Quando, há tempos, me chegou a notícia da morte de José Junqueiro, fiz naturalmente uma retrospetiva íntima do relacionamento que com ele tive,ao longo dos anos. Lembrei-me dos meus primeiros tempos no Governo e de que foi por essa altura que o conheci, nas minhas idas regulares à Assembleia da República, para onde ele havia entrado sensivelmente na mesma época.
Em perspetiva, recordo ter registado a sua figura algo reservada, mas portadora constante de um sorriso atrás do qual eu julgava poder ler alguma saudável ironia, numa maneira própria de estar de bem com a vida. Naquele grande grupo parlamentar, ele era uma personalidade que afirmavauma elegância discreta, um discurso político nada gongórico, bem articulado, uma expressividade natural, de onde transparecia sempre um humor fino, mas contido. Era, recordo, uma figura popular entre os colegas — creio que atraídos pelo trato fácil e genuinamente agradável.
Tempos mais tarde, António Guterres veio a chamar José Junqueiro para o Governo. Juntos integrámos o seu segundo executivo — no meu caso por um período mais curto, por ter, entretanto, optado por regressar à vida profissional. Passámos então a encontrar-nos com alguma regularidade, quase sempre à margem das reuniões de secretários de Estado. Não diria que éramos íntimos, longe disso, mas construímos uma relação de forte cordialidade e simpatia. Ambos éramos oriundos de cidades de província— e isso desenhava uma natural cumplicidade. O facto de também sermos sportinguistas, e de eu ser um frequentador regular da cozinha viseense, ter-nos-á dado um outro terreno comum para a conversa, para além da política — o que, nesses contextos, não é de somenos para descrispar o quotidiano de trabalho.
Passei depois mais de uma década no estrangeiro e perdemo-nos de vista. Contactei-o, solidário com o seu pesar, aquando da morte prematura do seu irmão Raul — gesto que me disse ter apreciado. Só voltei a encontrá-lo já depois do meu regresso a Portugal, quando esteve no centro de uma iniciativa em Viseu organizada pela Liga dos Combatentes sobre o centenário da Grande Guerra, na qual teve a amabilidade de me envolver. Aproveitámos então para ter uma boa conversa durante um almoço, em que me foi confidenciando as suas leituras sobre a política autárquica local — terreno onde sempre se empenhou em tentar mudar o rumo das coisas. Creio que não nos voltámos a ver desde esse evento.
Com uma carreira académica de mérito reconhecido, José Junqueiro mostrou também que havia, no seu caso, muito mais vida para além da política. Essa capacidade de não se reduzir a um único papel diz muito sobre a dimensão de alguém.
José Junqueiro deixou no país uma imagem de empenhamento e de seriedade, unanimemente reconhecida — uma marca de rigor, de competência e de respeito pelas instituições. A sua determinação política nunca deixou de ser compatível com uma consideração genuína pelos adversários, que aliás não hesitaram em testemunhá-lo na hora do seu desaparecimento.
Deixar aqui o meu modesto testemunho é um preito de respeito e de admiração por quem soube estar na vida ao serviço dos outros e de uma causa política que muito ajudou a prestigiar.
(Testemunho para o livro "Por um Portugal inteiro - Tributo a José Junqueiro", Viseu, 2026)
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