me uma surpreendente revelação: "Sepa Usted que yo tenía como muy buenos clientes algunos curas portugueses, de Chaves y Vila Real. Venían por cosas muy de izquierdas...". Nunca me havia dito isso! Será que, com o 25 de Abril, terão chegado a bispos ou arcebispos? Acho melhor nem tentar saber...
A Censura (17.2.10)
Com o tema da censura a ser suscitado por aí, falemos do tempo em que ela existia.
A censura, no tempo do Estado Novo, era uma atividade que o regime tinha colocado nas mãos dos militares. Em Lisboa, eram famosos os "coronéis" que, dia-a-dia, se dedicavam a assinalar, a lápis azul, aquilo que, nos textos da imprensa, entendiam como podendo ofender os seus mestres ou os costumes oficialmente protegidos.
Na província, a "Comissão de Censura" (depois, com Marcelo Caetano, passou ao eufemismo de "Exame Prévio") tinha também os seus militares. Em Vila Real, era o velho capitão Medeiros.
No final dos anos 60, já na universidade, comecei a publicar alguns artigos em "A Voz de Trás-os-Montes", um jornal local ligado à diocese, que ainda existe. Iniciei-me na escrita desportiva mas, na "primavera marcelista", ousei entrar pela política interna. Os textos eram muito rebuscados, cheios de duplas leituras, só acessíveis a alguns "happy few", um pouco à moda do que então lia no "Diário de Lisboa", no "República" ou na "Seara Nova". Agora, ao revê-los, fica patente a sua total inocuidade, garantida pelo reduzidíssimo número de potenciais leitores, afastados pelo caráter quase impenetrável da escrita.
Por uma ou duas vezes, o capitão Medeiros ironizou com o meu Pai sobre as minhas "ideias avançadas", expressão para designar tendências esquerdistas que pressentia nas entrelinhas. Ao diretor do jornal, o padre Henrique Maria dos Santos, o nosso censor local passou também algumas mensagens de aviso, no sentido de eu me "deixar de espertezas". Lá fui, contudo, continuando a escrever, com algum cuidado mas sempre sem grandes obstáculos. Aliás, o capitão Medeiros deve ter ficado menos preocupado quando, a partir de certa altura, passei a dedicar-me apenas a temas de política internacional. Até um dia!
O tema era a Rodésia e eu analisava os problemas entre o Reino Unido e o independentismo branco de Ian Smith, bem como as polémicas entre a ZAPU e a ZANU. O texto era algo hermético, com muitos e dispensáveis detalhes, que eu tinha bebido na imprensa internacional. (Com os diabos! Só temos 20 anos uma vez!)
Uma tarde, o capitão Medeiros encontrou o meu Pai na rua Direita, esse eixo de Vila Real, e deu-lhe os parabéns: "Parece que o seu filho está a entrar no bom caminho! Escreveu um bom artigo sobre a Rodésia!". O meu Pai, que ainda não tinha lido o texto, conhecendo-me bem, estranhou, mas agradeceu o elogio.
Dias depois, o diretor do jornal, à porta da Gomes (essa pastelaria mítica da cidade), disse-me: "O capitão Medeiros está furioso. Afirma que você o enganou com o texto sobre a Rodésia. Levou uma advertência dos serviços centrais da censura, em Lisboa. Já me disse que, por este caminho, não o deixa publicar mais nada".
O que acontecera? O pobre do capitão Medeiros deixara-se "enrolar" nas minhas considerações e, em especial, permitira a última e fatal frase que eu incluíra no texto: "Ou muito me engano ou a Rodésia tem à sua frente um futuro negro".
A quatro décadas de distância, eu estava longe de imaginar que, por detrás da procurada ambiguidade da minha frase, acabaria por residir uma triste e insuspeitada presciência...
O comício (12.8.10)
Numa conversa recente com Délio Machado, uma figura importante da luta pela democracia durante o "Estado Novo", em Vila Real, lembrámos a campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, em 1969. Foi um tempo complexo, o último teste (falhado) da (falsa) abertura política do "caetanismo". Com essa personalidade notável que foi o médico e escritor Otílio de Figueiredo, líder oposicionista local, e com Délio Machado, fiz parte do trio de responsáveis que fez entrega formal ao governador civil, Torquato de Magalhães, da lista de candidatos da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Lembro-me de Otílio de Figueiredo dizer, à saída: "Isto foi o mais fácil. Agora é que 'vão ser elas!'".
E foram. As dificuldades criadas pelo regime à atividade da oposição sucederam-se, ao longo das semanas seguintes, com intimidações e obstáculos, desde pressões sobre as tipografias e proprietários de espaços para potenciais reuniões públicas até à não disponibilização das listas dos eleitores. Tivemos uma elevada despesa para mandar fotografar (é verdade, não havia fotocópias!) esses cadernos eleitorais, porque (para quem não saiba) os boletins de voto eram impressos sob responsabilidade de cada lista e tinham de ser entregues, individualmente, no endereço de cada eleitor. Nada que se parecesse com as "cruzinhas" atuais, no boletim recebido na assembleia de voto.
Verdade seja que não facilitávamos nada. Em plena campanha, fizemos um requerimento em "meia-folha-de-papel-selado", alegando ilegalidades formais na propaganda da União Nacional, o que levou a que o "partido único" tivesse de pagar uma humilhante coima. E ainda me surpreende a coragem que tivemos, dois ou três comparsas, ao sentarmo-nos na terceira fila do comício da União Nacional, ovacionando ruidosamente quando palavras como "liberdade", "democracia" ou "paz" surgiam no meio de um qualquer discurso dos candidatos da "situação", silenciando-nos ostensivamente durante todo o resto das intervenções. Claro, fomos insultados, várias vezes...
Imagine-se agora o que significava organizar um comício da Oposição Democrática, nessas condições. Conseguiu-se alugar o Cine-Teatro Avenida, de Vila Real, para a "sessão de esclarecimento" de encerramento da nossa campanha. Papeladas e mais papeladas, diligências durante as quais éramos tratados com uma sobranceria oficial só atenuada pelo facto de algumas das pessoas nos conhecerem de há muito, bem como às nossas famílias. Isso não evitava provocações, bocas acusatórias ("comunas!", "anarquistas!") e irritantes chamadas à polícia e ao Governo Civil, por tudo e por nada. Mas, se bem me lembro, vivíamos isso como uma bela "festa".
O nosso objetivo era ter a sala cheia e mobilizada, pelo que contávamos com o reforço dos oposicionistas vindos de todo o distrito. A sessão convocara também muitos "bufos", servidores do regime que iam "ver quem estava", para poderem avisar o seu "patronato". Como reforço, umas caras novas andavam pela terra, com ar-de-quem-não-quer-a-coisa, isto é, com ar de pides.
A noite começou com uma imensa "gaffe" política. Alguém tinha instruído o Manuel "Pataquinhas", assalariado para algumas tarefas logísticas, para "pôr discos" com marchas mobilizadoras, do tipo "John Philip Sousa". A certo momento, começou a ouvir-se o "Angola é nossa!", talvez o mais emblemático expoente da propaganda musical do colonialismo. Foi preciso um de nós saltar para o palco, atrás de cuja cortina estava o gira-discos, quase despedaçando o aparelho, com fúria, aos berros ao "Pataquinhas". Lá se compôs tudo, com ordens rigorosas sobre as músicas que poderiam ser tocadas.
E o comício começou, com os nossos candidatos em palco. Depois de tocado o hino, todos sentimos, contudo, que o ambiente não "arrancava". Havia uma nítida falta de entusiasmo, apenas umas escassas palmas a sublinharem as frases mais sonantes dos oradores. Alguma coisa não estava a ir bem. Não percebíamos a razão.
Foi então que, num segundo, se entendeu o que estava a falhar: as luzes da sala, que iluminavam o público, que deviam desaparecer após o hino, permaneciam acesas. Alguém "voou" para os bastidores, a sala enegreceu-se e a "coragem" do auditório explodiu. A partir daí foi um fartote de "Viva a liberdade", "Abaixo o fascismo", "Abaixo o Caetano", "Abaixo a Ditadura" e coisas similares. Até que enfim! E a noite acabou em glória!
Porém, o comício só não havia sido um sucesso completo pelo facto de um dos nossos candidatos, revelando abertamente uma orientação política própria, que já vinha a ser clara há uns tempos, ter afirmado, a certa altura, que o "o ultramar é português" (teria sido ele a encomendar o "Angola é nossa!"? Quatro décadas depois, ele garante-me que não...). Alguns dentre nós ficámos furibundos com essa declaração. Como a oposição, em Vila Real, era de natureza unitária e comportava uma multiplicidade de tendências, havíamos tentado iludir as profundas divergências, que entre nós existiam, face à questão colonial. Mas, neste caso, a procurada ambiguidade fora quebrada. A reunião da direção de campanha, que teve lugar após o comício, não consensualizou uma rejeição formal da tomada de posição do candidato (o que, aliás, teria sido um imenso erro). Num gesto de radicalismo pateta, recusei-me a integrar uma delegação dos oposicionistas vila-realenses que deveriam, no dia seguinte, ir a uma reunião da Oposição Democrática à escala nacional. Coisas de quem tinha então 21 anos!
Agora, neste Agosto quente em Vila Real, deu-me para recordar este episódio.

O Olívio (2.10.10)
O meu mais antigo amigo chama-se Olívio. Nascemos no mesmo ano, na mesma rua (amanhã saberão qual é) e, claro, não me lembro de mim sem o conhecer. O pai do Olívio tinha, lá na rua, uma casa de conserto de bicicletas, pelo que era conhecido como o "Olívio das bicicletas".
Entrámos juntos para a escola, embora o Olívio tivesse sabiamente optado, desde muito cedo, por um ritmo de conclusão dos anos letivos um pouco mais lento que o meu. Tinha, e tem, um jeito sarcástico no falar, um sorriso marcado por uma permanente ironia e uma imensa graça, às vezes ácida, que nunca deixou de espalhar. Fala às mulheres com delicadeza e isso teve as suas recompensas. Recordo uma madrugada de 67, na "Candeia", no Porto, vindo ele de Vila Real vender antiguidades (o seu hobby de estimação), com o dinheiro do negócio rapidamente transformado por nós em whisky e em outros produtos locais, com ele, generosamente, a financiar a minha curta bolsa de estudante.
No final dos anos 60, acabámos por ir ambos para Lisboa, embora com vidas diferentes, em grupos muito diversos. Encontrávamo-nos no Montecarlo, cada um em sua tribo. Aí eu trocava livros e conversa, enquanto ele perdia as noites e ganhava a vida como grande especialista em dominó, atividade que já o tinha tornado famoso na nossa comum ter ra natal, Vila Real.
Depois, fomos para a tropa, era ele delegado de propaganda médica, estava eu no meio do curso e também já empregado. Sobrevivemos bem. Anos mais tarde, chegou-me a notícia de que o Olívio, que vivia na Luz Soriano, havia sido preso. Um lamentável equívoco, provocado por uma amiga solidariedade, ia-lhe destruindo a vida. 100% inocente, claro, foi solto, mas terá aprendido alguma coisa sobre os outros. Depois, montou um bar, o "Cocote", atrás da Caixa Geral de Depósitos, ao Calhariz. Todo o "emigrado" de Vila Real por lá passava as noites. Recordo-me (ele não vai gostar disto...) que tinha um dos piores whiskies "marados" de toda a Lisboa, pelo menos a julgar pelas dores de cabeça que me provocava. Depois, fechou a loja e entrou nas antiguidades e no comércio de pintura. Passava as noites no "Pavilhão Chinês", onde também exercia a sua bela arte de bilharista.
A saúde pregou-lhe uma séria partida e o Olívio regressou, entretanto, a Vila Real, só voltando a Lisboa a espaços. Encontramo-nos às vezes.
Ontem, num interlúdio televisivo, estava eu a ver um videoclip do grupo musical "Toranja" e quem topo eu, figurante, cabelo curto, já muito branco, bengala na mão, com o ar quase aristocrático? O Olívio. Pois é, Olívio, por esta é que eu não esperava!
O nascimento da República (3.10.10)
Durante o mês de agosto, recebi do presidente da Câmara Municipal de Vila Real um simpático convite para participar nas comemorações da implantação da República. Vila Real é a minha terra natal.
Pediam-me que, na noite de 3 de outubro, fizesse uma intervenção pública, por ocasião do descerramento de uma lápide junto de uma casa onde, nos tempos que antecederam a Revolução, decorreram reuniões da conspiração republicana. O último desses encontros foi em 3 de outubro de 1910, quando os conjurados aí então se reuniram, pela última vez, antes do assalto ao poder.
Por uma óbvia curiosidade, perguntei onde se situava, na cidade, essa casa. Fui informado que era na rua Avelino Patena, a conhecida "rua da Travessa", no centro da cidade. Inquiri sobre o número da porta. O meu interlocutor não sabia. Uns dias depois, esclareceu-me: era o nº 44.
Ontem à noite, sob a intempérie que massacrou o Norte, lá estive a falar da República, em frente ao 44 da rua Avelino Patena.
Pude então revelar que aquela havia sido, precisamente, a casa onde eu nasci...
Portugal em obras (27.10.10)
Uma rua essencial para o acesso da cidade de Vila Real ao seu hospital encontra-se bloqueada, desde há semanas, por obras de ligação da rede de águas.
Durante vários dias, nenhum operário apareceu nessas obras. Seria uma greve? Uma crise laboral? Não, parece que o empreiteiro tinha levado os trabalhadores para as suas vindimas...
País bizarro, este!
Periferia? (28.10.10)
Entrar numa tabacaria em Vila Real, antes de almoço, e poder comprar o "Le Monde" com data "Jeudi 28 octobre 2010" (sim, eu sei que o "Monde" sai na véspera, a meio do dia, com a data do dia seguinte, mas mesmo assim...) é a prova provada de que a periferia já não é o que era.
Sem nostalgia (antes pelo contrário...), recordo-me dos tempos - final dos anos 60 e durante os anos 70 - em que disputávamos, da parte da tarde, os muito escassos "Diário de Lisboa" da véspera, que eram destinados à venda na cidade. Os mais atentos sentávamo-nos então no café "Pompeia", de olho na tabacaria do "Bragança", logo em frente, à espera de ouvir o barulho da motocicleta do Fernando "Choco", em cuja caixa traseira chegavam os rolos com os "Lisboas", trazidos da estação. O Neves da "Pompeia" ficava furibundo quando via abalar, de sopetão, esses clientes oportunistas, motivados apenas pela geografia citadina, em direção à pastelaria "Gomes", onde um mais generoso consumo, a leitura e a conversa de tertúlia dos universitários em férias iria prosseguir.
Alguns anos antes, muitos de nós tínhamos um ritual em tudo idêntico. Só que a moto era do Albertino "dos jornais", o local de espera eram as escadas do Banco de Portugal, no "Cabo da Bila*", a publicação por que se ansiava era, uma vez por semana, o "Cavaleiro Andante". Outras idades e outras letras.
*Com "b", claro
Promoção comercial (1.11.10)
A noite de sábado estava feroz, lá por Vila Real. Decidimos, mesmo assim, ir jantar, em grupo familiar, a um restaurante. Sob chuva e vento, saímos dos carros. Perguntámos ao empregado que nos abriu a porta:
- Há lugares?
A resposta foi um "must" de promoção comercial:
- Montes deles! Com uma noite destas, só os malucos saem de casa...
Para a história: comeu-se bem.
O "malho" (27.12.10)
Desde que me conheço que me vejo rodeado de dicionários. O meu pai, em Vila Real, tinha dicionários de tudo e mais alguma coisa, de diversos franceses do século XIX (do Gregoire e os Vapereau ao excelente "de la Politique", de Block) aos clássicos Cândido de Figueiredo e Torrinha, passando pelos Lellos (ilustrados ou não). No meio dessa inumerável coleção, havia lá por casa dicionários espanhóis, ingleses, muitos de tradução entre línguas (algumas que nunca falei) e outros cuja utilidade prática verdadeiramente nunca descortinei.
Com toda a certeza por via dessa saudável influência, desde cedo que comecei a ter os meus próprios dicionários. Lembro-me que ganhei o meu primeiro "Porto Editora" num concurso de cruzadismo e que foi a (depois) minha mulher quem me ofereceu, há bem mais de 40 anos, um fac-simile do "Littré". Aprendi a andar com eles sempre à mão (até nos carros), espalhados por todas as mesas onde trabalhei (e continuo a fazê-lo, porque ainda não acredito nos "on-line" e, muito menos, em alguns imbecis corretores ortográficos). Tenho dicionários um pouco de tudo: de verbos, de sinónimos, etimológicos, onomásticos, de provérbios e incontáveis volumes temáticos (muitos em inglês, francês e espanhol), para além dos óbvios Larousse e Michaelis. Trouxe, do Brasil, o Aurélio (o "Aurelião"), o Houaiss e, claro, o Caldas Aulete. Também tenho as dezenas de volumes da Encyclopaedia Britanica e a Luso-Brasileira (mas não a da Verbo, com que, desde sempre, embirro), com as respetivas atualizações (até que o bom-senso e a falta de espaço me levaram a parar). E tantos, tantos outros dicionários, enciclopédias e quejandos.
Mas toda esta conversa vem a propósito do "malho". Na minha família o "malho" designa os 12 volumes do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Moraes Silva, na sua 10ª edição, que o meu pai assinara em fascículos durante mais de uma década. Desde miúdo que me habituei a consultá-lo, para ajudar o meu pai e o meu avô nos exercícios de palavras cruzadas, nas noites antigas, em que a televisão nos não monopolizava. Quando a dúvida se instalava sobre um determinado significado, o meu pai dizia, em jeito de desempate definitivo: "vamos ao malho". E eu, impante, encarregava-me com ardor dessa tarefa - de um modo que me levou mesmo a saber de cor as palavras iniciais e finais de cada um dos volumes, inscritas nas lombadas. O "malho*", na sua bela encadernação de couro com ferros dourados, continua a ser o dicionário-rei da minha casa, por mais novos dicionários de língua portuguesa que por aí apareçam - mas que eu não deixo nunca de comprar, sempre...
