(Prefácio ao livro de Stelson Ponce de Azevedo)
Alguém disse um dia que uma viagem é sempre um exercício solitário, por muito acompanhado que cada um para ela vá. Dos percursos feitos, o viajante recolhe notas e imagens que têm muito a ver com a sua própria personalidade, com a sua matriz cultural, com a agenda de interesses que transporta, com as expectativas com que se envolve no exercício. A mesma viagem, se contada por diferentes pessoas, para além de alguns inevitáveis pontos factuais comuns, transforma-se sempre num conjunto de relatos muito diversos, como se os mesmos eventos se projectassem ao sabor daquilo que intimamente cada um é.
Ao ler o trabalho de Stelson Ponce de Azevedo lembrei-me desta verdadebem simples. Este é um livro de sentimentos, um repositório de percepções, feito de escolhas muito pessoais, no imenso universo de opções que sempre é a peregrinação por um país. Estamos perante um viajante que toma o cuidado de reportar, em pormenor, não apenas os seus percursos, mas igualmente a sua própria vivência nos pontos que tocou, com dimensões familiares à mistura, que humanizam ainda mais o seu texto. Isso confere à sua escrita uma autenticidade e uma vivacidade muito particular, como a que resultaria do ritmo de um diário pessoal.
Este livro é de muito fácil leitura e permitirá cruzar as suas propostas com as experiências futuras de quem se sentir tentado a seguir os passos do autor. Convoca uma geografia própria, que foi a da sua escolha, no plano de andarilho que desenhou por um Portugal que manifestamente o seduz. Mescla notas históricas com traços humanos do presente, não se esconde por detrás da neutralidade de uma escrita seca. Pelo contrário, toma o risco de se colocar como proponente de caminhos que a sua experiência entendeu por seguros e fiáveis, tratando o leitor como um amigo a quem se dá conselhos.
Porque conheço bastante bem toda a realidade que este livro toca, devo ao leitor uma palavra de verdade: nem sempre estou de acordo com o modo como o autor pinta o retrato do Portugal que palmilhou, para além de partilhar frequentemente escolhas muito diversas das que faz e propõe. Mas essa é uma consequência inevitável do contraste de percepções a que antes me referi, da viagem “diferente” que cada um de nós faz quando trilha os mesmos caminhos.
Este livro tem ainda o aspecto curioso de consagrar, numa linguagem simples e de bom-senso, alguns critérios básicos para quem pretender organizar uma viagem, sem grandes exigências, pelas terras de Portugal.Procura dar indicações práticas aos que, com escasso tempo, mas comgrande curiosidade, desejem efectuar uma visita às paragens lusas. E as “dicas” fornecidas, em função de uma experiência vivida, como que obrigam o leitor a criar um laço de inevitável cumplicidade com o autor do texto.
Este livro é, assim, uma espécie de volta a Portugal de emoções e sentidos, uma recuperação, através da memória afectiva, do país que todo o português traz dentro de si próprio, às vezes não o conhecendo bem.
Portugal foi sempre, historicamente, hospitaleiro para o viajante, aberto ao estrangeiro, simpático para o turista. Porém, durante anos, a oferta que se apresentava ao visitante era, em determinadas regiões, limitada e de qualidade muito discutível. O Portugal das “pensões” e das “casas de pasto”, que ainda povoa a memória de alguma nostalgia ruralista, transformou-se hoje num país com uma rede hoteleira magnífica, complementada pelas Pousadas de Portugal, pelo Turismo de Habitação e pelo Turismo Rural. A gastronomia portuguesa, que sempre foi uma riqueza cultural presente em certas zonas do país, encontra-se hoje ao dispor numa imensidão de restaurantes e velhas “tascas”, onde a cozinha tradicional é trabalhada com maestria e com cada vez mais qualidade – embora com o inevitável reflexo nos preços que a bolsa tem de suportar.
Para um cidadão brasileiro, ou para um português que viva no Brasil e que há muito não se tenha deslocado à sua terra, o Portugal dos nossos dias é uma imensa surpresa que só o confronto com a realidade pode explicar. Este livro apresenta-se como uma contribuição para melhor se percebermuito do que o país tem para oferecer, constituindo simultaneamente um útil guia para essa viagem afectiva às nossas origens.