9 de novembro de 2018

“Autobiografia”


Se a vida são dois dias, aproveitemos as noites

Nasci, ao que me disseram, já o dia tinha entrado há muito pela noite. Sempre me perguntei se isso não terá marcado o meu destino. Sou um assumido militante da noite, embora só raramente tenha sido um notívago. Ou melhor, fui sempre um notívago sereno.

O imperativo “apaga a luz!” persegue-me desde a infância. Dou por mim, lá por Vila Real, a tentar ler Júlio Verne e coboiadas importadas do Brasil, graças a um candeeiro escondido sob os lençóis. Em férias, em Viana do Castelo, com a luz já apagada por imposição paterna, recorria à luminosidade declinante de uma Nossa Senhora fosforescente para observar, sob os lençóis, páginas inacabadas dos Tintin. Foi também pelas noites que, no final da adolescência, ouvia a Radio London e a Radio Caroline, as rádios-pirata que me traziam a música anglo-saxónica e, mais tarde, também as rádios épicas da liberdade que, para os “amigos, companheiros e camaradas” de quem me ia sentindo próximo, por cá tardava em chegar.

Quando, em meados dos anos 60, fui estudar para o Porto, foram as noites, da Candeia à Japonesinha, das conversas no lar da Torrinha ou no quarto a meias na Miguel Bombarda, além de um mundo de aventuras sem fim, e que afinal apenas vingavam o meu jejum adolescente vilarrealense, que viriam a arruinar, de vez, o percurso académico do engenheiro que então julgava poder vir a ser. O teatro, o atletismo, até o incipiente jornalismo, compunham a sofreguidão do usufruto de um quotidiano que me desviava daquilo que me estava destinado. As noites no Rádio Clube, com o Alfredo Alvela, que acabavam em madrugadas no Ginjal ou no Transmontano, fizeram o resto. Vistas as coisas em perspetiva, ainda bem!

Lisboa, para onde depois me mudei, mudou-me um pouco, mas não no essencial. Na escola onde Adriano Moreira preponderava, descobri um percurso académico que me agradava. Afinal, “tirar o curso”, desiderato à época essencial, talvez fosse possível. A vida, porém, levou-me por muitos e inesperados caminhos de interesses. Passei a encontrar-me com outras noites, da Granfina ao Montecarlo e ao Bolero. As olheiras com que entrava nas aulas, bem como, mais tarde, na Caixa Geral de Depósitos, onde entretanto me empregara porque sobressaltos académicos a isso haviam obrigado, eram produto do contraste dos horários, agora imperativos, com esse tempo lúdico que eu teimava em não deixar escapar. Havia já então por ali bastantes livros, muitos em francês, lidos avidamente por madrugadas, no meu quarto nos Olivais, com a chama vermelha de Cabo Ruivo a ver-se ao longe. Chama vermelha essa que, noutro registo, adubado por lutas académicas e aventuras cívicas mais ou menos óbvias para a minha geração, me pôs na pista de amanhãs que acabaram finalmente por cantar, também numa noite, claro, de um certo dia 25. E aí, sim! Fardado de abril, com farto bigode e cabelo a desafiar as NEP’s, foram então muitas mais as noites de sonhos acordados, tentando apressar o futuro, já com família, num tempo excitante e, esse sim!, bem novo.

Um dia, por um acaso da vida, as minhas noites (e, vá lá!, também os dias), mudaram de latitude. Recordo, da janela da minha casa, em Oslo, rodeado de livros, com uma Aquavit a aquecer-me as leituras, com música em fundo, ver a neve cair no escuro, com Holmenkollen no horizonte. Vivi muito bem as famosas longas noites nórdicas e, dentro delas, tive conversas com amigos que me ficaram para a vida. A diplomacia, nesse entretanto, acabaria por ser a minha via profissional definitiva, que aliás nunca me passara pela cabeça seguir, à qual me habituei com forte dificuldade interior (confesso agora), mas que, com o tempo, passou a fazer parte de mim. Olhando para trás, não trocaria essa “estranha forma de (boa) vida” por nada! 