Mas o (agora) meu "malho" remete para uma historieta curiosa. O meu pai havia mandado encadernar os primeiros seis volumes do "malho" ao sr. Morais (homónimo do autor do dicionário), um dos escassos (mas o melhor dos) encadernadores de Vila Real. Saíu "obra asseada", porque o artesão era excelente, embora um tanto lento.
Uns anos mais tarde, acabada que foi a publicação da totalidade dos fascículos, o meu pai informou o sr. Morais de que estavam prontos para ser encadernados os restantes seis volumes. E aí surgiu uma surpresa desagradável: o homem disse que já não se dedicava a trabalhos tão elaborados, que há muito que havia deixado de utilizar os "ferros" da anterior encadernação e, pedindo embora muita desculpa, informou que não podia levar a cabo a tarefa. O meu pai ficou desolado. Que poderia fazer? A obra ficaria incompleta e não conhecia ninguém capaz de substituir o Morais. Estávamos nos anos 60 e recordo bem do desgosto com que o meu pai falava do assunto em casa.
Na tertúlia diária da Pastelaria Gomes, curiosamente a escassos metros da (então) loja do sr. Morais, o meu pai contou um dia o seu problema a um grupo de amigos. Desse cenáculo fazia parte o comandante da PSP de Vila Real, que logo se prontificou a ajudar: "Não se preocupe. O meu amigo vem comigo ao Morais e o assunto resolve-se já". E lá partiram, o meu pai e o comandante da PSP, rumo ao encadernador.
A cena que se segue é edificante e bem reveladora dos tempos de então:
- Ó Morais, então o meu amigo não quer acabar a obra que começou?
- Sabe, senhor comandante, já me deixei desses trabalhos mais pesados. Agora estou mais nas revistas e nas encadernações simples.
- Essa agora! Ao iniciar uma obra, um profissional compromete-se a acabá-la. Isso é uma falta grave, ó Morais. Olhe que pode vir a ter problemas...
E, perante o espanto (e o deliciado constrangimento) do meu pai, e graças a este método de (pouco subliminar) convicção, o Morais lá acedeu a acabar o trabalho. Dizia-me o meu pai que ele acabou por se vingar... no preço. Mas o "malho" ficou completo.
* E na pag. 422 do VI volume, lá está a definição de "malho" como"coisa certa, infalível".
O outro défice (2.1.11)
O cenário era o balcão do "Tosta Fina", o lugar geométrico dos grandes pequenos almoços em Vila Real. Ontem. Os interlocutores eram dois recém-trintões, bem na vida, seguramente com muitas cilindradas à porta.
- É pá, já viste o pessoal que marou em desastres? - disse um deles, mostrando uma notícia do JN sobre as vítimas de acidentes de tráfego desde o Natal.
- É, há muito gajo que não devia guiar. São uns nabos.
- Bom, estes já não guiam mais... (risos alarves duplos)
Pausa para o croissant com fiambre e o sumo de laranja. A bica final reabre a conversa:
- Onde é que foste no fim-de-ano?
- À Corunha.
- Como é que fizeste? Vieste por Chaves?
- Não, pá! Vim por dentro. Em Espanha é uma chatice, não se pode andar, têm bófia à toca por todo o lado, nas estradas. E aquilo é a doer. Só quando se chega à fronteira é que o pessoal pode largar. De Valença cá, foi um tirinho. E tu, onde foste?
- Fui à Estrela. Agora é fácil, com a A24. Consegue-se colar aos 200, muitas vezes. É sempre a bombar. E aqui não há chuis, é porreiro.
Quando me dizem que o principal problema português é o défice orçamental dá-me vontade de rir. Pouco.
La Lys e a Legião (10.4.11)
No próximo fim de semana, vamos de Paris a La Lys, perto de Lille, rememorar, como anualmente fazemos, a batalha trágica em que morreram muitos militares portugueses, no termo da primeira Grande Guerra.
A batalha teve lugar em 9 de abril de 1918. Na minha infância, em Vila Real, a data era comemorada com uma romagem ao monumento a Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome. Nas comemorações, tinha um papel mobilizador a Legião Portuguesa que, nas vésperas, vendia pela cidade miniaturas de capacetes militares, para pôr ao peito, financiando a Liga dos Antigos Combatentes.
As novas gerações desconhecem essa organização, criada num tempo em que o Estado Novo tinha uma vocação protofascista. A Legião era uma espécie de milícia armada, comandada por figuras políticas do regime ou por militares na reserva, que frequentemente era encarregada de levar a cabo algum "dirty work", muitas vezes em íntima ligação com a polícia política.
Nos anos 50, o regime pressionava fortemente os funcionários públicos a fazerem parte da Legião. Muitos aceitavam, as mais das vezes por temor a represálias do que por uma sincera adesão ideológica, outros recusavam, com dignidade e coragem. Após o desencadear da guerra colonial, a Legião desenvolveu, no seu seio, a Defesa Civil do Território, que tentou, sem grande sucesso, mobilizar esses setores oficiais do país para um cenário improvável de guerra no território europeu.
Com o tempo, com a desaparição do entusiasmo dentro do próprio regime pela "Revolução Nacional", a Legião foi-se "apagando" na província, embora subsistindo com algum vigor em Lisboa. A organização destacou-se em ações provocatórias perante a episódica emergência de movimentações democráticas, nos chamados "períodos eleitorais". Foi também responsável por algumas ações de vandalismo, como o ataque à Sociedade Portuguesa de Escritores (em 1965) ou à Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa (em 1969). A Legião, em especial através da sua FAC (Força Automóvel de Choque), levou ainda a cabo diversos atos de natureza repressiva e persecutória, alguns já no período do marcelismo.
Nessa fase terminal da "situação" (delicioso nome dado popularmente à ditadura, por contraste com a "oposição"), a Legião já se não sentia muito à vontade, tendo ainda como principais dirigentes figuras ligadas a setores de saudosismo salazarista, que contestavam a "primavera marcelista". Recordo, porém, em 1971, já na chamada "abertura" marcelista, o cerco feito por elementos da FAC a uma reunião do associativismo universitário, no Instituto Superior Técnico, que obrigou os integrantes da mesma a terem de saltar muros e a algumas corridas pela madrugada lisboeta.
Nesses últimos anos do regime, a Legião havia sido reforçada por algum "lumpen", por elementos da antiga OPVDCA (uma organização paramilitar criada em Angola, em 1961) e por militares desmobilizados. Ao que julgo saber, a ação da Legião Portuguesa concentrava-se então em ações de segurança de instalações petrolíferas na zona oriental de Lisboa. No 25 de abril, alguns dos revoltosos temiam, por mero desconhecimento, a força da Legião Portuguesa e a sua capacidade de resistência. Afinal, a organização viria a revelar-se um mero "tigre de papel", para usar uma expressão à época muito em voga.
Vale a pena reconhecer, em abono da verdade, que, ao menos no que respeitava às comemorações da batalha de La Lys, a Legião acabou por desempenhar um papel meritório. Era patrioticamente pedagógico, para as crianças das escolas, ver de perto o valoroso soldado Milhões, bem como os seus colegas veteranos da primeira Grande Guerra, orgulhosos com as suas condecorações ao peito, perfilados em frente ao monumento a Carvalho Araújo, ouvindo hinos e honras militares.
Hoje, já não há velhos militares vivos dessa guerra e nem sei se alguém honra, em Vila Real, os mortos de La Lys. Aqui em França, e desde há muito, os embaixadores de Portugal e as Forças Armadas portuguesas cumprem, com empenhamento, esse ritual de respeito. No meu caso, regresso, com gosto, ao passado. Agora sem a Legião Portuguesa, claro.
Délio Machado (17.5.11)
Chegou-me a notícia: morreu, em Vila Real, Délio Machado. Imagino que a esmagadora maioria dos leitores deste blogue não faça a menor ideia de quem ele era. Tratava-se de um homem simpático, na casa dos 80 anos, com um permanente sorriso, uma figura cuja imagem fazia parte do meu cenário da cidade, desde a infância. De uma família visceralmente "republicana" (vocábulo para significar "democrata"), foi um cíclico activista nas escassas aberturas "eleitorais" do Estado Novo.
No pequeno mundo que era Vila Real, no final dos anos 60, aproximei-me dele por via da política. Ele era um moderado, num tempo em que eu era um radical. Recordo, por exemplo, discordarmos fortemente sobre o modo de abordar o tema da política colonial. Trabalhámos juntos, e conhecemo-nos melhor, na montagem da máquina da Comissão Democrática Eleitoral, que, em Vila Real, concorreu às "eleições" de 1969. No alto dos meus 21 anos, com ele e com Otílio de Figueiredo, coube-me então a honra de integrar a delegação que fez a entrega formal da lista oposicionista do distrito ao Governador civil do regime.
Délio Machado era um eficaz operacional político. No seu rápido NSU - ele que foi sempre um homem dos automóveis - corremos "seca e meca" a tentar mobilizar figuras tidas como "gente fixe", em diversas localidades, pessoas que tinham estado "conosco" (não comigo, claro) nos tempos "do Norton e do Delgado". Tivemos então algumas boas surpresas, muitas outras desilusões e, numa tarde, escapámos por uma unha negra a uma sova de varapau em Abaças, ameaçados por gente da "situação". No final dessa bela aventura política, levámos uma já esperada "abada", sob a criativa aritmética de resultados da ditadura. Mas divertimo-nos imenso. E ficámos, para sempre, com uma relação de amizade e solidariedade.
Passaram, entretanto, quatro décadas. A vida fazia com que nos encontrássemos apenas a espaços, nas minhas passagens por Vila Real. Falávamos da política de hoje e recordávamos, por vezes, episódios dessa intensa jornada de outrora. Chegámos mesmo a planear organizar algo para fixar a memória desses tempos. Tal, porém, nunca se proporcionou.
Há poucos anos, teve a amabilidade de me oferecer a sua documentação política, que ainda não tive oportunidade de tratar. Agradeci-lhe o gesto, numa visita que lhe fiz, no lar onde estava alojado, no último dia de 2009, a desejar-lhe um bom ano. Não tive possibilidade de lhe ir dar um novo abraço, como era minha intenção, no final do ano passado. E, agora, já não o posso fazer.

As cidades e os homens (12.7.11)
São apenas os homens que constroem as cidades? Ou as cidades também fazem os homens? A atribuição da medalha de ouro do Município de Vila Real ao engº Humberto Cardoso de Carvalho, nestas festas da cidade, colocou-me a interrogação.
Um jovem engenheiro, recém-formado, chegou, nos inícios dos anos 50, a uma isolada cidade de província, como era então Vila Real. Trazia consigo vontade de trabalhar e o dinamismo culto de uma família portuense que tinha andado por outros mundos. A facilidade do relacionamento ligou-o, de imediato, às instituições locais. E, muito, às pessoas. Casou pela cidade.
E a cidade logo chamou por ele. Para a presidência da Câmara municipal. Aí fez obra que, no essencial, ainda hoje, décadas depois, se tornou uma marca identitária da terra. O mercado municipal ainda é o mesmo. O Diogo Cão também. A avenida, dita “marginal”, aí está, connosco a não imaginar a cidade sem ela. E tantas, tantas outras realizações, que, um dia, valerá a pena destacar em conjunto, para se medir melhor a coerência de um projecto de dedicação cívica. E outras coisas, que não fez mas que aventou, antes de ninguém, como o túnel do Marão.
Na cidade, pode dizer-se que esteve em tudo. No circuito automóvel, que impulsionou. E também nos bombeiros, a que deu um apoio essencial. Claro está, no Sport Clube, que ajudou a sobreviver. Solidário, colaborou na Misericórdia. Com naturalidade, teve a fraternidade do Rotary no seu percurso. E muitas coisas mais.
Um dia, seduzido pela ideia de que o país podia dar um salto de liberdade, num tempo de conformismo, aceitou ser deputado. Não daqueles que desaparecem nas brumas de Lisboa, mas de quantos regressavam à terra, às pessoas, todas as semanas. Veio Abril e a cidade foi outra. Foi-lhe outra, por um tempo. Mas a cidade, a que importa, teve também teve a dignidade de se comportar como pessoa de bem. E, com serenidade, viu-o regressar ao que sempre fez, e bem, com um rigor impoluto e incontestado.
Para sempre, ficou pela cidade, já sua. E que agora lhe agradece, com o simbólico ouro da edilidade. Nada mais justo e nada mais natural.
Afinal, se são os homens quem faz as cidades, as cidades devem mostrar que sabem retribuir, que são elas que ajudam a construir os homens, colocando-os na sua história. Os que as merecem, claro.
Figuras (14.8.11)
Sou dum tempo em que se "emigrava", cedo na vida, da província para Lisboa ou para o Porto, às vezes para estudar, muitas outras simplesmente para aproveitar a macrocefalia económica das grandes cidades.
Porque tínhamos saído adolescentes da terra de origem, era-nos necessário, nos tempos das visitas em férias, começar a adquirir localmente um estatuto de adultos, em cidades ou vilas que, à partida, nos não reconheciam como tal, porque, no imaginário local, não passávamos do "filho de" fulano.
Foi assim comigo em Vila Real e, anos mais tarde, estou certo que o mesmo aconteceu, por exemplo, ao dr. Pedro Passos Coelho, que, embora bastante mais novo, teve um circuito de vida comum a muitos vilarealenses.
Mais no caso da minha geração, durante esses regressos episódicos à cidade, pelas festas ou pelas férias, um dos ritos iniciáticos de reconhecimento desse "upgrading" passava pela partilha das mesas nos cafés mais tradicionais, com pessoas mais velhas - sempre homens, claro! Levavam-nos amigos que nos ajudavam a fazer essa transição e, a pouco e pouco, íamos tendo direito de assento nesses grupos de pessoas.
Alguns eram homens de personalidade marcante, verdadeiros "opinion-makers", quase sempre com ideias bem definidas, respeitados, por vezes temidos, acolitados por amigos que se apagavam sob o seu brilho e davam deixas para as suas "saídas". Muitos eram incontestáveis chefes de tertúlias, que contavam histórias deliciosas sobre gente local desaparecida.
(Não resisto a contar uma das mais clássicas, a imorredoura frase do Dr. Sampaio e Melo, o qual, do alto da sua bigodaça e voz forte, uma tarde dos anos 50 anunciou, perante um dúzia de amigos: "Tenho a comunicar-vos que acabo de dormir com a mulher de um dos presentes!". O embaraçoso silêncio que se abateu sobre o grupo, por penosos segundos, só se diluiu com o esclarecimento subsequente: "Com a minha, claro!")
Nesses encontros de gerações, que, com o decorrer dos anos, atenuam décadas de diferenças de idade e colocam todos numa espécie de camaradagem atemporal, os mais novos iam criando lentamente o seu estatuto, sendo-lhes dada uma atenção progressiva, à medida da própria maturidade que iam demonstrando. Mas o papel das grandes figuras, desses marcos humanos que fazem a identidade das pequenas cidades, esse mantinha-se intocado e intocável. Eram advogados, médicos, engenheiros ou empresários que, com o prestígio e os cabedais ganhos, a que muitas vezes se somava um tecido familiar conhecido e reconhecido, se haviam alcandorado ao pequeno grupo de "grandes senhores" locais - e uso a expressão com todo o sincero respeito que o conceito me merece.
Uma tarde, no final dos anos 60, numa dessas mesas a que eu tivera acesso numas férias da universidade, a discussão derivou para a caça e para a pesca. Como estes eram temas que nada me diziam, fiquei calado, a ouvir os "experts". A certo passo, vieram à baila as imperativas alvoradas a que aquelas atividades obrigam. Nesse particular, o meu silêncio já traduzia algo de embaraçado: nessas férias escolares, os meus pequenos almoços raramente tinham lugar antes do meio-dia, na obediência ao sacrossanto princípio de que "se esta vida são dois dias, há que aproveitar bem as noites...".
Liderava tal conversa o dr. Manuel Vaz de Carvalho.
Tratava-se de um advogado literato, poeta de mérito, muito culto, de qualidade intelectual reconhecida desde os tempos de Coimbra, figura prestigiada da barra da Justiça, cujo verbo argumentatório se dizia ser temido por magistrados e colegas, muito para além dos limites da comarca. Vivia numa moradia na Timpeira, então um arrabalde da cidade, com um rancho de filhos, educados com rigor, onde a minha e as subsequentes gerações ancoraram sólidas amizades. Com uns cabelos revoltos, tinha voz forte e um fácies grave, que escondia uma finíssima ironia e uma imensa capacidade de ser amigo do seu amigo.
O dr. Vaz de Carvalho, num dos momentos da conversa, sentenciou, para a mesa: "Eu nunca percebi como pode haver por aí uns maduros que não sabem apreciar um nascer-do-sol, a clareza de uma manhã de primavera na saída para uma pescaria, o fresco desafiante das primeiras horas de um dia de outono, para partir por esses montes à caça! Há por aí uma malta que se levanta sempre tarde, que perde as noites e que não sabe apreciar o sol das manhãs". E a diatribe prosseguiu, com o fuzilamento verbal desses madraços.
Embora a tirada me não fosse dirigida, eu sentia-me potencialmente esmagado, porque a "carapuça" servia-me à medida. Em busca de apoio solidário, olhava para dois ou três camaradas de noitada sentados em volta, que miravam os espelhos da "Pompeia", disfarçando, brincando com as colheres do café, num tempo em que não havia ainda telemóveis para fingir ocupação. E, sei lá!, para dar-me ares de à-vontade, devo ter pedido ao Neves mais um "fino"...
