21 de junho de 2017

Peregrino de primeira classe

A peregrinação de que lhe vou falar, querida Leonor, não é “interior”, como a do Alçada, nem “ad loca infecta”, como a do Sena. É apenas um roteiro pessoal, sereno e nada melancólico, de minha vida.

Um dia, por um acaso daqueles que a sorte nos dá, tornei-me peregrino “de primeira classe”. Descia uma rua de Lisboa, dei de caras com um amigo bem engravatado, disse-me que era diplomata e que ia haver um concurso próximo para essa carreira. Curioso, fiz o exame e fui aceite. E, num belo dia, comecei a andarilhar pelo mundo. Não fui à aventura, fui com segurança, como “peregrino público”, pago pelos nossos impostos, nessa existência que alguns patetas acham “do croquete” — -até se verem numa alhada em terra alheia ou em busca de ajuda para um negócio encravado.

A minha peregrinação começou na Noruega, com frio, bacalhau e novos amigos, onde fiz o tirocínio para viver no estrangeiro — eu que sempre tinha achado que o estrangeiro era apenas o lugar das férias, eu que cruzara muita da Europa à boleia e mergulhara já nalguma América. Na Noruega, aprendi o bê-a-bá da diplomacia, porque só se aprende a nadar na água. O peregrino começava ali a sua jornada.

Anos depois, na sua infinita sabedoria, as Necessidades entenderam dever dar-me uma experiência radical. E daquela “righteousness” nórdica, sem um papel pelo chão e a travar de tédio nas autoestradas, fui aterrar numa Angola caótica, em guerra civil, quase sem uma loja aberta, com recolher obrigatório, tiros todas as noites, por meses alojado num hotel sofrível em que havia arroz com peixe frito ao almoço e peixe frito com arroz ao jantar. E não é que me diverti imenso! Pudera, com o António Pinto da França como chefe e o Zé Stichini Vilela como colega, os meses passavam depressa, com o Mussulo e a Barra do Kuanza para atenuar as neuras, que nunca foram muitas. 

Regressei um dia a Lisboa. Portugal iniciava a sua aventura europeia e eu entrei nela desde o primeiro dia. Era um mundo completamente novo. Íamos a Bruxelas como quem ia a Meca. Sabíamos que parte do nosso futuro andava já por ali, embora, à época, não sonhássemos quanto a nossa vida coletiva ia depender dessa Europa. Viajei muito pelo mundo, por esses tempos: por todos os continentes (mesmo todos!). Peregrinava em representação do país, trabalhando bastante (é das poucas coisas que sei fazer bem), mas estudando, pelo caminho, o modo como nos viam lá porfora.

Um dia, porque as peregrinações diplomáticas devem assentar, mandaram-me para a Corte de St. James. Foi um privilégio poder viver no país que tem de si mesmo uma ideia tão bizarra que, às vezes, roça o caricato — e eles sabem! Londres era, foi, uma das mais belas cidades do mundo para viver. 

Até que Lisboa me surgiu de novo na rota. Fui para o governo, mais de um quinquénio. Outra vez as coisas da Europa como destino. E o peregrino, agora tomado de empréstimo pela política, continuou a andar. Muito, talvez demasiado, até cansar. Aeroportos sobre aeroportos, quartos de hotel como residência precária, um turismo residual e sempre “à vol d’oiseau”. Fiquei vacinado. Uhf!

Depois, a peregrinação fez-me parar outra vez, levou-me para Nova Iorque. Trabalho, sempre muito trabalho, vida muito diferente, exigente, tensa. Mas com imensa graça, desafiante, naquela cidade que, para nós, é a porta da América e, para os americanos, já “cheira” a Europa. Por lá, nesse tempo, caíram as Twin Towers. Vi mudar a América, pressenti claramente que qualquer coisa de essencial ia acontecer pelo mundo. E assim seria.

Viena foi o destino seguinte da minha peregrinação. Mas a “música” que por lá havia era outra, era a gestão dos despojos politicos da Guerra Fria. De lá fiz base para muitas peregrinações profissionais pelas terras fascinantes do Cáucaso, da Ásia Central e da outra, do Médio Oriente, de alguma África, dos Balcãs. Mais uma vez, viajei muito, aprendendo bastante — e aprender, aprendi eu, é o melhor da vida.

Depois, Leonor, você sabe: foi o Brasil, essa espécie de descoberta de nós mesmos noutros tempos, numa peregrinação feita através das viagens que outros, antes, já haviam feito por nós. No Brasil, aprendi que não há nada de mais distante e distinto do que aquilo que temos a tentação de ver como muito próximo. O Brasil foi o deslumbre, a graça de uma vida sorridente, alegre, uma ilusão consentida.

E, finalmente, o meu sonho geracional fez-se. A peregrinação teve Paris como penúltimo porto. O Paris que eu sonhara na juventude, com um pai francófilo e francófono, ali estava, com uma comunidade portuguesa que também peregrinara pela corda da vida, de Champigny à atualidade próspera de muitos. Eram as livrarias, as brasseries, os passeios a beira-Sena ou pela França profunda. Belos tempos!

Um dia, com toda a naturalidade, chega-se ao fim dessa peregrinação privilegiada, de “primeira classe”. Lisboa, o país, onde tudo começou, é onde tudo vai desembocar um dia, serenamente, agora com a família, os amigos, as tertúlias, a boa mesa, as leituras e as escritas. É o olhar para trás que verdadeiramente nos faz ter consciência de toda a peregrinação feita, onde se recorta uma vida onde a sorte, que deu trabalho, nos oferece a felicidade possível. Nem mais, nem menos. Apenas como deve ser.

(Testemunho no livro de Leonor Xavier "Peregrinações", 2017)

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