24 de julho de 1997

Pela mão de Boaventura


Através do sugestivo título “Diplomortos e etnocêntricos”, o prof. Boaventura de Sousa Santos simplificou num texto a sua visão sobre os diplomatas portugueses, corpo profissional de cujos deméritos fez uma leitura impressionista, reflexo assumido de alguns contactos pessoais e, em especial, da ressaca de dois incidentes recentes que o tocaram. Para quem nos habituou ao rigor da análise e à objectividade da intervenção, convenhamos que terá havido alguma ligeireza metodológica e o recurso a uma generalização um tanto grosseira.

É difícil operar aqui, em escassas linhas, a desmontagem de um processo de denegrimento que se apoiou num inventário de acusações avulsas mas cumulativas: uma diplomacia “parada no tempo”, atrasada face “às exigências da globalização”, desatenta às correntes que combatem o eurocentrismo e abraçam o multiculturalismo, constituída por “pessoas muito conservadoras, etnocêntricas, pedantemente elitistas”, desinteressadas pelas Comunidades portuguesas, etc. Tudo isto para concluir “que o 25 de Abril ainda não chegou à diplomacia portuguesa”.

A acreditar no prof. Sousa Santos, a cultura de Steinbroken será ainda hoje a matriz referencial dos profissionais que as Necessidades enviam pelo mundo, dedicados à promoção de cocktails, ao cultivo da snobeira diletante, à produção de um discurso analítico perdido no tempo real, à marcação de uma confortável distância face aos problemas dos seus concidadãos expatriados. Enfim, uma profissão por onde se esvaem os bens do erário, sem glória nem préstimo.

Interessante será, todavia, constatar que esse mundo da diplomacia que o prof. Sousa Santos persistentemente frequenta, parece coexistir com o dos profissionais competentes que têm posto Portugal no mapa da promoção internacional dos Direitos Humanos, dos que esforçadamente conseguem conferir visibilidade e dinâmica diplomática à luta do povo timorense, dos que, em Kinshasa ou Bagdad, colocaram o serviço aos portugueses à frente da sua segurança pessoal.

Por esse azar que manifestamente o persegue, o prof. Sousa Santos não se terá também cruzado com quantos contribuíram para uma segura presidência portuguesa na Europa comunitária ou dos que souberam mobilizar uma campanha eficaz para colocar Portugal no Conselho de segurança da ONU.

Pena foi, também, que o prof. Sousa Santos não abandonasse por algum tempo o conforto dos Gerais e passasse uns dias, rodeado de metralhadoras e sons de bombas, no bunker que foi a nossa embaixada em Argel ou em que se converteu a missão portuguesa em Luanda após Bicesse, que desfrutasse por alguns meses do isolamento de um consulado em Benguela ou na Beira, que experimentasse os riscos da malária cerebral em S. Tomé ou a insegurança quotidiana de algumas capitais de cujo nome, como Cervantes fazia para certo lugar da Mancha, me não quero nem lembrar.

Se acaso tivesse ido um pouco mais longe nos contactos fortuitos que teve, talvez a formalidade se tivesse desvanecido e os diplomatas falassem ao prof. Sousa Santos das profissões que os cônjuges perderam ou atrasaram irremediavelmente para os acompanhar, do saltitar regular de escolas e de amigos que os seus filhos tiveram de enfrentar, das doenças e dos climas estranhos que são obrigados a suportar. E, quem sabe, talvez mesmo algum deixasse cair, na conversa com o autor de “Pela mão de Alice”, com a ironia pontuada de prudência que a profissão ensina, uma fugaz referência à degradação relativa da sua carreira face a outros corpos especiais do Estado, como o professorado universitário. É que nem tudo são ainda rosas, no Portugal de Abril que eu e o prof. Sousa Santos coincidimos em apreciar.


(Publicado na revista "Visão", 24.7.97)

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