E lembro-me de ter tido a tentação de dizer: que também eu gostava imenso do nascer-do-sol e do fresco do início da manhã. Só que, imediatamente a seguir, costumava ir deitar-me... A prudência aconselhou-me, e bem, a não lançar essa graçola para a mesa, pela impertinência que o meu estatuto ainda não permitia. Nem quero imaginar o que o dr. Vaz de Carvalho me responderia!
Poucas vezes havia contado esta historieta. Na semana passada, ri-me, com ela, com o Paulo, o genial guitarrista e professor universitário, filho do dr. Vaz de Carvalho, num simpático almoço a dois, no sossego do Lameirão.
Ao princípio desta tarde, soube que o dr. Manuel Vaz de Carvalho tinha falecido, precisamente ontem. Ainda fui a tempo de dar um abraço sentido à sua família. E de aqui deixar esta despretenciosa historieta, em memória de uma das grandes figuras que marcou a Vila Real do meu tempo.
Prestígio (18.8.11)
A pequena história que anteontem contei, sobre um percalço familiar de um meu conterrâneo, suscitou algumas indignações femininas. Nada de que se não estivesse à espera!
Isto acicatou, devo dizer, o meu pendor para, neste tempo "light" estival, provocar o "politicamente correto" e trazer à memória uma outra historieta, de que há muito ouvi falar.
Tratava-se de um cavalheiro, bem apessoado, figura de elevado nível na administração pública de Vila Real, o qual, por razões funcionais, era obrigado a deslocar-se "lá baixo", a Lisboa, com alguma regularidade. Nesses tempos dos anos 60, essas viagens eram longas, obrigando a estadas de mais do que uma noite.
Um dia, uma amiga da mulher desse oficioso viajante perguntou-lhe:
- Ouve lá! Tu não achas que o teu marido, com todas essas viagens a Lisboa, não pode ser tentado a ter por lá algum "caso"?
A senhora, pessoa serena e muito educada, respondeu-lhe:
- Sabes?, se calhar tens razão. Mas se há coisa que eu não posso controlar é isso. Ele fica lá por Lisboa no Suíço-Atlântico e tudo pode acontecer. Mas, olha!, se alguma coisa ocorrer, ao menos tenho a esperança de que ele não faça "fracas figuras"...
Estou certo que mesmo as mais empedernidas feministas do meu "quadro" de comentadores não deixarão de achar tocante esta preocupação com o prestígio familiar.
O 5 de Outubro (4.10.11)
Em Portugal, no tempo da ditadura, o 5 de Outubro, dia de implantação da nossa República, era uma data regularmente aproveitada pelos oposicionistas para celebrar a memória da democracia.
O curioso é que, ao tempo, alguém dizer-se "republicano", num regime que não tinha coragem de se afastar terminologicamente do conceito, era quase um ato de coragem, porque afirmava uma explícita rejeição do regime instaurado em 28 de maio de 1926. Ou, muito simplesmente, significava uma implícita colocação no campo da "oposição" ao Estado Novo, cujos defensores eram então designados, até pelos próprios, como a gente da "situação".
Nesses tempos, antes da Revolução de abril, recordo-me de ter participado em algumas iniciativas oposicionistas por ocasião do 5 de outubro. Eram, vulgarmente, romagens a cemitérios lisboetas onde estavam sepultadas figuras republicanas. Um dos momentos altos, nessa data, quase sempre alvo da repressão policial, consistia numa (muitas vezes apenas tentativa de) concentração junto ao monumento a António José de Almeida, ao Arco do Cego. Nunca esquecerei a figura magra, alta e esquálida de um homem que sempre aparecia nessas manifestações em Lisboa, com uma grande bandeira portuguesa, que a polícia, mesmo nos momentos de perseguição aos ajuntamentos, se via obrigada a respeitar. Não sei se a esse homem chegou a ser atribuída a Ordem da Liberdade. Bem a mereceria.
No ano de 1969, passei a data de 5 de outubro em Vila Real. Ao tempo, preparávamos no distrito o movimento da Oposição democrática (a Comissão Democrática Eleitoral, CDE) que haveria de defrontar a lista local da União Nacional. Contrariamente às listas CDE que haviam sido criadas em Lisboa, Porto e Braga, numa base um pouco mais radical, as CDE de província eram movimentos unitários onde se encontrava um pouco de tudo - republicanos "reviralhistas", monárquicos em aberta rutura com o regime, católicos em curso de dissidência com a hierarquia, socialistas de vários matizes, os comunistas "oficiais" do PCP e tantos outros, menos ou mais esquerdistas (como era o meu caso), sem filiação mas com uma imensa vontade de ver o Estado Novo pelas costas.
Organizado por um grupo liderado por essa grande figura de democrata que era o médico Otílio de Figueiredo, teve lugar, na noite de 4 de outubro de 1969, no restaurante Espadeiro, um jantar "oposicionista", que comemorava o "5 de outubro". Nele tomavam parte as figuras mais proeminentes da Oposição do distrito, tendo à frente, além do próprio Otílio de Figueiredo, José Alberto Rodrigues, Júlio Montalvão Machado e Camilo de Sousa Botelho. Eu e um grupo de jovens que fazíamos parte das estruturas organizativas da CDE de Vila Real decidimos dissociar-nos desse ato, por termo-lo considerado uma manifestação "burguesa" e saudosista. Só aparecemos para o café... No meu caso, fui mais longe: publiquei, na véspera, um artigo algo provocatório, no jornal local "A Voz de Trás-os-Montes", onde afirmava (e cito de cor) que "a nós não nos interessa nada o 5 de outubro de 1910, mas apenas o 5 de outubro de 1969". Os respeitáveis democratas vilarealenses devem ter olhado com displicente magnanimidade para essa nossa descabida ousadia. Só assim se compreende que tenham continuado a aceitar a nossa colaboração, nessa bela aventura que foi a campanha para as "eleições" para a Assembleia Nacional.
As 24 horas de Vila Real (16.10.11)
No aeroporto: relato a um amigo espanhol as palavras certeiras do presidente Cavaco Silva, num discurso em Florença, onde denunciou as derivas institucionais da União Europeia e a "mainmise" intergovernamental. Resposta dele: "Pena é que o teu compatriota Barroso, em lugar de fazer um comício tardio no Parlamento europeu, a tentar absolver-se da clandestinidade da Comissão, não tivesse dito isso mesmo há muito mais tempo". Por mais que tente, não me recordo da expressão exata, em castelhano, com que ele acabou a frase. Mas soou a "É o dizes!".
No jornal: o doentio catastrofismo nacional de António Barreto é objeto de um comentário irónico de Vasco Pulido Valente, a quem, como é sabido, nunca ninguém apanhou uma palavra de dúvida sobre o futuro de Portugal.
Nas ruas: nascem como cogumelos os locais de compra de ouro. E que grande época aguarda as lojas chinesas!
Na universidade: ou foi impressão minha ou o efeito da crise soltou-nos o discurso a todos. Falo por mim. Nunca dirigi um reunião de forma tão caótica. Mas pode ter valido a pena. Toda a gente começa a perceber que já não há tempo para perder tempo.
No quiosque: "Leva quatro jornais e duas revistas?! Caramba! Muito obrigado!"
No restaurante: "O senhor vem lá dos frios de Paris e acha que está calor?! Olhe que por cá tudo sobe: a temperatura, os preços, os impostos... Ah! e também a raiva..."
Um familiar: fez ontem 99 anos! Fui dar-lhe um abraço. Disse-me: "acho que vou chegar aos 100!". Vai, claro! E Portugal está quase a chegar aos 900! Estamos aqui para durar!
Por todo o lado: é impressionante a unanimidade angustiada nas expetativas das pessoas com quem nos cruzamos. Quanto mais não seja por espírito de contradição, vou apostar em como isto ainda vai dar a volta. Não é impunemente que se faz uma vida como sportinguista.
No avião de regresso: conversa longa e proveitosa, entre o Porto e Paris, com Artur Santos Silva. É bom escutar os que ganharam uma sabedoria serena e tolerante.
Um amigo, triste, a comentar, ao telefone, as manifestações: "Começo a estar menos preocupado com a taxa de desemprego e muito mais com a taxa de desespero".
À esquina da Gomes (24.12.11)
Sabem o que é a Gomes? A maioria dos leitores deste blogue não sabe, estou certo. Tal como acontece em todas as cidades, Vila Real tem um café de culto. Neste caso, a Pastelaria Gomes.
Porquê a Gomes? Porque sim. Distinguiu-se sempre da antiga Pompeia, do meu desaparecido amigo Neves, por ser mais cosmopolita; da Rosas, do sr. Rosas, por ser mais intimista e dispensar as bizarrias do Toninho; do Excelsior, por ser mais elitista, por esconder os bilhares e não ter dominó; do Clube, por não ser habitual por lá ver comerciantes de gado de samarra e cajado; do Imperial, do sr. Lima, por ali não ser hábito ver o patrão a bater nos clientes; da Brasileira, logo em frente, porque, c'os diabos!, nunca custou nada atravessar a rua.
A Gomes começou na "Gomes velha", onde ainda me recordo de ver, à porta, o sr. Gomes e onde hoje se vai pelo bolo-rei, pelas "cristas de galo", pelos "jesuítas" ou, sazonalmente, no S. Brás, pelas "ganchas" e pelos "pitos" de Santa Luzia, embora a concorrência doceira do Lapão seja cada vez mais feroz. Foi depois construído o novo edifício, que teve a imensa novidade de possuir um elevador... que nunca ninguém viu funcionar. E que tinha, no alto de um mastro, uma misteriosa lâmpada que se mantinha acesa enquanto a casa estivesse aberta à noite, sinal de que podiam ser servidos, se se apressassem, os "connaisseurs" que viessem do Porto, pela estrada velha, logo que chegados à "curva do espanto", em Arrabães, primeiro lugar de onde, no Marão, se vislumbravam as luzes da cidade.
Se a memória me não falha, a Gomes foi, em Vila Real, o primeiro café onde as mulheres podiam ir, com naturalidade, sozinhas. Dizia-se, nesses anos, que receber um convite para tomar chá na Gomes ("em cima", sempre "em cima") com a dona Irene Viana (mulher do dentista e meu professor de ginástica) era o passaporte para a entrada das senhoras na sociedade local. E, glória das glórias!, embora poucos se lembrem disso, a Gomes foi talvez o único lugar público do género onde, que me lembre, nunca entrou uma infernal televisão.
Na Gomes sempre houve zonas geográficas mais ou menos consagradas, que não revelo para não identificar alguns dos seus regulares ocupantes. Entre eles, há os que afivelam sempre um ar "grave", de "polícia da Régua", que parece fazer parte da condição necessária para serem levados a sério. Outros falam para serem ouvidos nas mesas ao lado, num dispensável, por ineficaz, esforço de proselitismo. Os mais discretos, mas, nem por isso, os menos atentos, ficam-se pela mesa mais misteriosa de todo o café, com dois lugares, que está perto da porta interior, o único poiso onde se consegue ter uma conversa "tête-à-tête", sem risco de penduras.
A disposição física do espaço torna a Gomes uma espécie de plateia de um antigo teatro francês, com o "coté cour" e o "coté jardin" a ser dado pelas entradas - seja pela antiga máquina do fiambre (sede clássica de pouso do Zé Araújo), seja pelo antigo balcão dos "furinhos" dos chocolates, onde se colocavam jornais com suporte de madeira e onde, durante muito tempo, esteve o telefone preto. Essas duas entradas do proscénio (o Achilles explicaria isso, mas quem não for de Vila Real sabe lá quem era o Achilles) induzem uma visível timidez em certos visitantes ocasionais, atarantados pelo infalível escrutínio, seguido de cochicho. No verão, tirado o vetusto "estrado", a saída para a avenida muda o cenário, que se prolonga então pela esplanada. Obter por aí um café, em dias de enchente, é um privilégio que obriga a meter cunhas.
Foi pela Gomes que eu comecei a parar, ainda nos tempos de liceu, com mesa marcada "em cima", ao canto esquerdo de quem entra, com o brandy L34 a acompanhar o café, erro que sinto, para sempre, na memória do meu fígado. Por aí passei muitas horas a discutir coisas fúteis da vida e, cada vez mais, da política. Para as caves da Gomes fui cooptado, ritual de iniciação a que atribuí grande importância, para a visualização de alguns filmes heterodoxos, trazidos da estranja por ousados viajantes locais, sobre cujo conteúdo a moral deste blogue me não deixa elaborar. Foi na Gomes que, com alguns outros, fui, em 1969, interpelado pelo comandante da GNR, por comentários entendidos como "subversivos", que, sem consequências de maior, nos conduziram ao Governo civil.
A Gomes, honra lhe seja!, foi sempre um espaço plural, nunca foi grandes políticas sectárias, por lá pararam, serenamente, todas as tendências, da Situação ou da Oposição - e eu estive, ao longo dos tempos, em ambas, e não necessariamente por esta ordem. Em várias décadas, nunca deixei de "ir à Gomes", nas minhas estadas aperiódicas por Vila Real. E por lá passo, com gosto, em férias, sempre que posso, para rever amigos e conhecidos. E, claro, para comer um covilhete ou uma fatia de bola de carne.
A Gomes dos dias de hoje está diferente da dos velhos tempos. Às vezes, vejo-a um pouco desleixada, o pessoal, embora simpático, tem um ar um tanto errático e demasiado "casual" para o meu gosto - eu venho dos tempos clássicos do João, do "Sapo", do Gonçalo, do Fernando ou do José. Mudaram agora de traje, depois de uns balandraus que usaram, pretendidamente de côr laranja, muitas vezes já a justificarem uma visita aos sucessores do Alarcão (se não é vila-realense, passe para o parágrafo seguinte). Prova de uma mudança radical da Gomes é o facto de, julgo que pela primeira vez na sua história, "A Voz de Trás-os-Montes", no ano passado, não trazer um anúncio natalício que já havia ficado histórico na cidade: ao canto de um grande espaço em branco, havia uma nota que dizia: "se a Pastelaria Gomes necessitasse de publicidade, utilizaria este espaço"*. As instituições - e a Gomes é uma instituição - fazem-se de simbolismos. E estes devem respeitar-se, sem o que a identidade se esvai. Atenção, ó gente da Gomes!
Hoje, dia de Natal, a Gomes estará fechada, creio eu (com a crise, sabe-se lá!). Mas há um lugar que, com toda a certeza, não "fecha" e à volta do qual a cidade gira. Esse lugar é a esquina da Gomes, um marco geográfico, charneira entre a avenida Carvalho Araújo e o largo do (regressado) Pelourinho. Por lá nos encostávamos, na adolescência, para ver sair o "pequename" da missa da Sé, logo em frente. Nos invernos, a esquina é sede de ventanias sem par, onde confluem grupos que atiram uns aos outros um indizível "Méixiôres!" (que do vila-realez apressado se transcreve como a saudação "Meus senhores!", enviada de um grupo de passeantes a outros), nesta época natalícia logo seguido do clássico "Continuação!", expressão que se utiliza até aos Reis. Por lá se passeiam, nos dias 25 de dezembro, com sol ou sem ele, as camisolas-de-losangos e os cachecóis que "saíram" nas prendas da véspera, vestindo amigos e conhecidos, mais ou menos "graves", que, do percurso do liceu ao "cabo-da-vila" (desistam aqui os não-vilarealenses), calcorreiam, devagar, a memória sedimentada desde a infância. Como aqui agora fiz, "preso", este ano, a Paris.
Ping-pong (26.12.11)
Se os leitores deste blogue quiserem ter o cuidado de revisitar, um pouco mais abaixo, o post "À esquina da Gomes", sobre o café mais carismático de Vila Real, poderão verificar na fotografia que, sobre as suas instalações. há uma série de janelas, que aparentemente pertencem agora aos escritórios da seguradora francesa Axa. Mas nem sempre foi assim: nesse andar, por muitos anos, situava-se a "urbanização", um serviço chefiado pelo engº Barreto, pai do conhecido sociólogo António Barreto, um dos membros de um avantajado rancho de filhos, alguns dos quais cruzei nos tempos de liceu.
Com um deles, o também sociólogo José Barreto, fui co-autor de uma bem sucedida patranha (numa cidade que sempre teve uma história de grandes "partidas"), algures em meados dos anos 60.
Sabedores que o Sport Club de Vila Real tinha organizado, ao longo do dia, um torneio de ping-pong, instalámo-nos os dois na "urbanização" (o Zé Barreto deve ter subtraído a chave ao pai), ao final da tarde, e, em nome do "Norte Desportivo", um jornal "azul" de referência nortenha, contactámos telefonicamente a organização do torneio. Explicámos que, lamentavelmente, não havia sido possível ao jornal enviar um repórter, pelo que pedimos que nos fossem transmitidos os resultados do torneio pelo telefone. "Todos?", perguntou o nosso interlocutor, abismado, lá da sede do Sport Club, na Rua Direita. "Todos, claro! Queremos dedicar uma página completa ao torneio". E foi assim que, durante aí uns 20 minutos, o pobre do homem (que sabiamos bem quem era, esperando que o contrário não fosse verdade!) lá ilustrou, com abundantes números, a "reportagem" a "sair" no dia seguinte: "José Fraga/Claudino Areias: 21-12; 19-21; ganhou José Fraga "à melhor", com 23-21". E por aí adiante, com dezenas de outros jogos.
O Zé Barreto tinha, entretanto uma função vital: como a chamada era supostamente "interurbana", havia que fazer "bip" a cada três minutos, o que se tornava progressivamente difícil, com a "barrigada de riso" que íamos tendo. Quanto tudo acabou, para além de um sentimento de pena pelo nosso esforçado interlocutor, perpassou-nos algum temor sobre o que se iria passar no dia seguinte. Mas logo se veria!