Outros dias, e outras grandes noites, surgiriam, logo depois, na Luanda que o futuro me destinou. O “recolher obrigatório” criava por ali uma espécie de noites compulsivas, que vingávamos com muita festa, muitos copos, muita risada, como que a compensar a nervoseira de um quotidiano da guerra que se vivia no país, de insegurança nas ruas, de um sabe-se lá o que será o amanhã. Tínhamos a idade para isso, os amigos à mão, a genica para as noitadas imensas. Esses anos, que poderiam ter sido chatíssimos, acabaram por ser dos melhores das nossas vidas. Até no trabalho, muito interessante e intenso.

Regressado a Lisboa, surgiu-me pela frente a grande aventura europeia do país. Eu era então um “soberanista” ferrenho, desconfiado da bondade do projeto bruxelense, como impenitente esquerdista que então me orgulhava de ser. Nos anos que se seguiram, a profissão levou-me bastante pelo mundo, da África à Ásia, do Pacífico à América. Grandes noites de conversa, de viagens transatlânticas, de jet-lag sucessivos! Talvez tenha sido, em parte, esse contraste com gentes muito diversas que tenha ajudado a convencer-me da “bondade” do projeto europeu de integração. E a amortecer, de caminho, algum radicalismo do passado. Nunca o saberei! 

Quando, em 1990, na rotação a que a profissão obriga, aterrei na nossa embaixada em Londres, no tempo do estertor de Thatcher, alguma coisa mudara já dentro de mim. Mergulhei noites inteiras na leitura, na conversa, nos teatros e na música da mais viva capital europeia. Foi um dos postos mais trabalhosos da minha vida, mas um dos mais interessantes.

Por um inesperado acaso, Lisboa voltaria a surgir-me no destino, quatro anos mais tarde. E por ali mergulhei, de novo, nas coisas europeias, que estavam então “na berra” da nossa política externa. Foi esse também o tempo áureo das noitadas na tertúlia do Procópio, tutelada pelo Nuno Brederode, das jantaradas num Bairro Alto que andava na moda mas que já começava a não caber nessas costuras - ah! e para que não restem dúvidas, nunca fiz parte das “tropas” do Frágil e da movida que chegou ao Lux! Sempre fui de outra Lisboa, de outras “equipas”, sem veleidades de modernidade vanguardista. E sempre me dei bem assim!

Um dia, quase de surpresa, mas com alguma lógica de percurso, acabei por tomar posse de um lugar governativo onde, ironicamente, iria, por mais de meia década, tutelar - ele há cada uma! - a integração europeia do país. A vingança, diplomática, afinal serve-se fria. Pertencer a um governo tem graça, desde que a ele nos não habituemos. Nunca me arrependi da opção que fiz. As mordomias, os carros, os jantares, as vénias de alguns - tudo isso passou por mim sem (julgo eu!) me afetar excessivamente. Trabalhei então imenso, cansei-me muito, dormi muito pouco (lá estão as noites!), viajei talvez demasiado, mas, caramba!, também me diverti à brava! Olhar o mundo desse lado não nos deixa iguais embora, no meu caso, me tenha deixado (sei que muitos não acreditam, mas que se há-de fazer?) sem a menor vontade de praticar um “remake”. 

Com o cabelo muito mais branco, regressei um dia, de forma planeada e sem o menor “stress”, à profissão que já tinha por minha e por destino. Na vida que aí vinha, estava Nova Iorque, a fantástica cidade que, trinta anos antes, eu visitara nas minhas primeiras férias como funcionário bancário. Quase ainda a desempacotar as minhas coisas, vi as Torres Gémeas caírem ali ao lado, mudando muito mais do que uma cidade. Foi um tempo intenso, interessante, de imensa aprendizagem, com dias cheios e, infelizmente, escasso usufruto das noites.

