
Só ao fim do dia 11 de setembro de 2001, com as Torres Gémeas já reduzidas a escombros e o céu carregado de pó, consegui regressar a casa, em Nova Iorque, onde então servia como embaixador de Portugal junto das Nações Unidas.
Nas ruas, o coro de sirenes que marcara a cidade desde as primeiras horas começava, enfim, a esmorecer. Foi um dia longo, pesado, de aturdimento coletivo. E, naquela noite, só me ocorriam perguntas sem resposta possível. Uma era imediatamente angustiante: seguir-se-iam novos atentados? Nada parecia seguro, porque tudo parecia possível.
Recordei então uma frase que Mário Soares me dissera em Gaza, na noite trágica em que Ytzhak Rabin foi assassinado ali ao lado: “Este é o lugar mais inseguro do mundo”. Depois do que ocorrera de manhã, o lugar mais inseguro do mundo passara a ser, subitamente, qualquer lugar.
O que então não podíamos imaginar era que o mundo se tornaria mais inseguro também por causa da resposta que os Estados Unidos dariam àquela violência. Os atentados não foram apenas um choque moral e humano. Foram o pretexto perfeito para uma reconfiguração profunda da arquitetura de poder global, com consequências que hoje condicionam o nosso presente.
Olhares diferentes
Tinha chegado à ONU poucos meses antes, trazendo comigo a experiência de mais de cinco anos nos corredores de Bruxelas, onde aprendera que a diplomacia é, em grande medida, a arte de gerir contradições. Uma das minhas preocupações era trabalhar a imagem de Portugal junto de diferentes constituencies. O mundo islâmico, com quem mantínhamos uma relação privilegiada, era então uma prioridade.
Por ironia do calendário, discutia-se precisamente nas Nações Unidas, por esses dias, o texto de uma convenção internacional sobre terrorismo. As divisões eram profundas: para muitos países ditos do Sul, onde estavam árabes e muçulmanos, o Norte recusava-se a distinguir entre ações de libertação nacional e terrorismo clássico. Não faltavam exemplos de incoerência ocidental — grupos diabolizados como terroristas que, quando convinha, se tornavam simpáticos “freedom fighters”. Eu próprio não esquecia os “turras” que a ditadura portuguesa estigmatizara nas colónias, hoje parceiros respeitáveis na CPLP.
Os atentados de 11 de setembro vieram, no entanto, confirmar uma verdade prática que nenhuma convenção conseguia formular em teoria: pode ser difícil chegar a uma definição jurídica de terrorismo, mas ninguém hesita em reconhecê-lo quando ele acontece à nossa frente. A operação da Al-Qaeda — cuja autoria tardou a ser confirmada oficialmente — representou uma subida de patamar brutal na guerra de ódio contra a América, cruzando a questão palestina, a ressaca da primeira Guerra do Golfo e uma narrativa mais ampla de revolta anti-imperialista.
Uma outra América
O 11 de setembro mudou o mundo? Mudou, desde logo, a hierarquia das prioridades estratégicas americanas, que partiram em vingança para o Afeganistão, com a legitimidade e o apoio quase unânime dos aliados — e, sintomaticamente, também com a colaboração da Rússia, que naquele momento se mostrou solícita na luta contra o terrorismo, ganhando de caminho uma espécie de alforria moral para as suas próprias barbáries na Chechénia. Na ONU, os russos sorriam largamente à América ferida. O meu colega russo, nessa altura, chamava-se Sergei Lavrov.
Mas foi depois, com a deriva que começa quando um poder se convence de que a sua excecionalidade o dispensa dos limites que impõe aos outros, que o 11 de Setembro começou a mostrar a sua verdadeira face histórica. Bush filho decidiu terminar no Iraque a tarefa que o pai deixara por concluir, cedendo à visão dos estrategas mais extremistas do Pentágono, para quem a unipolaridade americana era um cheque em branco para reescrever as regras do jogo. Foi uma aventura feita com desprezo pela ONU e pela opinião de grande parte da Europa, e o resultado está à vista: o Estado Islâmico e a onda de metástases jihadistas que se espalhou por África.