Na tarde desse dia, colocámo-nos estrategicamente numa mesa da Pompeia, o café em frente à tabacaria do Bragança, onde o Fernando "Choco" traria, na sua motorizada, o rolo dos jornais, chegados no comboio da tarde. Por essa hora, notava-se uma pequena multidão na rua, pelos passeios entre a loja do Chico "americano" e a funerária do Zézé. Imagina-se que, derrotados ou campeões, muitos participantes do torneio da véspera estariam ansiosos em ver o seu nome em letra de forma. Arribado o "Choco", vimos os escassos "Norte Desportivo" disputados com ânsia, com aquelas folhas enormes, cuja tinta sujava as mãos, a serem percorridas... em vão!
Lembro-me de me ter safado pela porta que a Pompeia tem para a avenida, temente aos impactos da desilusão. Nunca percebi quantos, com o tempo, nos identificaram como autores da "partida". Uma coisa tenho a certeza: o meu interlocutor dessa noite ainda hoje, mais de quatro décadas passadas, cruza-se comigo com cara pouco amigos.
Em tempo: dedico este post ao meu amigo Zé Barreto, leitor do blogue, que deixou um comentário no "À esquina da Gomes", onde éramos companheiros de mesa.
O Corgo (3.1.12)
Ao longo da vida, fui aprendendo a não ter opiniões perentórias (é assim que se escreve, nos termos do novo Acordo Ortográfico, por muito que isso custe a alguns) sobre assuntos de que pouco sei. Posso ter sentimentos ou "feelings", posso emitir opiniões "de mesa de café", mas habituei-me a estudar os assuntos antes de sobre eles me pronunciar de forma categórica. E, quando não os conheço, assumo-o claramente. Fico mesmo surpreendido com a imensidão de "tutólogos" (os que falam e escrevem sobre tudo) que por aí anda, alguns, aliás, bem pagos "à peça". Que sabedoria!
Vem isto a propósito do anunciado termo formal da linha do Corgo, a ligação ferroviária entre a Régua e Chaves, passando por Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas e Vidago, que teve belas carruagens antigas (1ª, 2ª e 3ª classes) e, durante muitos anos, fumarentas locomotivas a vapor. Não faço ideia se há ou não razões sólidas para a decisão. Deve haver, pela certa.
Tenho no meu ouvido, desde a infância, a voz de um funcionário da CP a chegar à casa da minha família, em frente à estação das Pedras Salgadas, à procura do meu tio João Santos, secretário da Câmara municipal de Chaves: "o senhor chefe da estação manda perguntar ao senhor Joãozinho se ainda se atrasa muito, pois o comboio tem de partir...". E recordo-me que o mesmo responsável pela estação ia frequentemente buscar um banco de madeira para ajudar algumas senhoras da família a galgar a distância entre o cais e o último degrau do comboio. Penitencio-me por nunca ter feito o percurso entre as Pedras Salgadas e Chaves, com a gabada descida do Reigaz, a passagem em Oura e no Vidago, com vista para o Palace, até ao cruzamento com a linha do Tâmega, antes do fim da linha (cujo projeto de continuidade internacional para Verin ficou sempre no papel). Mas ficaram-me na memória, para sempre, apeadeiros com nomes tão sonantes como Nuzedo, Zimão, Tourencinho, Fortunho ou Cigarrosa.
A CP decidiu agora assumir a decisão de fechar a linha do Corgo, ao que parece por imperativas razões financeiras. Não sei quanto custaria manter, para efeitos turísticos, o percurso que ainda existia, entre Vila Real e a Régua. De uma coisa estou bem certo: custaria muito menos do que os oito milhões de euros que as greves dos maquinistas, só no ano de 2011, fizeram perder à empresa. Mas essas são outras contas.
Conversa (5.3.12)
Conversa ouvida, na manhã de hoje, num multibanco de Vila Real:
- Então, estás a levantar paínço?
- Não, pá! Estou a pagar o IMI.
- E que tal? Foi uma conta calada?
- Foi. "Gasparam-me" mais de 300 euros.
Chegado a casa, esmagado pela minha ignorância lexical, fui logo ao dicionário. Nada! Razão tem o Dr. Graça Moura: não há um vocabulário atualizado da língua portuguesa, que conte já com a imparável criatividade lusitana, nestes tempos de troika.
Nóbrega (29.4.12)
Acabo de ler, num jornal, que morreu o Nóbrega, com 70 anos. Na minha juventude vila-realense, o Nóbrega era um ídolo da cidade, em particular depois de ter saído do nosso Sport Clube, onde o vi jogar por várias vezes. Um dia, um qualquer "olheiro" assinalou-o ao FC do Porto, onde viria a ganhar o lugar de "ponta esquerda". Por lá ficou uma dúzia de anos, nas décadas de 60 e 70, seguindo depois a habitual peregrinação que o destino aponta aos ex-jogadores, como treinador de pequenos clubes de província.
O Nóbrega era um futebolista muito rápido, com um excelente pé esquerdo, na época em que os "pontas" ("esquerda" ou "direita") corriam colados à linha, avançando, tão longe quanto possível, para centrarem "adiantados", evitando os fora-de-jogo (habituei-me, com o meu pai, até hoje, a dizer "off-side"), com cruzamentos sobre a área, onde os "pontas de lança" aproveitavam as suas jogadas. Julgo que o Nóbrega ganhou as suas quatro internacionalizações, de que a cidade muito se orgulhava, tirando o lugar ao Fernando Peres ou ao Oliveira Baptista, já não sei bem. Sei apenas que ambos eram do meu Sporting...
Lembro-me muito bem do pai do Nóbrega, o sr. Nóbrega, homem grande e com forte vozeirão, morador na Fontinha (ruela em que eu seguia para a minha primária "escola do trem"), logo à saída do "cabo da bila" (é assim, com "b"), famoso columbófilo e com fama de homem de esquerda, que tinha como profissão o ser artesão de pintura (ainda me recordo de ver, lá por casa, um tabuleiro metálico, com as armas da cidade, pintado pelo sr. Nóbrega, objeto de beleza mais do que discutível).
Quando o Nóbrega, o jogador, ao tempo em que era vedeta, se passeava pela cidade, esta olhava-o com evidente admiração. (Vila Real nunca teve muitos futebolístas conhecidos: com algum destaque, apenas o meu amigo Amaral e o Fraguito, ambos idos do Sport Clube... para o Sporting*). Recordo-me muito bem de ver o Nóbrega, de visita à cidade, um pouco curvado para a frente (ou talvez seja sugestão minha, pela forma como me habituei a vê-lo jogar), caminhando pela rua Direita (a maioria dos leitores não conhecerá a rua Direita, mas basta que saibam que é o "eixo" essencial da cidade), com o fácies grave e fechado que muitos adultos de Vila Real sempre exibem, creio que como forma de serem levados a sério. Nesses regressos, o Nóbrega, acolitado por alguns orgulhosos amigos locais, saudava, generoso, os conhecidos com quem se cruzava, que logo ficavam reconhecidos pela confiança recebida de um personagem famoso.
Era assim a minha cidade, a cidade do Nóbrega.
*(E Simão Sabrosa, que desconheço se jogou no SCVR e que foi... para o Sporting. E Paulo Alves, que, esse sim!, jogou no SCVR e teve êxito... no Sporting. E, claro!, o Costa, que foi para o FC do Porto, onde jogou vários anos).
Dormir na Régua (30.7.12)
"T'ás maluco? Vais dormir à Régua? 'Ninguém' dorme na Régua!". Foi esta a reação quase insomníca, de ontem à tarde, assumida por um vila-realense empedernido, quando lhe anunciei que, por uns dias, ia ficar num hotel da Régua, para acompanhar uma missão da UNESCO que vai avaliar da compatibilidade da construção de uma barragem na foz do Tua com o estatuto de "património mundial" do Alto Douro Vinhateiro.
Por natureza identitária, um vila-realense que se preze não gosta da Régua, melhor, "ignora" a Régua, da mesma forma que se "irrita" com essa "irrelevância" regional que é Chaves. Para um cidadão de Vila Real, a sua cidade é um fenómeno isolado, porque entende que Trás-os-Montes (e o Alto Douro) apenas pode, e deve, ser representado pela sua ímpar urbe. E isto não se discute, por mais modesto que um vila-realense possa e queira ser. Há Vila Real e, depois, só há, para lá do Marão, o Porto. E é tudo! É claro que, um pouco mais "lá para cima", há, mas já bem depois, uma "coisa" a que se chama Bragança (e, de caminho, Mirandela e Macedo, além de umas adjacências onde "não se vai", a não ser a caminho de Espanha). Mas tudo isso já é muito "diferente".
A Régua esteve situada a 29 km de Vila Real (hoje já é bem menos), pela "estrada velha", que passava por Santa Marta e cujas curvas nos causavam enjoos infantis. Em alternativa, fazia-se quase uma hora de viagem, pela velha linha férrea do Corgo, para ir aí apanhar, até aos anos 60 (quando a camionagem do Cabanelas nos passou a fazer enjoar pelo Marão), o comboio para o Porto. Mais tarde, a Régua ficou um pouco mais próxima, quando se ia pela encosta contrária, por Nogueira. Mas vamos ser justos: por que diabo um vila-realense ia à Régua? Para nada, a menos que fosse para passar para Viseu, ou para ir a à Senhora dos Remédios a Lamego, num assomo de romaria. Ou, como experiência etnológica, se decidisse passar por lá para comprar rebuçados, às mulheres aventaladas à porta da estação e fotografar a mais pequena barbearia do mundo (que deixo a imagem, ontem registada). Às vezes, em fins de semana invernosos, também se passava pela Régua para "ver" as cheias, quando o Douro, antes das barragens (já estou a fazer política "unescal", como notaram), alagava a marginal.
Nós, em Vila Real, o que é que conhecíamos da Régua? Praticamente, só as "pequenas". Por um excedente de produção de qualidade que nunca ninguém soube explicar, a Régua enviava para Vila Real, para estudar, algumas das mais bonitas garotas que o liceu Camilo Castelo Branco alguma vez teve (e que olhos, senhores!). Os irmãos ou os primos desse "pequename", assumindo uma espécie de "template" automobilístico, vinham sempre à "Bila" de NSU, que traziam aos ralis, às gincanas ou apenas, como dizíamos, para "armar aos cágados", à porta da Gomes, em dias de circuito, a aquecer ruidosamente os escapes. Por essas e por outras é que eu, durante anos, quase que me convenci que, na Régua, não era "gente" quem não andasse de NSU, como se por aí estivesse estabelecido o principal consumo mundial dessas viaturas. "For the record", convém dizer que essas simpáticas colegas vinham cuidadosamente "policiadas" por uma austera (mas muito competente) professora de matemática reguense, a Dona Raquel. Ah! e por falar em policiamento, é também muito importante recordar aqui os "polícias da Régua", tidos como dos mais rigorosos da região, sempre de farta bigodaça e pança proeminente, os quais, dizia-se, eram ferozes a derimir questiúnculas pesadas na zona do Peso (a Régua chamava-se, ou chama-se ainda, nunca percebi bem onde o debate toponímico ficou, Peso da Régua), onde, dizia-se, os ciganos imperavam. "É pior que um polícia da Régua!" era uma frase que, por décadas, se ouvia em Vila Real, para designar alguém com mau feitio. E da Régua chegava, pela voz melodiosa de Carlos Ruela, a "Rádio Alto Douro", para despeito vila-realense, onde imperava um deserto radiofónico.
Muito mais tarde, fomos "descobrindo" que a Régua também tinha, além do vinho do Porto (ninguém, nessa altura, bebia vinho do Porto, confessemos!, salvo no Natal, casamentos e batizados), o Douro e a sua beleza natural, a qual, lamento ter de dizê-lo, nunca contribuiu muito para melhorar a imagem da (agora) cidade, que é um eterno objeto arquitetónico sem grande interesse, com pontes e viadutos a mais. Da Régua vamos ouvindo ainda, SIClicamente, nas televisões, os protestos às 13 ou às 20 horas (horas oficiais dos protestos, no Portugal contemporâneo) dos produtores de vinho da região, sempre cuidadosamente filmados em frente ao "estadonovense" edifício da Casa do Douro, com lavradores querendo mais "benefício" (o conceito demoraria algum tempo a explicar aqui) e, claro, apoios do Estado.
Mas, atenção!, na Régua, ou perto dela, comeu-se quase sempre bastante bem (e este bloguista não é indiferente ao tema, como é sabido). Mais recentemente, ia-se ao "Douro In", agora vai-se ao "Castas e Pratos" (fui lá ontem e foi um jantar soberbo!), sito nos velhos armazéns da estação ferroviária. Mais longe, lá para a Folgosa, o Rui Paula continua a dar cartas no "DOC" (depois de as ter dado no "Cepa Torta", em Alijó, e mesmo mantendo o "DOP", junto à Bolsa do Porto). Para uma experiência um pouco mais "radical", porque terá de se defrontar inevitavelmente com o mau feitio do dono da casa, e sempre avisando com antecedência, vá-se pelo cabrito à "Repentina", já fora de portas. E, para melhor discutir a barragem que por aqui nos traz, poder-se-ia acabar a tarde no "Calça Curta", bem junto à velha estação do Tua.
Eu sou um vila-realense atípico: sempre achei alguma graça à Régua. E hoje vou cá dormir, pensando (sem nostalgias, garanto!) no que será feito das belas reguenses do meu tempo. Boa noite!
Dinheiro em Caixa? (3.8.12)
Durante quase três décadas, o meu pai foi gerente, em Vila Real, de uma das filiais distritais da Caixa Geral de Depósitos, instituição em que trabalhou, com imenso orgulho e insuperável dedicação, 47 anos da sua vida. A Caixa era também a sua família e ainda recordo a alegria que lhe dei quando, em 1971, sem o avisar, fiz concurso e fui admitido como funcionário da Caixa - aquele que foi o meu primeiro emprego.
Durante muitas décadas, a Caixa foi o banco popular de Portugal. Era à Caixa, porque a Caixa era do Estado, que as pessoas mais simples confiavam os seus haveres. A Caixa tinha "cadernetas" escritas à mão, onde era inscritos os juros e registados os saldos. Os depositantes compraziam-se em passar pelo balcão da Caixa, para fazer esse acrescento regular, que lhes assegurava "quanto tinham na Caixa".
O meu pai recordava, às vezes, uma pequena história.
Um dia, um funcionário veio avisá-lo de que um cliente, depois de ter pedido para "atualizar a caderneta", informou que queria levantar todo o dinheiro que tinha na sua conta, em espécie. Tratava-se de um montante bastante elevado e, até por razões de segurança, era um pouco estranho que o cliente quisesse transportar o dinheiro dessa forma. Estaria o homem insatisfeito com o serviço prestado pela Caixa?
O meu pai mandou entrar o cliente para o seu gabinete. Era um homem muito simples, residente numa aldeia próxima de Vila Real, idêntico a uma imensidão de outros clientes oriundos das áreas rurais, que constituiam uma grande massa dos depositantes na Caixa. Perante a estranheza manifestada, pela inusitada (e até arriscada) operação que ele pretendia executar, o homem respondeu: "O dinheiro é ou não é meu? Posso ou não posso fazer com ele o que me apetecer? Quero levantá-lo todo e já!". Perante esta inabalável determinação, o meu pai mandou preparar grandes envelopes com as notas, que foram entregues ao cliente. Após receber o dinheiro, o homem perdeu largos minutos a contar todas as notas. No final, disse: "Agora, quero depositar isto tudo outra vez. Foi só para saber se o dinheiro ainda era meu!". E era, claro.
Lembrei-me disto, na tarde de hoje, também na Caixa, também em Vila Real, quando assisti ao drama de uma pobre senhora de aldeia, a dona Celeste, confrontada com a impossibilidade de resgate do montante de um "produto" em que, há alguns anos, tinha sido convencida a empregar alguns largos milhares de euros e que, agora, se via impossibilitada de levantar, sem perder uma importante fatia do próprio capital. Fui testemunha por largos e pungentes minutos do embaraço delicado dos funcionários, dos lamentos lancinantes da senhora, seguidos do seu desmaio, com hipótese de convocação do 112. Um espetáculo triste, penoso e indigno, que incomodou quem a ele assistiu. Que não sei mesmo como acabou, porque, logo que pude, saí, indignado.
Quem terá sido o funcionário espertalhote que vendeu à dona Celeste o "produto", em cujo "small print" estavam (espero eu!) as condicionantes limitativas das possibilidades de resgate? Aquele que o fez impingiu àquela pobre senhora, que tinha uma evidente limitação cultural para entender as peculiaridades da evolução financeira dos mercados, um "produto" em que enterrou muitos dos seus haveres. E, goste-se ou não da palavra, essa pessoa incorreu, na prática, numa verdadeira fraude. Ela e, com ela, a Caixa Geral de Depósitos, instituição onde também eu tenho as minhas economias e que, por ser propriedade do Estado, sempre tive por um banco diferente, onde tinha a certeza que os clientes nunca seriam tratados assim. Enganei-me, pelos vistos.
Se fosse vivo, e se tivesse assistido a esta lamentável cena, o meu pai teria hoje sentido uma imensa tristeza, idêntica à que eu próprio experimentei. Mas ele já morreu, como também já parece ter desaparecido aquela Caixa Geral de Depósitos que foi o seu orgulho, em que as pessoas mais simples deste país, por muitos anos, se habituaram a confiar.