Tempos depois, novo rumo de vida: Viena. Não sou muito dado a dourados palacianos, prefiro o jazz à valsa, gosto mais da Broadway do que do Musikverein. Mas o que tem de ser tem muita força e lá tive eu de encher-me de noitadas no meu terraço sobre o Graben. Muitas jantaradas de Wienerschnitzel e Sachertorte, regadas a Riesling. Viena, por esse tempo, acabaria por se transformar numa espécie de placa giratória: dali descolei, incessantemente, para as misteriosas fronteiras da nova Rússia, para os Balcãs e vários outros destinos, para “fact-finding missions” ou para palestrar sobre temas etéreos, quase sempre em áreas instáveis e turbulentas. Foram, contudo, tarefas muito interessantes. E as noites, nesses mundos muito eslavos, foram muitas e longas, com gente muito diversa, fora do paradigma tradicional ocidental. Aprendi imenso! E diverti-me, claro! Foi um tempo de muitas libações, ilustradas por alguns belos vodkas, conversas pouco óbvias num tempo polémico em que o fim da “détente” já se prenunciava.

A graça da vida diplomática é a sua incerteza. Para quem, como eu, acabou por ter 21 ministros dos Negócios Estrangeiros na sua carreira, viver em sete cidades estrangeiras, em diversos continentes, não pode assustar. O Brasil, uma das mais complexas - se bem que, aparentemente, simples - relações bilaterais de Portugal, saiu-me depois em rifa. Em boa hora! Aprendi, desde logo, que devia ser “obrigatório” para qualquer diplomata português ter um contacto com a realidade brasileira, para pôr fim a alguns mitos, diluir preconceitos e ajudar-nos a situar melhor no mundo. Quatro anos de Brasil, visitando 23 dos seus 27 Estados, fez-me perceber muitas coisas. A vida correu-me bem por lá, mas eu fiz bastante por isso. 

Quando, quatro anos depois, aterrei em Paris, senti-me quase em casa. No final dos anos 60, eu chegara àquela cidade, saído à boleia de Lisboa, como um peregrino que chega a Meca. Depois, viciei-me e passei muitas mais vezes por lá. Regressar como embaixador seria, contudo, muito diferente, muito mais do que eu pensava. Claro que havia os restaurantes e as livrarias, mas as horas foram sempre muito contadas, nos anos em que, até à minha reforma, por ali fiquei. Trabalhei muito, assisti a tempos muito diversos, nem sempre bons, em especial para a imagem de Portugal no mundo. E, como em todo o lado, alimentei-me por ali da serenidades das noites, onde conversei imenso, li muito e, em especial, pensei. 

Em 2013, tal como estava planeado desde há muito, regressei, definitivamente, a Portugal. Era a reforma? “Sort of”, como dizem os anglo-saxónicos. Não parei, desde então, um segundo. Houve empresas que quiseram passar a ouvir a minha opinião sobre as áreas internacionais dos seus negócios, universidades que me contrataram para dar aulas ou me convidaram para as aconselhar, jornais que me ofereceram colunas para eu escrever o que pensava. Fora dessa dimensão mais “séria”, que muito me agrada, divirto-me com o usufruto outros prazeres, como os livros, a escrita, a gastronomia e as viagens. Leio, leio muito, escrevo um blogue pela noite dentro, frequento tertúlias muito diversas. E, pelos dias, mas essencialmente pelas noites, estou com os amigos, com a família. Às vezes, perco alguns deles, dos bons, o que me deixa nostálgico, confesso. Mas tento olhar em frente, aproveitar, ao máximo, este país renovado, magnífico, sereno, que gargalha para as aves agoirentas, para os profissionais da inveja e do mal-dizer, figuras que apetece irritar - e eu faço-o, com algum gosto. Uma terra que agora anda bastante mais feliz do que, ainda há pouco, parecia condenada a ser. Carpe diem! 