Seguiu-se Obama, que prometeu fechar Guantánamo e nunca o fez — onde continuam, sem julgamento, meros suspeitos, sem que isso pareça escandalizar particularmente ninguém. A “exceção” tornara-se norma. Depois Trump I, que já anunciava o que hoje vemos com maior nitidez: uma América que já não se contenta em ser a potência dominante, mas que quer ser a potência dispensada de regras. Biden foi um interregno, com a Ucrânia pelo meio — uma tentativa, aliás, de regresso a uma linguagem de alianças e de direito internacional, mas truncada pela polarização interna e pela perceção de que o “mundo seguro” que os EUA prometeram após 2001 já não existe, nem para eles próprios.
Fica, por isso, uma pergunta mais incómoda do que confortável: o que mudou mais profundamente o mundo — o 11 de setembro ou o abalo sísmico representado pela emergência de uma América que despreza fronteiras e soberanias alheias, que se considera dispensada das regras mínimas de convivência entre Estados? Os atentados foram o choque inicial, mas a resposta americana foi o terramoto que rachou as fundações da ordem internacional construída após 1945.
A nova desordem
Vinte e cinco anos depois, talvez o 11 de Setembro não seja apenas a data dos atentados. Talvez seja também a data em que começou a desfazer-se uma certa ideia de ordem internacional — e em que a América começou a afastar-se dela. A “guerra ao terror” não foi só uma campanha militar, foi um laboratório de exceção, onde se testaram drones, detenções indefinidas, tortura “light”, vigilância em massa e sanções unilaterais que atingem empresas e cidadãos de terceiros países. E, mais importante, foi um laboratório que funcionou: o que começou como “medida temporária” tornou-se infraestrutura permanente do poder americano.
Hoje, essa lógica de exceção já não precisa de torres a arder para se justificar. Migrar, para muitos governos, é uma “ameaça híbrida”. A cibersegurança é um estado de sítio permanente. A pandemia foi gerida, em muitos casos, como emergência securitária. E a retórica eleitoral, em Washington e noutras capitais, normalizou a ideia de que há inimigos existenciais que justificam tudo — desde muros a sanções, desde expulsões coletivas a intervenções preventivas. O efeito do 11 de Setembro não acabou porque se normalizou.
Há ainda uma dimensão económica e empresarial que os leitores do Jornal de Negócios conhecem bem: a segurança tornou-se indústria. Aeroportos, fronteiras, dados, cadeias de abastecimento — tudo foi reconfigurado em função do risco. O custo da “exceção” passou a ser internalizado nos bilhetes de avião, nos seguros, nos contratos, nos compliance officers que verificam se uma transação não viola uma sanção unilateral americana. A geopolítica do medo tornou-se, também, um modelo de negócio.
É esta a questão que devíamos estar a discutir. E é, talvez por isso mesmo, a que quase ninguém discute. Porque admitir que o 11 de Setembro foi também o início da erosão da ordem liberal significa admitir que as democracias ocidentais, lideradas pelos EUA, aceitaram viver com exceções permanentes em nome da segurança. E isso obriga a perguntas incómodas sobre até que ponto estamos dispostos a sacrificar direitos, soberanias e coerência moral em nome de uma estabilidade que, afinal, nunca chegou.
Talvez valha a pena, 25 anos depois, fazer o exercício de imaginar um contrafactual: e se, após os atentados, os Estados Unidos tivessem apostado numa resposta multilateral, centrada na ONU, no direito internacional e numa definição consensual de terrorismo? Teríamos evitado o Iraque? Teria o Estado Islâmico emergido da mesma forma? Seria a Rússia hoje um parceiro ou um revisionista armado? Não há respostas certeiras, mas a pergunta serve para lembrar que o 11 de Setembro não foi apenas um destino. Foi também uma escolha.
E é essa escolha — a de privilegiar a exceção em vez da regra, a força em vez do direito, a unilateralidade em vez da concertação — que ainda hoje nos assombra. O 11 de Setembro que não acabou é, no fundo, o 11 de Setembro que se tornou rotina. E enquanto não formos capazes de discutir isso com frontalidade, continuaremos a viver num mundo mais inseguro já não por causa do terrorismo, mas por causa da resposta que lhe demos.
(Artigo publicado no "Jornal de Negócios" em 11 de setembro de 2026)
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