O canto e as gorjas (10.8.12)
As caras não nos eram estranhas, mas não sabíamos de onde conhecíamos aquele casal, sentado, com uma filha, na cálida noite de ontem, na esplanada do Café de Flore, no boulevard Saint Germain. Seria aqui de Paris? Não! Tinham um inconfundível ar de turistas. E, quase de certeza, eram portugueses. Conheciamo-los, embora só de vista. Seria de Lisboa?
Em frente a nós e a eles, um guitarrista, com som e aparelhagem elétrica, tocava e cantava (e bem) algumas canções americanas. Interpretou quatro ou cinco, não mais. E, de imediato, começou, pelas mesas, a recolher umas moedas. Demos conta de que os nossos "conhecidos" estavam furiosos com a parcimónia do espetáculo. Com alguma razão: pouco mais de dez minutos de cantorias e o artista já se dedicava a cobrar o show.
Foi então que ouvimos o cavalheiro, de forma bem clara, comentar, alto e bom som: "Ai! não "tocáides" mais? Atão, não "lebáides" nada de gorjas!". Estava desfeito o mistério: eram de Vila Real!
A avenida (21.12.12)
(FOTO A PRETO E BRANCO)
O meu amigo Francisco Agarez insinuou, no Facebook, que a fotografia acima reproduzida não parecia ser de Vila Real. Ora isso é um óbvio absurdo. Mandei-lhe a seguinte mensagem:
Caro Francisco Agarez: mude de óculos, homem! A foto já tem uns anos, mas então não se vê logo que é a avenida Carvalho Araújo, em Vila Real? O vulto a subir é o Bertelo, saído da Sé, junto ao Pátio das Cantigas. A seguir, dos Correios, espreita o Setas e, logo adiante, passados os Quinchosos, junto ao portão do Seminário, lá está a batina do padre Sarmento. Os carros de praça que passam são do Falei e do Bragança. Na reentrância da pensão do Camposana está bem à vista a figura do Honório (não, não é o Fernando Pessoa!), com o saco de plástico na mão. Na vitrine da Pompeia, nota-se que o Neves está a correr os estores. Logo depois, o padre Henrique (então não vê?) está à porta da Voz de Trás-os-Montes, tendo ao lado o Aengenheiro Alvelos, que acaba de fechar o Turismo (lá estão as bilhas de segredo de Bisalhães na montra!). Com algum cuidado, vê-se o dr. Zézé a sair do Clube pela escada para a avenida. E, um pouco acima, o Sarreiro encerra a sua loja e o Zé Araújo fecha a porta da Galeria d'Artes, ao lado do barbeiro. Não sei bem quem é o miúdo que está a sair da porta do edifício da Caixa mas, bem mais ao fundo, à direita, embora um pouco mais difícil de descortinar, podem ver-se garrafões a sair do Alcino para a carrinha do António da Toca da Raposa, bem como a barriga proeminente do Furriel, de chapéu na cabeça, a falar com o Chico Costa, de boina basca. Logo depois, bem visível, lá está a bela varanda dos Mota e Costa, com o João Albardeiro encostado à parede a falar com o Quim Rato. Finalmente, só por distração é que você não viu o Pincha e o Chico Cereja a discutir nas escadas do Tribunal. Caramba, homem, vá ao Frederico ver esses olhos! E já que anda ali pelo Pelourinho, compre-me um bolo-rei. Mas na Gomes velha, está bem?)
Em tempo: e o Francisco Agarez respondeu:
Tem toda a razão, meu caro Francisco, mas que quer? Ainda uso as cangalhas que o pai do Frederico me receitou em 1959 e que aviei no Ferreira oculista. Eu bem andava a estranhar ver tudo desfocado à minha volta e já me tinha convencido de que tinha mesmo de mudar de lentes. Mas quando me preparava para passar das intenções aos actos levei com o OE 2013 e encolhi-me todo. Tenho o azar de ter graduações diferentes nos dois olhos (defeito de fabrico de que já não tenho junto de quem reclamar), o que me impede de comprar os óculos novos numa loja das Three Gorges. E também, para lhe dizer quanto é franco, acho que o melhor é mesmo continuar assim, que o que está para vir não é bonito de se ver e já não tenho pernas para ir à caça de lebres e aparentados. Um Bom Natal para si e para a sua mulher".
Este Natal (22.12.12)
Este ano, não passarei o Natal em Vila Real. Na vida, isso aconteceu-me apenas duas vezes: quando vivia em Londres, já nem sei bem porquê, e, no ano passado, porque fiquei por aqui, por Paris, na ressaca de uma questão de saúde.
Devo dizer que não sinto falta deste Natal, em Vila Real. Seria um Natal triste, depois de um tempo recente em que, por lá, perdi pessoas com cuja falta me não reconciliei. Aliás, nos últimos anos, pelas leis da vida ou da morte, chamem-lhe como quiserem, os Natais têm vindo a tornar-se momentos um pouco mais sofridos do que agradáveis.
Nem sempre foi assim. Até à minha adolescência, os meus Natais dividiam-se entre Viana do Castelo e Vila Real. E eram muito, mesmo muito agradáveis e alegres.
"Exilado" em Vila Real desde os anos 40, o meu pai rumava a Viana com a família, poucos dias antes do Natal, do mesmo modo que fazia nas "férias grandes" e na Páscoa. Invariavelmente, ano após ano. Não tinhamos carro. Íamos de comboio, em três etapas épicas. Primeiro de Vila Real à Régua, na velha linha do Corgo, bancos de "sumopau", com as faúlhas da fumarada das máquinas a entrarem-nos pelos olhos, se acaso espreitávamos pela janelas. Da Régua ao Porto, o comboio era melhor, embora mais monótono. Por um tempo, o Douro ia ali ao lado, mas nós, nessa época, nem olhávamos para ele. (Era uma viagem em que, no Verão, em algumas estações, mulheres vendiam regueifas e água em recipientes de barro: "Água e bilha, 15 tostões!", apregoavam). A aproximação do Porto, anunciada por túneis sucessivos cuja travessia nunca, até hoje, me sossegou, induzia-me uma recorrente inquietação. É que via o meu pai, com a sua organização meticulosa, preocupado em conferir ao minuto os atrasos, que nessas alturas eram frequentes, por forma a tentar perceber se "dava tempo" para chegar a Campanhã ou mesmo a S. Bento ou se, pelo aperto dos horários, tínhamos de mudar para a linha do Minho em Ermesinde, num rebuliço de bagagens e gentes, com a certeza de ter de ir de pé até Viana, nesses períodos de inevitável enchente dos comboios. É curioso que, até hoje, o nome Ermesinde provoca em mim um "frisson" subliminar, ligado a essa angústia de infância.
Passávamos quatro ou cinco dias em Viana, com a ceia da Consoada no casarão da minha avó materna, no largo Vasco da Gama, um ambiente que, para a vida, me ficou como sinónimo de férias. Lembro-me bem do presépio que, em cada ano, saía de um armário, do musgo que íamos buscar ao quintal, para colocar sobre um papel forte manchado, e de uma famosa "vaca" que o não era (mas esta é uma "private joke" familiar...). Com os meus primos, jogava pinhões ao rapa e inventávamos algumas maldades inocentes, para encher as noites em que os adultos se entretinham em conversas que só com os anos fomos conseguindo acompanhar. Eram serões muito agradáveis, com todos à volta da minha avó e nós, os mais novos, a traquinar pela imensa casa.
Na tarde de 25 de dezembro, depois da "roupa velha", comida impreterivelmente ao meio dia e meia (a minha avó era de horários sagrados), partíamos para o Porto, comigo já contentado com algumas prendas recebidas. Parte das quais, contudo, para meu silencioso desconsolo, eram sempre pacotes de meias (isso mesmo, meias!), uma oferta regular de duas tias, compradas no Eugénio Pinheiro, ali na Picota. Desse regresso de comboio, tenho para sempre na memória a imagem do meu pai a ler "O Comércio do Porto", nesse dia sempre com as páginas muito ilustradas, com coloridos motivos natalícios. E da minha mãe entretida com a então famosa "Eva" do Natal, uma revista que eu só via surgir nessa altura, com numeração para sorteio de uma moradia. Nunca nos "saiu", diga-se, porque toda a sorte que tivémos deu sempre muito trabalho.
A chegada à estação de S. Bento, com fumarada, apitos e uma barulheira que eu achava o máximo do cosmopolitismo, que depois me lembrava alguns filmes, era um momento desejado. Aguardavam-nos familiares muito próximos, com os quais, após uma ritual passagem para abraços em casa de outros, avançávamos para Vila Real. Ia-se por Santa Catarina, pelo Marquês e por Costa Cabral adiante, passando próximo de Ermesinde (outra vez!), rumo às temíveis curvas do Marão. A elas nos abalançávamos depois de um "reforço" em Amarante, no Zé da Calçada, com aquisição da doçaria na Lai-Lai, ao lado. Passada a Pousada e o ansiado Alto de Espinho, onde a curvaria amainava, as luzes de Vila Real, avistadas de Arrabães, prenunciavam já a outra noite de Natal que aí vinha, desta vez em casa dos meus avós maternos, numa bela e alegre noitada, com outros tios e outros primos. E com novas prendas, claro!
Eram dias felizes. Foram-se os avós, foram-se os pais, foram-se quase todos os tios. Restam os primos, "primos-irmãos", uma rede renovada em gerações, assente num tecido de muito forte amizade. Mesmo assim, este ano, não tenho vontade de passar o Natal em Vila Real.
Agenda Doméstica (9.1.13)
Anteontem, em Lisboa, vi à venda a "Agenda Doméstica", referente a 2013. E lá estava a descrição do seu conteúdo: "decoração do lar, conselhos de beleza, elegância feminina, culinária, etiqueta, contos, curiosidades, anedotas, jogos, passatempos e prémios". Não abri, sequer. Mas sorri intimamente.
A "Agenda Doméstica", nos anos 50, 60 e creio que até aos anos 70, era uma presença anual obrigatória em nossa casa. Teoricamente era adquirida para a minha mãe, por via da culinária e de conselhos domésticos práticos que carreava (impressionava-me sempre a plêiade de soluções simples para tirar nódoas, que creio que ninguém depois seguia). A "Agenda Doméstica" era (e é) editada pela Porto Editora, razão por que tinha grande divulgação no Norte do país. Nunca fomos tentados pela concorrência, a "Agenda do Lar", editada por "O Século", que se via mais em casas de Lisboa. Ah! e a "Agenda" era e continua a ser assinada por "Maria Raquel", um nome que sempre me pareceu mais fictício e mais próximo da histórica "Marta Neves" (que por muitos anos nos bombardeou com ofertas "imperdíveis" das Seleções do Reader's Digest).
Manifestamente contra a vontade da minha mãe, suposta destinatária primeira da "Agenda" (como familiarmente era designada), e que por isso sempre protestava levemente, o volume brochado era acaparado, imediatamente após a compra, pelo meu pai e pelo meu avô, durante vários dias, com uma única finalidade: resolver os 12 problemas de palavras cruzadas que a "Agenda" anualmente trazia. Mas o que é que de tão particular essas palavras cruzadas tinham? É que elas eram, de muito longe, das mais difíceis dentre todas quantos se podiam encontrar em jornais ou mesmo em revistas de cruzadismo. Como especial aliciante, ligada à resolução com êxito desses problemas, estavam prémios dados pela Porto Editora.
Recordo-me da imensidão de horas que, de lápis e borracha na mão ("as palavras cruzadas nunca se fazem a tinta", aprendi para a vida), o meu pai e o meu avô dedicavam à descoberta das soluções (que só seriam publicadas na edição do ano seguinte!), comigo a servir, à medida que crescia, de cada vez mais dedicado e entusiasmado ajudante, com uma imensidão de idas ao dicionário - a dúzia de volumes do clássico "Moraes Silva", entre nós conhecido pelo "malho", imbativel no género, de que para sempre decorei as palavras que abriam e fechavam cada volume ("a - armada", "arma de - cestina", "cesto - desvalor", etc).
Estabilizada a solução ao final de algum tempo, enviava-se esta pelo correio e ficava-se a aguardar. Se acertávamos - e não me recordo de termos falhado algum ano -, lá vinham, tempos depois, para nosso gáudio, livros de culinária, dicionários ou outras edições da Porto Editora, a título de prémios. E, na edição do ano seguinte, surgia publicada a lista de quantos tinham acertado. Nessa lista, e por muitos anos, figuravam, referenciadas como hábeis "cruzadistas" que tinham, com êxito, resolvido todos os problemas, algumas dezenas de senhoras de Vila Real (quem lesse a "Agenda", devia ficar com a impressão de que Vila Real era uma "potência" do cruzadismo feminino português), fruto da popular distribuição que o meu pai fazia, pelas pessoas amigas, do resultado do "trabalho" que fazíamos na nossa família. Sempre suspeitei que, na "Porto Editora", Vila Real devia estar sob constante suspeita...
Memórias de um Portugal simples ou, como dizia O'Neill, "incrível país da minha tia, trémulo de bondade e de aletria".
O Honório e o Jaime Neves (12.2.13)
Naquele tempo, não havia em Vila Real quem não conhecesse o Honório. Era uma figura um pouco bizarra, magro, de óculos redondos, vestido quase sempre de preto, com um chapéu que lhe desenhava um perfil físico que lembrava Fernando Pessoa. Tinha por profissão ser contínuo na escola do Magistério primário. Lembro-me dele escuteiro, como me recordo de o ver lançar papagaios aos domingos, aproveitando o vento da "marginal", sobre o parque florestal.
O Honório era aquilo que, com alguma crueldade, poderíamos qualificar de um "pobre diabo". Muitas vezes gozado pela rapaziada - que, pelas ruas, lhe chamava o X9 -, o Honório apareceu um dia casado, com casa em Folhadela. Numa excursão a Lisboa, ficou famosa uma coça que terá dado na mulher.
A pobre senhora, entretanto, deixou viúvo o Honório e este envolveu-se numa questão de partilhas com os cunhados, que se arrastava pelos tribunais, sem decisão. Foi isso, pelo menos, o que um dia ele me contou. Na altura, pediu a minha ajuda, nos termos de quem achava que Lisboa era uma Vila Real "grande", onde as pessoas se encontravam com regularidade, como por lá se fazia na "esquina da Gomes" ou no "cabo da Bila":
- Quem me podia ajudar a resolver o assunto, eram vocês, lá em baixo, em Lisboa. Quando vocês se encontrarem - vós, o António Barreto, o Jaime Neves e o Albano Bessa Monteiro - bem que me podiam tratar do processo, com os conhecimentos todos que têm.
O Honório convocava aqui as pessoas "influentes" que conhecia e que andavam "lá em baixo", por Lisboa. Recordo-me de ter respondido (eu tratei-o sempre por tu, nos últimos anos ele tratava-me por "vós"), com alguma ironia, ciente da implausibilidade do cenário que ele desenhava:
- Podes ficar descansado! Se eu, um dia, eu me encontrar com o Barreto, o Neves e o Albano, garanto-te que te resolvemos o assunto.
O Albano Bessa Monteiro era (e é) um velho amigo. À época, eu não conhecia pessoalmente António Barreto. E nunca na minha vida alguma vez falei com Jaime Neves. Lá por sermos ambos vilarealenses, só pela cabeça do Honório poderia passar a ideia de que éramos amigos.
Lembrei-me desta história, há dias, quando foi noticiada a morte de Jaime Neves.
O protesto (2.3.13)
Olhei para a cara das pessoas que hoje estavam na manifestação que, em Vila Real, se associou ao protesto nacional - contra a "troika", o governo e algumas entidades mais. Pareceu-me haver algum desânimo pelo facto do cansaço, e talvez do sentimento da eventual inutilidade do gesto - porque ninguém de bom-senso pensará que há hoje mais conquistados para as políticas praticadas -, ter afastado muita gente e transformado este evento numa sombra do protesto de setembro de 2012. Parece-me, porém, que laboram num equívoco. Esse protesto de então foi único, porque foi o primeiro momento em que aquele Portugal que não era parte do setor público (jornalistas e comentadores incluídos) sentiu que lhe estavam a "ir ao bolso". Fez toda a diferença!
O humor faz também parte destes exercícios e, pelo menos em Vila Real, ele ainda persistiu em alguns cartazes. Um deles rezava, de forma muito transmontana e numa bela transcrição fonética, dirigido ao poder: "num baleides um tchabelho". Sorrir, mesmo de forma amarela, ainda não paga imposto.
Revelação (9.3.13)
Chegou sozinho. Não percebi bem quem era. Foi simpático e agradável. Mas, quase de imediato, tentou "confessar-me" sobre a atual situação política no país. Procurava, claramente, "tirar nabos da púcara". Como eu não o conhecia bem e, pelos vistos, ele também me não conhecia muito melhor a mim, a conversa andou um pouco às voltas, comigo a dizer umas coisas redondas e óbvias, para perceber onde é que ele queria chegar. De certo modo, o diálogo divertia-me, embora o "outing" político me parecesse um exercício pouco adequado para aquele momento.
A certo ponto, olhou para ambos os lados, aproximou-se um pouco e deixou, em voz baixa, a informação: "Sabe? Eu apoio este governo e estou de acordo com quase tudo o que ele tem feito". E voltou a olhar em volta, claramente à espera que ninguém tivesse ouvido esta sua revelação.
O que é que eu lhe disse? Apenas o procurei sossegar, dizendo-lhe: "tem todo o direito a ter essa opinião". Sorriu-me, creio que grato, embora disso não tenha uma absoluta certeza. Minutos depois, vi-o afastar-se. Sempre sozinho.
Tempos difíceis, estes. Para todos, como se vê.