(Publicado no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, em 7 de novembro de 2018)

3 de maio de 2018

3ª Conferência de Lisboa

Intervenção na abertura da 3ª Conferência de Lisboa


Senhor Presidente da República
Senhor Doutor Guilherme de Oliveira Martins, em representação da Senhora Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian
Senhores embaixadores
Caros oradores e convidados para esta Conferência,
Caros amigos

Começo, naturalmente, por agradecer, em nome do Clube de Lisboa, que organiza este encontro que tenho o gosto de dirigir, a amabilidade que o Senhor Presidente teve ao conseguir encontrar tempo, na sua carregada agenda, para nos honrar com a sua presença, nesta sessão inaugural da 3ª Conferência de Lisboa.

Conhecendo-o, Senhor Presidente, sei que a sua adesão a um evento desta natureza, em cuja substância se situam temáticas que lhe não são indiferentes, é sincera e empenhada. Mas, nem por isso, deixo de reiterar o meu profundo agradecimento pelo prestígio que a sua presença hoje nos traz.

Uma vez mais, queremos agradecer à Fundação Calouste Gulbenkian, na pessoa do meu querido amigo Guilherme de Oliveira Martins, a generosidade do seu acolhimento. A Gulbenkian nunca nos falha, aliás, a Gulbenkian nunca falhou a este país.

Uma palavra de reconhecimento é devida às diversas instituições que se prontificaram a ajudar à organização deste encontro, contribundo da mais variada forma. O seu nome está assinalado nos documentos que hoje distribuímos.

Mas não posso deixar de destacar, dentre essas mesmas entidades, duas que, de um modo muito particular, sempre deram um contributo decisivo para que estas Conferências fossem possíveis: o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Câmara Municipal de Lisboa, cujos titulares estarão presentes amanhã no encerramento dos nossos trabalhos.

Finalmente, “last but not least”, quero deixar uma palavra de grande apreço pelo esforço de todos os oradores, alguns vindos de bem longe, e que, sem a menor retribuição financeira, e apenas pelo gosto de participarem neste exercício, aqui estarão a partilhar o seu saber connosco. A eles, muito em especial, muito obrigado.

Não sei como os intérpretes vão conseguir traduzir isto, mas eu gostava de dizer que as Conferências de Lisboa são uma espécie de “sopa da pedra”, feita de generosidades, de boas vontades e, quero também crer, do interesse genuíno em ir mais longe no debate de ideias sobre as grandes questões globais, em que todos estamos empenhados. Fazemos estas reuniões a cada dois anos, variamos a temática central, mas não temos alterado um conceito de fundo que aqui nos motiva: o desenvolvimento.

Porquê o desenvolvimento?, num tempo em que, por vezes, deixamos de ouvir a palavra com a intensidade que ela teve em períodos não muito distantes, durante os quais motivou iniciativas de grande vulto, à escala mundial, encheu bibliografias e alimentou doutrinas. Precisamente por isso. Precisamente porque continuar a lutar pelo desenvolvimento daqueles que, à escala global, não o partilham com os mais afortunados, tentar manter o conceito bem alto na agenda internacional de prioridades, é talvez o melhor testemunho de um espírito de solidariedade que desejamos que Portugal, e esta cidade saudavelmente aberta que é Lisboa, devem saber alimentar e aprofundar.

O Clube de Lisboa, que, de forma totalmente benévola, promove estas Conferências, tem precisamente como objetivo contribuir para ajudar a transformar a capital portuguesa numa nova centralidade de reflexão sobre os grandes temas que atravessam a sociedade global.

Chamámos a esta 3ª Conferência, “Desenvolvimento em tempos de incerteza”. Por definição, os tempos são sempre incertos, mas já houve tempos em que a incerteza era menor. Hoje vivemos dias em que as interrogações sobre o futuro, mesmo o futuro próximo, se acumulam.