O bispo e as Felicianas (11.3.13)
Ao ouvir, há pouco, na rádio, notícias sobre o conclave para a eleição papal, recordei-me dos tempos do concílio Vaticano II, realizado em Roma, entre 1962 e 1965. Dentre os 29 membros portugueses contava-se o bispo de Vila Real, dom António Valente da Fonseca. Como administrador apostólico ficou, pela diocese, monsenhor Libânio, uma figura esguia que ainda hoje justifica o nome dado a um cadeirão comprido, herdado do meu avô, a que sempre chamamos a "cadeira do padre Libânio", não obstante o próprio nunca a ter experimentado.
Nas ociosas noites do Verão vilarealense, havia muito pouco que fazer, quando eu andava pelos meus 15 anos. Por isso, num grupo de amigos, alguém se lembrou de inventar uma chamada telefónica "feita" pelo bispo, que, desde há samanas, estava em Roma para o concílio, destinada ao monsenhor Libânio, que então vivia no seminário de Vila Real.
O local do "crime" foi a casa do celebrado fotógrafo da cidade, Mário Silva, "Marius" de nome artístico, pela mão do seu filho, António Manuel. O autor material da chamada telefónica foi um primo deste, Dionísio Rodrigues da Silva, o "Nizo", um amigo já desaparecido, talvez o elemento mais velho desse pequeno grupo que se juntou para a organização da "partida".
Desconhecedores do que era uma chamada internacional, ao tempo obrigatoriamente feita através de telefonista, inventámos um conjunto de ruídos que supostamente credibilizariam a comunicação. Ligámos para o número do seminário, pouco depois da hora de jantar. Atendeu-nos uma voz a quem, num italiano de má opereta, deixámos a indicação de que "don António voglio parlare con il signor don Libânio". A chamada era entrecruzada por arbitrários silvos e apitos, sons secos e uma profusão de sinais que, no nosso entender, poderiam fazer parte de uma ligação telefónica internacional. A nossa preocupação era escusada: no seminário, o porteiro sabia de italiano e de comunicações externas bem menos do que nós...
Após alguns minutos, ouviram-se passos apressados no lagedo de mármore da sala de entrada do seminário, onde se situava então o único aparelho telefónico da casa: Um ofegante dom Libânio surge então ao auscultador. Do outro lado, "de Roma", o senhor "dom António" interpela-o:
- Então, Libânio, como vai você? E a diocese?
Extasiado com a oportunidade proporcionada pela maravilha das comunicações, dom Libânio respondeu:
- Muito obrigado, senhor bispo. Vai tudo muito bem, graças a Deus. E como passa vossa excelência reverendíssima?
- Estou bem, Libânio, estou bem. Mas diga-me uma coisa, ó Libânio, com que estou preocupado: como é que vão as nossas Felicianas*?
Dom Libânio presumiu ter ouvido mal, tanto mais que as comunicações, à época, eram más e o lenço que utilizávamos para tentar tapar a voz criava uma distância que afetava a audibilidade das mensagens.
- Como? Não estou a ouvir bem... Como disse, excelência reverendíssima?
- As Felicianas, Libânio, as pequenas da Vila Velha que sempre alegram as nossas noites por aí...
O pobre do administrador apostólico deve ter ficado à beira de uma apoplexia. As Felicianas era um plural pouco magestático para designar umas raparigas, da mesma família, que facilitavam alguns prazeres físicos tarifados, bem conhecidas de toda a cidade.
- Não consigo ouvir, senhor bispo! Não ouço quase nada! Vou ter de desligar...
E assim fez. Nós já estávamos no limite da gargalhada coletiva. Mas tínhamos ganho uma excelente noite.
* o nome talvez não fosse bem este...
O Bertelo e as Finanças (22.3.13)
Há dois tipos de gerações em Vila Real. As que conheceram o Bertelo e a que existe depois dele. É para as primeiras que eu aqui escrevo esta memória, tentando que a segunda possa perceber o que perdeu ao já não fazer parte da cidade do Bertelo.
Sempre me lembro de mim conhecendo o António Bertelo. Não me recordo da cidade sem ele. Era uma figura de feições algo disformes, com um evidente atraso psicológico, que por muitos anos serviu de "moço de recados" de muita gente, que lhe pagava a execução de tarefas simples, de levar-e-trazer coisas.
A minha geração tratava-o por "tu" e, com naturalidade, ele procedia da mesma maneira. Um dia dos anos 80, à entrada para a redação de "A Voz de Trás-os-Montes", ao cumprimentá-lo, notei que o Bertelo me tratou por "senhor doutor". Reagi de pronto: "estás parvo ou quê, António? Então não me tratas por tu?". O Bertelo fez um sorriso que caía estranho naquela cara atípica, mas não me creio que, desde então, tivesse optado por mudar essa forma de tratamento, o que, para minha genuína tristeza, quebrou uma ligação simples que vinha desde a minha infância.
Durante muito tempo, o Bertelo - o nome vem da aldeia dos contrafortes do Marão de onde era originário - apareceu ligado a tarefas de uma peixaria que havia na rua Direita, o que fez com que ficasse associado odorificamente a essa tarefa, bem notória à distância. Depois, sem que nunca tivesse havido um sensível "improvement" em matéria de odores, o Bertelo surgiu ligado a outras atividades, desde auxiliar nas entregas do jornal da cidade a um longo período de permanência ao serviço da sé catedral, em ambos os casos sob a tutela do padre Henrique, que muito o protegeu. Nos últimos anos, preponderava no controlo do portão do seminário.
Quando coadjuvava aquele pároco da Sé, o Bertelo foi protagonista, num domingo de Páscoa, de um episódio memorável. Ia ele pela avenida Carvalho Araújo acima, à frente do padre, com a cruz na mão, quando uma gandulagem decidiu chamá-lo, à distância, por um nome que, à época, ele abominava: "Manaca". O Manaca era um jogador que provocara um contencioso sério entre o Sporting e o Benfica, com um desfecho favorável ao primeiro. Chamar "Manaca" ao Bertelo, indefectível benfiquista, era o suprassumo do insulto. Daí que, em reação à provocação, esquecendo as vestes litúrgicas que trazia, tivesse decidido "plantar" a cruz, bem vertical, no relvado do canteiro junto à estátua de Carvalho Araújo e perseguir em corrida quem o provocara. Sob o olhar divertido de toda a gente, o padre Henrique ficou a gritar pelo Bertelo, que demorou minutos a acalmar e a retomar o auxílio à visita pascal.
O Benfica era a "perdição" do Bertelo. Um dia de 1966, um grupo de vilarealenses da cor do clube da águia deslocou-se a Lisboa para ver uma partida entre o Benfica e o Manchester United. À falta de lugares no carro, o Bertelo viajou no porta-bagagens, mas alguém teve a simpatia de lhe garantir um bilhete para o estádio. Conta-se que, nos primeiros minutos de jogo, chegou a levar alguns "cachaços", porque estranhamente lhe terá dado para "puxar" pelo Manchester, para grande surpresa dos companheiros de jornada. A explicação veio logo de seguida: o Bertelo via muito mal e como o Benfica naquela noite jogava de branco havia decidido, com naturalidade, apoiar os "vermelhos"... que era o uniforme da equipa adversária. (Talvez tivesse sido melhor se a ilusão se tivesse prolongado até ao fim do jogo: o Benfica perdeu por 5-1, com dois belos golos de George Best, nessa fabulosa equipa de Busby).
O Bertelo foi, muito provavelmente, por muitos anos, a figura mais popular de Vila Real. Respeitador, era extremamente simpático para quem bem o tratava. Sempre com a sua típica boina basca, metia o braço a muitos conhecidos que se passeavam pela rua Direita ou pela rua Central, fosse essa pessoa o Governador Civil ou o presidente da Câmara, um advogado, um estudante ou um empresário. Ninguém de bem se afastava do Bertelo, um homem honestíssimo, que não bebia uma gota de álcool, cuja pobreza o levava a aceitar ajudas de quantos com ele simpatizavam. Com gosto, fui das pessoas que, até ao seu desaparecimento, lhe ia dando algum apoio, sempre que com ele me cruzava, nas minhas subidas à "Bila", como nós chamamos à nossa cidade.
Por que razão trago hoje o Bertelo ao blogue? Porque me lembrei de uma frase que o meu pai, com simpatia, sempre recordava do Bertelo, quando um dia este lhe pretendeu transmitir que passara a fazer alguns recados para a Repartição de Finanças de Vila Real. Na sua simples e permanente disponibilidade, de quem se esforçou sempre por ser útil, aproximou-se do meu pai e disse: "Desde a semana passada, estou a trabalhar nas Finanças. Se precisar alguma coisa de lá, é só dizer!"
Tenho saudades do Bertelo. É que, hoje mais do que nunca, é o tempo certo para ter um amigo nas Finanças.
A Sé desportiva (29.3.13)
Há poucas horas, ao passar pela sé catedral de Vila Real, neste tempo pascal, lembrei-me de uma historieta passada no "Verão quente" de 1975.
Eu tinha vindo por uns dias à cidade, nesse tempo militar em que misturava o meu radicalismo político com as provas do concurso para a diplomacia. Numa reunião de manhã, no regimento de Infantaria 13, tivera uma conversa menos fácil com o tenente-coronel Adão, comandante em exercício, junto de quem tentara garantir proteção militar para as sedes de alguns partidos de esquerda, que a voz corrente dizia que poderiam ser ameaçadas pela manifestação católica (que hoje se sabe muito mobilizada pelo MDLP) que teria lugar no dia seguinte. Usava as credenciais político-militares que advinham da minha pertença ativa ao MFA, mas cedo vi que o ambiente "no 13" estava mais com os manifestantes do que com a nossa ala "progressista". Por essa razão, o simples alferes que eu era pouco podia fazer, não obstante alguma desproporcionada influência de que, tal como outros milicianos, disfrutava então em certos meios militares de Lisboa.
Nessa tarde, na pastelaria Gomes, sentava-me com um amigo que partilhava as mesmas preocupações e cumplicidades, conversando em voz baixa sobre os acontecimentos que aí vinham. Lá fora, vimos aproximar, histriónica, uma das figuras da "reação" local. É preciso conhecer bem a Vila Real da época para se entender o facto de, na cidade, conviverem, sem dificuldade, pessoas com diferentes e até antagónicas ideias. Eu sabia que essa figura, entrada que fosse na Gomes, se sentaria inevitavelmente à nossa mesa, até pela certeza de poder encetar conosco uma estimulante disputa verbal. Por essa razão, num segundo, combinei um estratagema com o amigo que tinha a meu lado.
Como expectável, o recém-chegado juntou-se-nos para um "covilhete" (se o leitor não sabe o que isso é, visite Vila Real) ou uma fatia de bôla de carne. Olhando para a mesa, viu esquiçado numa página branca um desenho do que parecia um edifício, em forma de cruz.
- O que é que vocês estão a tramar?, perguntou, curioso, ciente de que, com dois "esquerdalhos" como nós, esse desenho tinha, com toda a certeza, um objetivo não inocente.
- Nada que te interesse, disse-lhe eu, num tom que só aumentou a sua curiosidade.
- Uma cruz?! Quase parece a planta da sé...
- Pronto, "tá" bem, é a sé. E depois?
- Mas por que razão vocês estão a desenhar a sé?, alarmou-se.
- Ó homem! Isto é só uma ideia, mas, se prometes segredo, podemos revelar-te que há uma séria hipótese do espaço da sé poder vir a ser transformado numa área desportiva, de apoio aos tempos livres. Isto ainda não se sabe, mas a sé deve passar para a tutela do INATEL.
O visitante estava boquiaberto. E escandalizado. As suas piores suspeitas sobre as ideias dos "comunas" (para a direita, à época, esse espetro insultuoso era muito alargado) confirmavam-se em pleno. A sé catedral?! A velha igreja de S. Domingos transformada em recinto gimno-desportivo (não me recordo se o conceito já existia, à época).
Generoso, entendi dever ser um pouco mais detalhado:
- Vamos a ver se nos entendemos. Tens que concordar que há, na cidade, um défice evidente em matéria de equipamentos para lazer. A União Artística não chega, a "Católica" não tem espaço e a "Bufa" (nome depreciativo que dávamos à Mocidade Portuguesa) "já era". Ora a sé está desocupada a maior parte do tempo e está num lugar central ideal, bem fresco no Verão. Quem goste de rezar ou de missas tem imensas igrejas. A "capela nova" está aqui a dois passos, tal como a Misericórdia. E S. Pedro é logo ali em cima. A nossa ideia é procurar adaptar a área dos altares laterais da sé para dois bilhares livres e o altar principal para um "snooker". A questão da nave central é mais complicada, porque as seis colunas criam problemas à proposta de aí fazer uma zona para voleibol. Se assim não for, teremos de ir para a alternativa de mesas de ping-pong. Há quem pense num bilhar grande às três tabelas, que nem o Excelsior nem a Pompeia têm, mas resta saber se haverá clientela para isso.
O "reaça" esbugalhava os olhos. "Tomarem" a sé catedral, o centro religioso da cidade?! Sossegámo-lo, com modéstia temporal de intenções:
- Ó pá, isto ainda está apenas em planos. Estamos também a estudar a questão das balizas para futebol para pôr no adro. Por isso, só daqui a uns tempos é que se iniciará o desmantelamento da sé. Mas atenção!: é nossa preocupação preservar bem o recheio. O projeto é mandar muitas coisas para a Senhora de Lurdes.
A menção da capela da Senhora de Lurdes, uma igreja desativada, lá para os lados da estação ferroviária, em acentuado estado de desagração, aumentou a ira do já desestabilizado conservador.
Sempre tive uma excecional capacidade de sustentar estas historietas sem me desconcertar. Mas o meu comparsa estava, pouco a pouco, a deixar-se rir. Por isso, levantou-se e fez menção de sair pelas portas de guarda-vento. Mas, nesse movimento, teve ainda ânimo para estacar junto ao embasbacado reacionário e dizer-lhe, convicto:
- Não eras tu que gostavas de jogar matraquilhos? Pois é nossa intenção encher a sacristia de mesas de "matrecos". E de graça, porque isto agora passa a ser tudo do povo, pá!...
A patranha esclareceu-se nos minutos seguintes. Mas senti que o nosso amigo (porque era nosso amigo) "reaça" não ficou de todo sossegado.
Para a história, registe-se que a manifestação do dia seguinte não provocou violência. O PCP, acantonado na rua da Misericórdia (ironia toponímica...), não precisou de usar as caçadeiras que me disse ter para defesa da sede e o MDP-CDE, sobre a "Mabor", lá se aguentou às provocações lançadas da avenida, comigo encostado ao Tocaio, a ver a onda católica passar. Já o PS nada tinha a temer, porque o padre Sarmento, eixo da máquina clandestina da "Maria da Fonte", tinha-os, e bem justamente, por "compagnons de route" anti-comunista, nesse Verão complicado e muito "quente".
E a Sé, a magnífica igreja de S. Domingos, lá continua intocada, agora com uns belos (mas, para alguns, controversos) vitrais de João Vieira, que vivamente recomendo sejam vistos.
O arbóreo (3.4.13)
Cruzei-me com ele há dias, numa rua de Vila Real. Já o não via há bastante tempo. Tive logo uma reação de imediata precaução. É que estava perante um conhecido praticante da chamada conversa "arbórea".
Tenho este assunto, de há muito, bem estudado. A conversa "arbórea" é um estilo de expressão oral que se carateriza por uma deriva temática obsessiva, tendo como pretexto o emergir de uma qualquer referência significativa. A conversa do "arbóreo" segue como os ramos de uma árvore, de onde surgem novas ramificações, as quais, por sua vez, se subdividem.
Diga-se, com franqueza, que nenhum de nós está imune a esta prática. Num diálogo solto e informal, todos caímos, frequentemente, neste vício. Eu faço-o, com regularidade e de modo consciente. Só que há quem o exercite por regra e seja completamente incapaz de o evitar. É o caso do pessoal que é tipicamente "arbóreo".
Uma vez mais, o meu interlocutor não desiludiu as expetativas - e só transcrevo aqui o que me disse pela certeza segura de que ele não utiliza computadores:
- Então já saiu de Paris? Deixou-se de embaixadas, não é? Era tempo! Bela cidade, Paris! Sabe que tenho lá uma irmã, que trabalha na banca? Nunca a encontrou? Está casada com o Meireles, você é capaz de conhecer, está muito ligado ao Florindo, aquele advogado que esteve nos governos do Soares. Você é amigo do Soares, não é? Sabe se está melhor? Deve estar. Li num jornal que ele já fez um elogio à entrevista do Sócrates. E a si, o que lhe pareceu a "aparição" do homem? O que é que ele pretende? Belém ou só atazanar o Seguro? Acha que ele vai voltar? Não gosto dele, mas pareceu-me em boa forma. O tipo tem cá uma raça! Ele ainda anda por Paris, não é? Você via-o muito por lá? Ao tempo que eu não vou a Paris! Sabe que cheguei a pensar fazer-lhe uma vista lá na embaixada? Mas, com a crise, não deu...
Nem sempre um "arbóreo" fecha o discurso, como este meu conhecido fez, regressando com a conversa "a Paris". As mais das vezes, prossegue na sua imparável viagem pelas palavras, sem limites nem contenção. Só raros "arbóreos", no delírio quase intravável do seu curso verbal, chegam à frase consciente:
- Já me perdi. De que é que estávamos a falar?
Neste passo da conversa, tida na esquina entre o ourives o o Zézé (só um vilarealense sabe o que é isto), em frente ao Santoalha e ao antigo Rafael (já houve por ali um sinaleiro!), apenas o surgimento oportuno de outro conhecido me salvou. E o "arbóreo" lá desandou, em direção ao que, noutros tempos, foram o Zeca Martins e o Teixeira Pelado...
Azul, Senhor Branco! (14.4.13)
Alguns amigos são de opinião que este blogue tem publicado histórias em demasia sobre Vila Real, cidade que poucos leitores conhecem e para cujas idiossincrasias a curiosidade do mundo estará escassamente mobilizada. Talvez assim seja. Eu, porém, tenho a sensação, porventura errada, de que muito desse pequeno universo de província pode acabar por ser uma espécie de amostragem de todo um país que, com mais ou menos nuances, também se revia, um pouco por toda a parte, em muitas figuras e historietas simples, mais ou menos caricaturais, que eram o retrato quase ingénuo de um outro tempo. E que, também por isso, tem graça fixar por escrito.
Recordo-me do senhor Branco já como uma figura idosa, à porta da centenária livraria e papelaria que leva o seu nome e que constitui um dos marcos da vida comercial de Vila Real, na sua rua Direita. A seu respeito, toda a cidade do meu tempo contava um episódio, que se crê verdadeiro, e que deu origem a uma expressão que passou para a posteridade local.
Ao que se sabe, o senhor Branco teria um fraco especial por uma "criada" (era assim que se dizia, claro) lá de casa. O namorado da rapariga era por esta acolhido discretamente, com regularidade, no vão da íngreme escada que dava acesso do primeiro andar para a rua. Numa dessas ocasiões, ao dar-se conta que o senhor Branco vinha a entrar, a rapariga foi ter com ele aproveitou para pedir-lhe, quiçá como legítima compensação pela sua complacência face aos seus avanços, se ele lhe poderia comprar uma gabardina que o "seu irmão" muito necessitava - na realidade, correspondia apenas a um desejo do namorado, o qual, pelos vistos, tinha bastante bom "feitio" e não se importava por aí além de partilhar os favores da rapariga.
O senhor Branco, enlevado como andava pela jovem, terá dado mostras de poder aceder ao pedido e, passando à parte prática do assunto, perguntou que cor de gabardina quereria "o irmão". A criada hesitou por um instante. Foi então que, do vão da escada, talvez inquieto pela possibilidade da opção escolhida poder vir a não ser do seu agrado, se ouviu, a medo, a voz do rapaz:
- Azul! Azul, senhor Branco!
A história pode não ter sido bem assim. Mas pouco importa. Julgo que, na minha geração, nenhum vilarealense deixava de conhecer este episódio e esta frase, que aqui recordo, com um abraço amigo ao Alfredo, neto do senhor Branco.
Desassa! (22.7.13)
Lá pela minha terra, por Vila Real, havia em tempos um homem bastante forreta, que era conhecido por aproveitar todas as "borlas" que se lhe ofereciam. Um dia, estava à porta de casa, esperando a hora do jantar. A mulher tinha acabado de ir para a cozinha, dizendo que ia assar uma carne. Entretanto, um amigo passou pela rua e convidou o nosso homem para ir comer uns petiscos lá a casa. Entusiasmado, gritou para a mulher, uma frase que ficou famosa:
- Ermelinda! Desassa!
Ontem, ao ouvir o presidente da República, lembrei-me desta historieta. Porquê? Sei lá!
A cicatriz (14.10.13)
Naquele tempo, naquele período de menos de seis anos que mediou entre a queda de Salazar (queda dupla: da cadeira de lona, em agosto, do poder efetivo, em setembro) em 1968 e a Revolução iniciada em abril de 1974, alguma coisa mudou na vida política portuguesa, embora não o suficiente para garantir um fôlego salvador à ditadura.
A televisão seria um dos instrumentos onde essa mudança se fez sentir. Ainda antes de 1968, Marcello Caetano havia sabido colocar alguns homens de mão dentro da RTP, um espaço de afirmação de poder onde, no "swap" de ditadores, se iria passar uma das lutas surdas entre o salazarismo decadente e o marcelismo nascente. Para além das "conversas em família" do novo chefe, um proselitismo monologante que o "presidente do Conselho" quis fazer passar por um ato de transparência democrática, a RTP passou a oferecer outras curtas palestras ideológicas, sem imagens que não fossem as das caras estáticas de jornalistas serventuários, alguns de muito considerável qualidade intelectual, oriundos de órgãos de imprensa do regime moribundo - o "Diário da Manhã", o "Novidades", "A Voz" e, mais tarde, a "Época". Os nomes não era muitos: Barradas de Oliveira, Dutra Faria, João Coito, Artur Anselmo e alguns mais.
Sempre tive um estranho fascínio e uma dedicada atenção a tudo quanto se situa do lado contrário àquele que defendo. Da mesma maneira que não dou prioridade a artigos, livros ou blogues que assumam teses com que sei, à partida, que vou concordar, acabo por ter um bizarro e quiçá masoquista tropismo para tudo quanto tenho a certeza de ir detestar. Por isso, as intervenções dos integrantes da lista de panfletários do regime que acima elenquei eram, para mim, momentos imperdíveis do espetáculo televisivo, por mais que isso chocasse familares e amigos.
Uma noite, numas férias, em Vila Real, aí por 1972 ou 1973, "divertia-me" a observar na RTP Dutra Faria, um jornalista da "situação", de ar grave e façanhudo, que se desdobrava numa qualquer diatribe anticomunista ou contra os "terroristas" que operavam nas colónias. Ao meu lado, o meu pai mostrava alguma indiferença à palestra e só não punha termo ao meu obsessivo "voyeurisme" do regime porque, havendo um só canal televisivo, o "zapping" era então um conceito inexistente.
Num certo momento da charla televisiva, o meu pai comentou:
- Já reparaste naquela cicatriz que o Dutra Faria tem sobre a sobrancelha?
De facto, mesmo no preto-e-branco da imagem desses tempos, era visível que o homem tinha uma marca muito clara na cara.
- Eu assisti ao momento em que o Dutra Faria "ganhou" aquela cicatriz. Foi há mais de 40 anos...
Olhei com alguma surpresa para o meu pai. Ele era o que se pode chamar um republicano "dos quatro costados", nunca escondera a ninguém o seu pendor oposicionista, havia-me levado pela mão a ver o Humberto Delgado em 1958 e, em 1969, tinha apoiado a minha participação na aventura eleitoral vilarealense contra o regime. Mas, confesso, não imaginava que tivesse estado imerso num combate político com decorrências físicas. Por isso, fiquei à espera da explicação.
- Julgo que foi em 1930, na "casa de pasto" Liège (*), no início do elevador da Bica. Era um restaurante de galegos, que os funcionários da Caixa Geral de Depósitos, como eu, então frequentavam. Um dia, durante um almoço, assisti a uma cena que me ficou na memória. Um grupo de "camisas azuis" - os nacional-sindicalistas, dirigidos por Rolão Preto (**) - começou, numa mesa, a dar vivas à contra-revolução e ao fascismo. Os tempos políticos eram muito tensos. A ditadura estava em pleno e os nacional-sindicalistas andavam então numa grande euforia, julgando ser possível instituir em Portugal um modelo próximo do fascismo italiano. Pouco tempo depois, Salazar iria pôr um ponto final nesse radicalismo. Os comensais das restantes mesas olhavam o ruidoso grupo, mas mantinham-se em silêncio. Dei-me então conta que um homem que almoçava sozinho começou a agitar-se e, a certa altura, não se conteve e gritou: "Viva a República!". Os nacional-sindicalistas, sentindo-se provocados, levantaram-se e cercaram a mesa do republicano. Este, ameaçado por todos os lados, pegou numa garrafa e enfrentou o grupo agressor. Na luta que se seguiu, um dos "camisas negras" foi atingido no sobrolho e começou a sangrar. Aproveitando a confusão, o republicano conseguiu fugir pela calçada da Bica abaixo. O ferido era o Dutra Faria e o republicano chamava-se Carvalho Araújo(***). Tu sabes quem é...
Claro que sim! Era o Carvalho Araújo, um homem com quem eu tinha colaborado, ali mesmo em Vila Real, na referida batalha oposicionista de 1969 e de quem já um dia contei uma divertida história neste blogue. Fora afastado da função pública pelo Estado Novo e, depois de uma vida difícil e tumultuosa, regressara a Vila Real, pouco tempo antes. Muito radical e com mau feitio, acarretava consigo uma aura de resistente à ditadura que muito impressionava a nossa geração local.
Nessa noite, fiquei a saber a quem se devia a (republicana) cicatriz que nunca mais abandonou o rosto de Dutra Faria.
(*) - A casa Liège ainda hoje existe. Voltei lá um dia, com o meu pai, num almoço em que me descreveu a coreografia da cena.
(**) - Por um bambúrrio histórico, eu tinha conhecido Rolão Preto, no Fundão, numa noite em meados de outubro de 1969, numa reunião oposicionista. O antigo nacional-sindicalista, então com 76 anos, tinha-se aliado a uma lista monárquica anti-regime. Deixo uma imagem dos seus tempos áureos.
(***) - Carvalho Araújo viria a ser reintegrado na Caixa Geral de Depósitos, depois da Revolução de abril. No escasso tempo que lhe restava antes da aposentação, ficou colocado sob a autoridade do meu pai, gerente da Caixa na cidade, que também não lhe gabava o feitio...
Os Santos (2.11.13)
Esta é a altura dos "Santos", lá por Chaves. É uma das grandes festas transmontanas, famosa desde sempre como grande feira rural, hoje, dizem-me, está muito urbanizada nos usos mas, nem por isso, menos movimentada e atraente.
Na minha infância, em alguns anos, fui de Vila Real "aos Santos". Almoçávamos quase a meio da viagem, em Bornes, junto às Pedras Salgadas, em casa dos meus avós maternos. Atravessava-se a ponte de Trajano já ao entardecer. Recordo-me de ter criado a ideia de que era uma festa algo estranha, porque quase sempre tinha lugar em tempo frio, quando, em Portugal, a generalidade deste tipo de feiras ocorre numa altura quente do ano. Mais tarde, vim a apreciar frígidas feiras em período natalício, no norte da Europa, com adequadas bebidas quentes para atenuar esses efeitos.
Nesse tempo e nessa idade, a minha grande curiosidade era ouvir falar espanhol pelas ruas, coisa que nunca acontecia no nosso quotidiano de Vila Real, algumas escassas dezenas de quilómetros a sul. É que, tal como sucedia aos flavienses que se deslocavam anualmente "aos Lázaros", a Verín, no mês de março, nesse dia a fronteira era relativamente franqueada para os galegos virem a Chaves, com dispensa de passaporte. Essa minha sedução pelo que soava a "estrangeiro" era, em Chaves, sublinhada pela ideia mítica do contrabando que lhe ia associada, da comercialização do que não havia do lado de cá, de que era expoente a famosa loja da Aninhas Vitorino, que então muito se frequentava e que sobrevivia por complacentes e dizia-se que poderosas cumplicidades.
Nessa "romaria", recordo-me que se ia sempre visitar a nossa família flaviense e, invariavelmente, passava-se no "Aurora", o café do sr. Avelino, um galego simpático que tinha vivido, por alguns meses, refugiado num armário da casa das minhas tias, nas Pedras Salgadas, durante a guerra civil espanhola. Um mundo de aventuras juntava-se, na minha cabeça de miúdo, à figura do sr. Avelino e às suas andanças políticas. E, com naturalidade, passei a ter simpatia pelas causas que tinham motivado aquele amigo da família.
Guardo ainda a imagem das barracas noturnas no jardim do Bacalhau - ou seria na praça General Silveira? -, do bulício da gente, para cima e para baixo, na rua de Santo António. Depois, era o longo regresso noturno a Vila Real, por Vidago, pelo Reigaz acima, pelas longas retas de Sabroso e Vila Pouca, com a subida da Samardã como último obstáculo.
Outros tempos. Agora, com a A24, tudo é mais fácil. Já prometi a mim mesmo: para o ano, vou "aos Santos"!
Para o Sérgio Moutinho (8.11.13)
Olá, Sérgio
Cheguei há pouco ao sul da Anatólia, aqui na Turquia, não muito longe da Síria de que tanto me falavas com entusiasmo. De repente, lembrei-me que terá sido mais ou menos por aqui, no final dos anos 80, que vinte e tal facadas traiçoeiras te calaram a alegria. Foi num dos meus mais tristes Natais, em Vila Real, aquele dia frio em que te fomos deixar para sempre em Santa Iria.
Ainda tenho, entre algumas outras, uma carta tua, enviada meses antes, de Ancara, em que me falavas do teu cansaço com o posto onde te mantinham, para além do razoável, muito contra a tua vontade. Lembro-me de me teres dito que te apetecia concorrer a Marselha e de eu te desaconselhar essa opção, já nem sei bem com que argumentos. E de não ter tido artes para te tirar da Turquia, coisa que nunca me perdoei. Não esqueço também o nosso último almoço, na Laurentina, com a Mi Allegro, a quem tu davas conselhos para a vida afetiva - logo tu, Sérgio!
Já passaram muitos anos, mesmo muitos, desde os tempos em que desembarcaste em Vila Real, vindo dos "States", com o melhor inglês da cidade, sempre agitado e agitador, numa terra pouco dada a acomodar quem não estava "nem aí" para se acomodar. Foram os tempos comuns no liceu de Vila Real, onde só o teu entusiasmo, e a paciência bracarense do professor Ladislau, conseguiu levar-nos a montar o fantástico "Centro de Estudos Geográficos", onde, com o Elísio Neves, o Zé Barreto, o Carlos Leite e alguns outros, soubemos dar a volta à rotina desses dias algo baços, numa cidade que - confessemos! - era então uma grande chatice. Ainda guardo exemplares do "Meridiano", órgão do Centro, com textos que hoje me fazem sorrir.
Para ti, que sempre foste um apressado dos tempos, esse foi apenas o início de um percurso trepidante, que te levou à universidade de Coimbra, a dar aulas, a ser preso pela Pide, a te meteres na aventura da cooperação na jovem Guiné-Bissau. E, finalmente, sob o meu conselho, a entrares para a carreira diplomática, onde foste uma promissora estrela, tão efémera como acabou por ser a tua vida. Tudo isso feito sob o olhar bom, sorridente e deliciado, da tua mãe, a âncora mais fiel de uma existência em que, sem outras baias que não fossem as do usufruto obsessivo do instante, testaste todos os limites e abanaste todas as convenções. Até àquela noite.
Nunca se soube, nem se saberá ao certo, o que aconteceu nessa ocasião trágica, aqui na Anatólia. Como dizem os juristas, "a doutrina divide-se" e eu fiz parte de uns poucos que, contra a vontade de alguns outros - à frente de quem esteve, quem havia de ser?, a nossa amiga Ana Gomes, que tu me havias apresentado um dia - nunca se mostraram excessivamente empenhados em escrutinar o rigor dos factos ocorridos, talvez porque o facto maior foi sempre a tua morte, e essa foi a tristeza definitiva que nenhuma revelação sensacional poderia reverter. E porque, quem sabe se erradamente, sempre fui de opinião de que a verdade oficial que, inevitavelmente, seria vendida e mediatizada, só iria contribuir para agravar a tristeza de quem te estava mais próximo.
É tudo quanto hoje te quero dizer, Sérgio, aqui da Turquia, um país a que sempre te associo. Se acaso há algum lugar por onde possas andar, só tenho uma certeza: estarás a agitar as águas e os espíritos. Recebe um abraço saudoso do
Francisco
ps - não te falo da política caseira porque, conhecendo-te, "passavas-te" se eu te contasse como as coisas andam por lá, por Portugal. Mas, mesmo assim, felicito-te pelos resultados em Setúbal, em Évora, em Loures ou em Beja, entre outros lugares onde os teus (o "partido", como tu dizias) mostraram a sua consabida arte de bem cavalgar todas as crises.
Os meus livros (24.12.13)
Há uns anos, dei por mim a olhar para umas estantes onde tinha grande parte dos meus livros e a interrogar-me sobre o que fazer-lhes. Nunca fui um bibliófilo no sentido clássico. Não tenho raridades bibliográficas, embora possa ser proprietário de alguns livros que, não sendo caros, é difícil encontrar, mesmo nos alfarrabistas. Não tenho uma "biblioteca" no sentido tradicional, organizada por secções. Fui comprando livros ao sabor dos tempos, às vezes ao ritmo de algumas modas intelectuais, outras por via de escolhas políticas, muitas mais porque a atualização profissional ou os gostos do momento me levaram a adquiri-los. Comprei livros que não li de todo, alguns completamente desnecessários, outros que só folheei, outros ainda porque achava que um dia ia ter tempo para os ler e não tive, para além dos que eram tão baratos tão baratos, numa feira do livro ou num saldo, que achei pena não ficar com eles. Com escassas exceções, sei onde e por que razão comprei cada livro. Gosto muito de oferecer livros, mas nunca dei um único livro dos meus. A minha biblioteca é hoje, assim, uma mescla imensa, onde se pode encontrar um pouco de tudo, desde ficção avulsa a muitas biografias e memórias, bastante história contemporânea, uma imensidão de dicionários, enciclopédias e obras de referência, muita coisa sobre a Europa e relações internacionais, montanhas de "current issues" e o que restou de tempos "esquerdalhos" - Marx & companhia. Mas há também publicações periódicas encadernadas, folhetos vários, literatura clandestina, etc. O único setor com alguma coerência e bastante completo são centenas de volumes relativos às lutas contra o Estado Novo e à política portuguesa contemporânea (onde me deve faltar muito pouco do essencial).