Desde logo, em termos do poder mundial, tema que vai ocupar o nosso primeiro painel. A atitude dos principais atores globais tem hoje “nuances” que induzem fortes tensões no cenário internacional, pondo em causa equilíbrios que tínhamos por adquiridos e, muito em particular, colocando em risco os mecanismos multilaterais, corpo institucional que regulava o que pensávamos serem os caminhos irreversíveis do futuro.

Essa instabilidade nas relações de poder conduz ao surgimento de novas ameaças à segurança, assunto que o segundo painel do dia vai abordar.

A segurança, nas suas várias declinações, é uma questão essencial para a estabilidade psicológica das sociedades. É a falta de segurança, melhor dizendo, a perceção de insegurança que induz facilmente tropismos populistas e a captura das vontades para agendas radicais.

Uma dessas inseguranças, bastante visível nas suas consequências políticas na maior potência do ocidente, assenta nos “descontentes” da globalização, para utilizar a velha expressão que Stiglitz já usava em 2001. É precisamente uma reflexão sobre a globalização e sobre as dúvidas que alguns colocam sobre a sua irreversibilidade, que ocupará o nosso último painel no dia de hoje.

Amanhã começaremos o dia falando da nossa casa comum, do planeta, das lutas da sustentabilidade, do clima e das transições energéticas que aí estão.

E tentaremos, no saldo das incertezas que acumulámos, perceber como estão nas nossas sociedades, nestes tempos estouvados, para utilizar uma expressão que sei ser cara ao senhor presidente, as pessoas, nas suas angústias e temores, nas suas dúvidas e na sua crescente propensão para soluções limite, que põem em risco a democracia e os direitos. Nesse contexto, o destino das classes médias é uma pista para reflexão que está ficada no debate.

Terminaremos amanhã os nossos trabalhos falando da Europa, desse continente que, em termos de expressão organizada e eficaz de poder, recebe sistematicamente o Óscar para o melhor ator secundário. Onde estamos, na Europa?

Ainda navegamos no mesmo barco ou só fingimos que pertencemos ao mesmo clube? O que é feito dessa Europa ética que pretendia ser um “benchmark” para o mundo? Que é feito, por exemplo, da Europa farol das políticas de desenvolvimento?

E aqui regresso onde comecei. “Desenvolvimento em tempos de incerteza” é, hoje e amanhã, o desafio que o Clube de Lisboa aqui vos lança. Espero que aproveitem o debate e que estejam atentos, no futuro, às diversas atividades que vamos promover. Teremos o maior gosto em vê-los por lá.

Muito obrigado pela vossa presença. Tenham uma boa Conferência.


6 de junho de 2017

Diplomacia - os próximos 100 anos


Como Twain disse um dia a propósito de um anúncio prematuro sobre a sua morte, parecem muito exageradas as notícias sobre a iminente desaparição da diplomacia.

Deixando embora os créditos da mais velha profissão do mundo para outras artes, essa vetusta gestão dos “rituais de entendimento” à escala internacional, como lhe chamou Paulouro das Neves, tem-se constituído, ao longo dos séculos, como um eficaz instrumento na prevenção e resolução de conflitos, sendo que, quando em absoluto os não consegue evitar, é da sua natureza e missão conseguir manter abertos, por cima de todas as dificuldades, os canais possíveis de contacto e diálogo.

Nunca se saberá quantas guerras a diplomacia evitou, mas é uma evidência que ajudou a pôr termo a muitas e, de um modo ainda hoje bem visível, ajudou a que algumas fortes tensões internacionais se mantivessem a níveis de intensidade capazes de poupar muitas vidas.

O século XX testemunhou, não apenas a exponencial multiplicação da rede diplomática bilateral à escala global, pela quase dupla centena de países que, em especial, o processo descolonizador fez emergir, mas igualmente consagrou o surgimento de uma diplomacia multilateral permanente, terreno de afirmação e representação, política e negocial por excelência, onde os pequenos e médios Estados ganharam um estatuto de equidade relativa que não deixa de ter consequências no equilíbrio da ordem internacional.

Marcada por um “template” com clara origem europeia, a prática diplomática (e consular) internacional conseguiu aculturar, num modelo basicamente similar, todo o resto do mundo, graças, em especial, à adoção generalizada desse valioso referencial normativo que foram as Convenções de Viena – sobre relações diplomáticas e consulares.

Não vale a pena inventariar as mudanças cumulativas que a prática diplomática foi sofrendo ao longo dos tempos, a começar pela diluição da exclusividade de representação da vontade do “soberano”, que os agentes diplomáticos contemporâneos praticamente deixaram de ter. A crescente facilidade nas comunicações, das pessoas e das mensagens, o progressivo estabelecimento de uma “comunidade” mediática e de análise dos fenómenos políticos, com projeção quase instantânea à escala global, a prática generalizada das relações diretas entre os setores especializados, públicos ou privados, dos vários países, que muitas vezes deixaram de passar pela coordenação da rede diplomática, tudo isso, e muito mais, contribuiu para desenhar um novo perfil para a atividade diplomática contemporânea – e, por maioria de razão, para os tempos que aí virão.

O trabalho dos diplomatas profissionais é hoje escrutinado com muito maior rigor e exigência, porquanto estes estão, cada vez mais, sujeitos a modelos de “accountability”, na aplicação dos quais se joga a própria legitimidade da sua existência como classe professional autónoma. A diplomacia é hoje chamada a mostrar, de forma cada vez mais transparente, o valor acrescentado que a sua ação pode trazer à proteção dos interesses que lhe cabe proteger e promover.

Essa evolução da prática diplomática, como se tornou flagrante nas últimas décadas, acabou por simplificar muita da “coreografia” que, historicamente, envolvia a ação dos seus profissionais e marcava a imagem de “glamour” (mas também, por vezes, de alguma superficialidade generalista) que a diplomacia tinha aos olhos exteriores. Alguma dessa “liturgia” da profissão é ainda preservada, dado que isso constitui um relativo suporte para o mútuo respeito por procedimentos que, no fundo, padronizam e regulam o exercício da mesma atividade por cidadãos oriundos de culturas muito diversas. No entanto, a vida diplomática dos nossos dias tende a simplificar certos rituais protocolares, a dar mostras de alguma contenção na exibição dos faustos que fizeram a sua glória de outras eras, isto é, procura assumir-se, cada vez mais, como um terreno para a execução adequada e sóbria da dimensão externa das políticas públicas dos Estados.

É neste contexto que uma nova visibilidade da ação diplomática, através da chamada diplomacia pública, se procura hoje crescentemente estabelecer, através de uma utilização das novas tecnologias e ferramentas mediáticas (blogs, Twitter, Facebook, etc), procurando tornar mais eficaz a mensagem política que intervem nos vários segmentos (especializados, etários, esferas culturais, etc) do espaço público externo.

A nível pessoal, confrontado com uma observação mais atenta do seu trabalho e movimentação profissional, quer pela comunicação social quer pelos cidadãos e instituições, o diplomata contemporâneo tende, em especial nas sociedades com serviços públicos mais eficientes, a ser crescente avaliado em função de uma “performance” por objetivos, na sua tarefa de execução da política externa que lhe compete pôr em prática. Em particular, o seu papel de coadjuvação dos operadores económicos, bem como de um conjunto cada vez mais diversificado de interesses estatais e não-estatais com projeção na área externa (ONG, expressões diversas da sociedade civil, academia), obriga-o a uma constante atualização e a uma diversificada capacitação informativa que, muito frequentemente, parece poder conflituar com os ciclos da sua rotatividade entre postos e entre estes e a sua capital – modelo que a experiência consagrou até hoje como relevante, como forma de ser mantida a alguma “frescura” no olhar profissional sobre as realidades externas em que o diplomata opera.