Quando saí para o meu primeiro posto diplomático, no final dos anos 70, levei comigo quase todos os meus livros de então, umas largas centenas. (Curiosamente, eram, de forma esmagadora, em língua portuguesa e francesa; o inglês viria mais tarde). A partir daí, fui circulando pelo mundo acompanhado de apenas alguns desses livros, mandando os restantes para Portugal, espalhados entre a casa em Lisboa e a dos meus pais, em Vila Real. E comprando outros, claro. Passei, a partir de então e para sempre, a ter livros espalhados por vários locais. Às vezes, chegou a acontecer-me comprar o mesmo livro duas vezes. Depois dos últimos doze anos passados ininterruptamente no estrangeiro, a situação tornou-se fisicamente insustentável. Assim, no início deste ano, cheguei a Portugal com mais alguns milhares de livros "às costas". Nas estantes que tinha por cá já não cabia mais nenhum! Havia deixado em Paris quase quatro centenas, mas alguns milhares que me acompanhavam (e que cresceram dia a dia, em Paris) tiveram de ir diretamente para Vila Real. Para estantes? Não, em muitas dezenas de caixotes que jazem na maior divisão de uma casa vazia. Se somar os que tenho por Lisboa, juntos com algumas centenas que o meu pai me deixou, estaremos a falar de cerca de dez mil livros.
Que fazer? Decidi começar a doar esse espólio bibliográfico à moderna Biblioteca Municipal de Vila Real. Não foi uma decisão fácil de tomar. Tive a sorte de encontrar na pessoa do diretor da biblioteca, Vitor Nogueira, uma figura pouco comum na cultura de Vila Real, o interlocutor que me sossegou. Com ele combinei o "modus faciendi" desta operação progressiva. A biblioteca apõe em cada livro o carimbo que a imagem mostra, é feita uma recensão de cada volume, que segue depois para a secção respetiva. Por via informática, posso ir seguindo (tal como qualquer outro utente) o curso deste trabalho de integração dos livros na Biblioteca, inseridos num "fundo" próprio. E vou ficando com a certeza de que há quem trata os meus livros com o cuidado que (eu acho que) eles merecem. Tenho vindo a enviar para a Biblioteca tudo aquilo que entendo já não me fazer falta, o que naturalmente significa que as coisas que considero mais interessantes vão manter-se, por ora, em minha posse. Estão já por lá cerca de oito centenas de livros. Outros se seguirão no início de janeiro. Esta é uma "operação" necessariamente lenta, porque acarreta o desligar psicológico de objetos com que fomos habituados a viver. E isso, como se sabe, está longe de ser uma coisa fácil. Só ficaria preocupado, e as pessoas próximas de mim o deveriam ficar também, se um dia eu decidisse, de repente, dar todos os meus livros. Isso significaria que havia desistido de uma parte da vida. Porque os livros foram e são uma das partes mais importantes dessa vida.
Bom, e agora só espero que ninguém me ofereça livros logo à noite...
A outra cidade (27.12.13)
Vi-o ontem, a dar comida aos pombos. Deve ter cerca de 80 anos. Na Vila Real da minha adolescência, um tempo em que a homofobia tresandava na sociedade portuguesa, era objeto regular de sorrisos irónicos, quando não de "bocas" soezes, ao cruzar, com passos curtinhos e andar bamboleante, os nossos grupos de adolescentes, "armados" em machistas. Viamo-lo passear sozinho ou com outro amigo de perfil público similar. Às vezes, perdia-se com soldados "do 13", pelos caminhos do Circuito. Fazia então parte de um grupo de figuras que viviam num outro mundo, nessa sociedade de província que, nos anos 50 e 60, deve ter sido um espaço asfixiante e trágico para quem era forçado a desafiar a "normalidade" instalada. Esta é também uma imagem, bem menos gloriosa mas seguramente inevitável para a época, da cidade da minha juventude.
Confissão tardia (6.1.14)
Os brasileiros dizem "caiu a ficha" para designar o instante em que uma certa informação nos desencadeia um reflexo de memória. Foi o que me aconteceu, há dias, quando, ao selecionar os livros que ia doar à Biblioteca Municipal de Vila Real, deparei com "A Sociedade da Abundância", de John Kenneth Galbraith, uma edição de 1963, da "Sá da Costa".
O livro original é de 1958 (!) e, à época, foi considerada um obra fundamental daquele famoso economista (e também embaixador americano na Índia, período de que resultou uma memória muito interessante, o "Ambassador's Journal"). A tradução (verifico agora) é de Henrique de Barros, uma grande figura que viria a ser ministro e presidente da Assembleia da República.
Aí por 1967 ou 1968, eu costumava passar por aquela Biblioteca, em algumas tardes de férias. Era o tempo em que ela funcionava no rés-do-chão do município, com entrada junto ao liceu. Requisitava um livro ao sr. Agostinho e, lido que fosse, devolvia-o e pedia outro. "A Sociedade da Abundância" terá sido a única exceção a esta regra, talvez por ter sido o último livro que por lá pedi. Fui ficando com ele, julgo que a certa altura já tinha acanhamento de o devolver. Tenho mesmo a ideia de que, às vezes, me furtei ao olhar do sr. Agostinho, pelas ruas da cidade, quando com ele me cruzava.
Resolvi há dias esta questão, enviando definitivamente o livro, com muitos outros, para a Biblioteca, no âmbito da doação de que já aqui falei. Mas será que ele deve integrar o meu espólio? O Vitor Nogueira que decida...
Preparemo-nos! Ide! (22.2.14)
Na sua imperdível crónica no "Diário de Notícias", Ferreira Fernandes falou ontem de Bernard-Henry Lévy, o filósofo francês que estimulou Nicolas Sarkozy à invasão da Líbia e que, recentemente, surgiu, no alto da tensão ucraniana, a estimular publicamente em Kiev os opositores ao regime a rebelarem-se pela força.
A França é muito dada à gestação deste tipo de "guerrilheiros da palavra", de corajosos combatentes com os mortos dos outros, prenhes de gesticulação mediática e com uma avaliação das consequências das lutas ao nível das batalhas de soldadinhos de chumbo. Lévy é um filósofo de algum mérito, com uma expressão mediática constante, uma exagerada exposição da sua figura física e do seu verbo. Veste-se daquilo que os brasileiros qualificam de "esporte fino", isto é, bons fatos com camisa branca aberta até ao terceiro botão, a mostrar o peito, cabelo ondulado e esvoaçante graças à eficácia da laca. Lá o vi, há semanas, no "Flore", em Paris, preponderando numa corte de admiradores.
Na minha terra, em Vila Real, há um exemplo clássico destes estrénuos lutadores com as forças alheias, que o meu pai me recordava sempre. No início dos anos 60, aquando de uma das primeiras incorporações para a guerra colonial, ficou famoso o discurso jingoísta de um capelão do Regimento de Infantaria 13, o qual, voltando-se para os militares em parada, a dias de partirem para o braseiro de Nambuangongo e similares, terminou a sua alocução com uma frase que ficou histórica: "Rapazes! Preparemo-nos para a guerra. Ide!"
Vitória (24.2.14)
Uma vitória do Vitória de Guimarães sobre o Benfica "dava-nos jeito", daqui a horas. Vai ser difícil, mas em futebol tudo é possível.
Num domingo de março de 1966 - nesse tempo, o futebol era sempre e só ao domingo - um animado grupo de sportinguistas de Vila Real, no automóvel do Chico Menezes, que a vida castrense haveria de alcandorar ao comando do RI13 muitos anos mais tarde, zarpou pelo Marão, a caminho de Guimarães, para ir assistir ao jogo do Vitória com o Benfica. Uma derrota em Guimarães da agremiação de Carnide facilitaria, nesse ano, a conquista do campeonato pelo Sporting. Ambas as coisas acabariam por acontecer.
Depois de uma almoçarada "das antigas" numa pensão das Taipas, lá estivemos nós - eu, o Chico e o Fernando Menezes, o Olívio Carvalho, o Mourão, o Zé Macário e um outro amigo (o carro era imenso) que tinha um primo que nos arranjou os bilhetes - no recém construído "Dom Afonso Henriques", a mostrarmo-nos mais vimaranenses que os locais, deliciados a ver Costa Pereira encaixar três secos do Vitória. Ainda me recordo da animação no regresso, com pousio para uma jantarada regada a verde tinto, no Príncipe, em Amarante, no clássico largo do Arquinho, criando lastro para as muitas curvas que nos esperavam, serra acima, até à vista de Parada de Cunhos. Nesse tempo, a Brigada de Trânsito, que por lá tinha uma daquelas casinhas amarelas no cruzamento para a Régua, era bem mais complacente... Guardo uma foto do Macário desse grupo divertido, no alto da Penha, comigo, elegante e bem novo, de fato e gravata!
Curiosamente, essa seria a mesma equipa do Benfica, dirigida por Bela Guttmann, que emprestaria a Portugal o quinteto maravilha que, meses mais tarde, nos iria emocionar no Mundial de Inglaterra. Uma equipa que já tinha tido, dias antes, uma humilhante derrota por 5-1 na Luz, frente ao Manchester United. A mesma que também eu teria o ensejo de ver perder de novo, dessa vez para o Braga, a Taça de Portugal, duas semanas após a visita a Guimarães, na única vez que fui ao velho "28 de maio" (anos mais tarde crismado "1º de maio"). É curioso constatar que, numa época que veio a consagrar a sua mítica linha ofensiva no quadro da seleção, o Benfica perdeu tudo quanto podia perder, no plano nacional e internacional. É assim o futebol.
Pois é! E porque, como acima disse, no futebol tudo é possível, uma vitória do Guimarães, logo à tarde, em terras de Carnide, vinha mesmo a calhar. Um pouco de brio, ó gentes do Vitória!
Em tempo: razão tinha eu! Como se comprovou, em futebol, tudo pode acontecer! Desta vez, o Vitória de Guimarães não fez jus ao seu nome! Mas com um golo daqueles nada havia a fazer! Nem Afonso Henriques se aguentaria...
Os encontros da política (30.3.14)
Ontem, passei grande parte do dia em "trabalhos" de uma estimável Confraria de enófilos e gastrónomos. Como sempre acontece nestas ocasiões, na mesa onde abanquei fiz conhecimento com pessoas que nunca antes tinha cruzado. A conversa foi solta, como não podia deixar de ser, mas teve a saudável caraterística de fugirmos, com naturalidade, às temáticas potencialmente mais conflituais: não se falou de política.
Evitar abordar temas de política e de religião - noutros meios acrescentar-se-ia à lista a saúde, questões de dinheiro e opinar sobre pessoas ausentes - é um ato de bom senso a qualquer mesa, quando na presença de gente que não conhecemos ou conhecemos menos bem. Há pessoas mais sensíveis face às suas convicções e uma ocasião pode ficar estragada se não soubermos preservar o respeito estrito pelo que os outros pensam. Já assisti a cenas bem desagradáveis neste domínio e, em duas ou três ocasiões, eu próprio cometi erros de que me arrependo.
Outras ocasiões, contudo, convocam precisamente a identificação social da opinião politica. Imediatamente após o 25 de abril, cruzei, numa rua de Vila Real, um colega de liceu que já não via há muitos anos. Demos fortes abraços, lembrámos algumas histórias antigas e perguntámos por conhecidos comuns. Foi uma daquelas conversas típicas destes reencontros, que têm substância para os primeiros 10 a 15 minutos, mas que se esgotam depois rapidamente, por falta de temas, devido ao facto dos mundos de cada um terem quase sempre limitados pontos de contacto.
Convém lembrar que se viviam, por esses dias, tempos ideológicos muito intensos. Muitos portugueses tinham despertado subitamente para a coisa política, assumindo-se face ao vasto leque de opções partidárias que a Revolução abrira. Esse meu amigo não escondeu a sua curiosidade sobre o lugar ideológico onde eu "estaria" e perguntou:
- Olha lá! E nas políticas, por onde andas? Mais às esquerdas ou mais às direitas?
Achei divertida a "fórmula" utilizada, tendo respondido com a verdade. De facto, logo concluímos que não andávamos pelas mesmas lateralizações ideológicas. Mas continuámos bons amigos.
O Mondrões e as flores (4.5.14)
Dizem-me que hoje é dia da Mãe. Nunca percebi por que luas deixou de ser a 8 de dezembro, como aprendi em criança. Nessa Vila Real da minha infância, duas ruas disputavam então o título das mais bonitas passadeiras de flores da cidade, que os vizinhos faziam pela Páscoa: a rua Avelino Patena e a rua Alexandre Herculano. Tenho a "glória" única de ter nascido na primeira e ter vivido na segunda. As restantes ruas da cidade, onde também se faziam passadeiras, nunca estiveram à altura de competir com aquelas duas artérias. Com os anos, as passadeiras deixaram de se fazer. E é pena.
Os desenhos da rua Alexandre Herculano (na imagem) eram da autoria do senhor Lima, proprietário do Café Imperial. Com fama de comunista, sempre mal encarado e desagradável para os seus clientes, o homem só enchia o seu café na noite de Consoada, onde tradicionalmente se alojavam os "hereges" que insistiam em tomar uma bica profissional ou os viciados, a caminho da missa do Galo. Os seus desenhos das passadeiras eram, contudo, dificilmente batíveis (neste caso pelo desenho do senhor Claro, que orientava a rua Avelino Patena).
Para a composição das passadeiras, ia-se na semana anterior pelos montes, em busca de flores. Integrei essa operação algumas vezes. "Briefadas" pelo senhor Lima, um grupo de senhoras avançava de carro para zonas rurais tidas como podendo proporcionar as cores das pétalas desejadas pelo "designer". Eram levadas pelo Mondrões, um motorista reformado que morava lá na rua e cuja contribuição para o empreendimento era conduzir um grande automóvel emprestado à organização. O Mondrões era de poucas falas, resmungão, pouco aberto a aceitar comentários sobre o modo como dirigia. Contavam as senhoras, durante as noites em que no "Ninho" (uma instituição de educação de crianças, também da rua), se fazia a separação das flores, que a condução do Mondrões proporcionava momentos de grande emoção, fruto do estado de quase permanente embriaguês em que o homem andava. Mas a história foi-lhe justa: não há nota de qualquer acidente ocorrido.
É ainda sobre o Mondrões que corria na minha rua um episódio célebre. Um dia, na tasca do Morrinha, também lá pela rua, ao Mondrões foi dado a provar um vinho branco cuja pipa acabara de chegar do produtor. Pedia-se a sua abalizada opinião. O homem, porém, tinha acabado de emborcar uma dose idêntica de vinho tinto, pelo que o seu estómago terá tido um ligeiro incómodo. É então que o Mondrões, mirando o ventre proeminente, tem um "diálogo" com os dois vinhos: "Ou vos aguentais os dois aí dentro, ou vamos os três para o chão!"
O bicarbonato (19.4.14)
Era a manhã de uma quinta-feira de Páscoa. Lembro-me bem porque, a partir da hora do almoço, o país público fechava: lojas, rádios e até os cafés passavam a regime atenuado, nesse Portugal do final dos anos 50. Eu devia ter aí uns 11 ou 12 anos.
Por esse tempo, perto de minha casa, em Vila Real, havia uma pequena tabacaria, dirigida por uma figura com aquela "gravidade" que costuma atingir alguns homens de meia idade, sempre de fácies fechado, como que para serem levados a sério, cara de "poucos amigos". Embora criança, eu era, curiosamente, um desses "amigos". Passava por lá muito tempo, à conversa, sei lá sobre quê. Não obstante as mais de três décadas de idade que nos separavam, ele aturava-me. A boa letra que então tinha convertia-me também num seu benévolo "ajudante": escrevia-lhe parte da correspondência para as distribuidoras e para os serviços de expedição dos jornais, regulando encomendas e sobras. Em implícita troca de vantagens, eu lia lá pela tabacaria revistas que não tinha dinheiro para adquirir.
"Isilda, traz o bicarbonato!", ouviu-se, nesse dia, do lado de fora da porta. Era o dono da tabacaria a chegar, montado na sua Zundapp, fumegante e ruidosa, com uma caixa de madeira na parte de trás, de onde emergiam os rolos de jornais, que tinha ido buscar ao comboio.
(Eu deliciava-me com a abertura desses rolos, sempre embrulhados em jornais antigos. Por ali vinha a imprensa desportiva, mas também os jornais diários, além do "O Século Ilustrado" e a "Flama". Para mim, à época, os interesses eram outros. Eram, essencialmente, as revistas brasileiras de histórias "aos quadradinhos", desde os "cowboys" às publicações da Disney. Do que era editado em Portugal, a minha prioridade ia para o "Cavaleiro Andante", o "Mundo de Aventuras", o "Condor Popular" e coisas assim. O "Tintim", antecedido do "Foguetão", ainda não tinha surgido e o meu gosto pela "Crónica Desportiva" e pela "Plateia" ainda estava por surgir.)
O nosso homem entrou na loja, com o boné de felpo de que nunca se separava, os rolos de jornais sob o braço. Pousou-os ao longo do balcão que enchia toda a largura da loja. A Isilda, mulher de carrapito e abundante buço, com ar mais velho do que ele, atenta e veneradora, já vinha com o copo borbulhante do bicarbonato, que iria atenuar as azias estomacais do marido, cujo excesso de álcool era por demais evidente. Coisa habitual, diga-se, sempre potenciando o seu mau génio, de que a mulher e os filhos eram um alvo regular. O homem bebeu o copo de líquido esbranquiçado de um trago.
Tempo de Páscoa, a Isilda ousou revelar: "Encomendei um folar, ali na padaria". O que ela foi dizer! Foi o pretexto de que o marido estava à espera para explodir o seu mal-estar. Um bofardo desancou a cara da Isilda, que andou uns metros para o lado, recuperando-se da dor e da vergonha pelo meu embaraçado testemunho da cena. Por entre um chorrilho de insultos à mulher, o homem mal dera por mim. Discretamente, esgueirei-me para a rua, para não assistir às cenas dos próximos capítulos. Durante uns dias, não voltei a passar por lá. Depois, o apelo das revistas foi mais forte e, uma tarde, regressei. Fui acolhido com um sorriso triste da Isilda, meio cúmplice.
Era assim, o Portugal de então. Terá mudado muito? Nunca mais esqueci esse episódio de Páscoa.

Sem comentários:

Enviar um comentário