O caso da integração continental, em que um país como o nosso está inserido, merece aqui uma palavra especial. O estabelecimento daquilo que é hoje a União Europeia veio criar uma realidade radicalmente nova, com que os seus Estados membros se vêm confrontados. Por um lado, as instituições comunitárias funcionam como uma estrutura multilateral de natureza regional, onde se processa a concertação de posições nacionais que define a linha coletiva, por consenso ou maioria. Porém, a própria União exerce hoje uma ação externa autónoma, em representação das suas instituições coletivas, em paralelo com as diplomacias nacionais dos Estados que a compõem, que naturalmente prosseguem os interesses próprios de cada um. A coerência entre todas estas dimensões é um desafio da maior importância.

O modelo funcional da União, por seu turno, acaba por ter efeitos na natureza do tecido das representações diplomáticas que esses Estados mantêm entre si, conduzindo a um crescente “downsizing” dessas estruturas. Isso é potenciado pela intensidade dos encontros e comunicações dos responsáveis políticos e técnicos de todos esses países, numa movimentação que passa frequentemente à margem das estruturas diplomáticas bilaterais, bem como pela circunstância do tecido legislativo e os procedimentos administrativos serem cada vez mais similares e transparentes em todos os Estados, dispensando a “leitura” especializada das embaixadas.

Duas outras dimensões da diplomacia tradicional podem ser referidas como afetadas pela existência da União Europeia. No plano da sua proteção, o facto de um cidadão da União poder hoje recorrer aos serviços consulares de outros Estados membros desestimula, de certo modo, a multiplicação das redes consulares nacionais (muitas vezes integradas nas unidades diplomáticas), em especial no caso de Estados de menor dimensão. Também a tendência para posições conjuntas dos Estados da União em algumas estruturas multilaterais, cuja adoção é decidida na coordenação comunitária em Bruxelas, tende a desvalorizar o trabalho das missões nacionais nessas instâncias, com eventuais impactos na sua densidade em matéria de pessoal e estruturas.

Em conclusão, a continuar a ser aprofundada, ou mesmo apenas que preservada no seu modelo atual, a União Europeia vai apresentar um desafio interessante à criatividade transformadora das máquinas diplomáticas dos seus Estados membros.

Se me é permitida uma reflexão prospetiva, diria que tudo parece indicar para que as representações externas bilaterais venham, em geral, a perder algum sentido naquilo que era parte da sua vocação tradicional.

Nas décadas passadas, já se tinha verificado a desaparição da sua função negociadora, avocado por missões ad hoc. Agora, e cada vez mais, parece evidente que as tarefas de observação e informação, em especial na área política, surgem grandemente afetadas na sua valia pela qualidade analítica da informação aberta disponível, ou mesmo pelos serviços de entidades privadas com canais de recolha de dados muito mais eficientes que muitas embaixadas (embora, a disponibilidade de serviços oficiais de “intelligence”, por parte de certos países, continue a ser muito valiosa).

Restam três dimensões onde a função dos diplomatas parece dificilmente substituível.

Por um lado, a proteção e promoção de interesses, humanos ou patrimoniais, do Estado, dos cidadãos ou de entidades privadas. O aumento exponencial das viagens internacionais coloca desafios sérios em matéria de segurança e proteção dos cidadãos e, cada vez mais, a promoção dos interesses económicos (investimentos, comércio, turismo) e da imagem e prestígio dos Estados (cultura, diplomacia pública) se torna importante e, muitas vezes, só pode ser assumida a nível nacional.

Por outro, a função de representação ou presença política do seu Estado perante aquele em que está acreditado. A grande maioria dos países não está integrada nos circuitos de contactos regulares (pessoais ou por comunicações) entre os respetivos dirigentes politicos, pelo que o papel de representante pessoal do chefe do Estado ou da vontade do governo é, muitas vezes, indispensável para o tratamento de certo tipo de questões. A dimensão humana da atividade diplomática permanece um valor acrescentado insubstituível.

Finalmente, alguma mudança se pressente na diplomacia multilateral, onde, ao que tudo parece indicar, residirá muita da decisão futura com impacto na vida corrente dos Estados – e, por maioria de razão, no plano da prevenção e resolução dos conflitos entre eles. Neste domínio, a tendência poderá não favorecer o modelo tradicional do diplomata generalista e, cada vez mais, a função poderá vir a ser exercida por quadros técnicos cada vez mais especializados, em novas “carreiras” diplomáticas a funcionarem em paralelo com a clássica “carreira”. Essa “nova” diplomacia já hoje tem grande expressão e caberá aos Estados saberem compatibilizar a sua existência com o modelo tradicional.

A diplomacia, nas suas variadas formas evolutivas, está aí para ficar. Durará 100 anos? Ninguém sabe, mas a História provou a resiliência dessa “espécie” vocacionada para a simpática tarefa de harmonizar a vida dos Estados e dos povos.

(Texto incluído na antologia "Olhar o Mundo", coordenada por António Mateus, ed. Marcador, 2017)

15 de maio de 2017

Em Lisboa, pare, escute e olhe o ruído

Andava muito cansado e, enquanto esperava, na sala ao lado de uma oficina, que me arranjassem o carro, sentei-me numa cadeira e, por instantes, fechei os olhos. Foi então que o som, ao fundo, de uma chapa a ser batida, bem como impactos secos, provavelmente oriundos de um martelo de borrracha no realinhamento de uma direção, despertaram em mim uma súbita onda de prazer auditivo. Não tinha o ritmado do mimimalismo de Philip Glass que um dia me embalara no Barbican (levando-me a sair no intervalo, por queixas de ressonar), mas havia por ali algo que evocava no meu ouvido (talvez mesmo em melhor) uma sessão de música concreta polaca, no S. Luís, a que, só por vergonha, cerca de uma semana antes, resistira até ao fim. Terá sido nesse instante que, embora meio adormecido, acordei pela primeira vez para a fantástica identidade dos ruídos de Lisboa.

Os estímulos auditivos que não resultem de melopeias ou de sonoridades pré-cozinhadas são, de há muito, uma das mais inspiradoras fontes da minha reatividade. E Lisboa, com o alarido mediterrânico – que os nórdicos confundem, insensivelmente, com javardice e falta de respeito pelo sossego dos outros – é um raro oásis (longe ainda de Nápoles, claro) em matéria de impactos dessa natureza. O som “oficial” de Lisboa é, como todos sabemos, o fado, mas, mesmo num registo turístico clássico, o chiar dos elétricos na descida do Ferragial ou a buzina dos cacilheiros sob neblina, bem poderiam equivaler-se-lhe nessa dignidade identitária de cartaz. Antes, no tempo do SNI e do Ferro, era também o gritar esganiçado das varinas, tão incensado na fadunchada primária, que integrava esse património decibélico. Mas ele foi-se com o tempo e com o Pingo Doce.

Verdade seja que os ruídos humanos lisboetas são reportados desde as calendas. Fernão Lopes registou-os na sonoridade literária da sua Crónica, a Rattazzi tomava-os à conta de falhas na educação e nos costumes (preconceitos!), Eça ouviu-os pelos bilhares do Montanha. Até o canto de Fausto, no “Europa, Querida Europa”, fala dessa “algazarra nas ruas”, com um “suave cheiro a sardinhas”. O chavascal é parte da nossa matriz e Lisboa é o palco orgulhoso dessa peça de chinfrim.
Um amigo brasileiro, há dias, deixou-me sem palavras, num ambiente de infernal basqueiro e guinchos de máquinas, no longo concerto de barulheira operária concreta que o maestro Fernando Medina orquestrou, por meses, pela cidade, ao dizer-me: “Você sabe, Francisco, é adorável este vosso Chiado”. Como ele disse isso nas Avenidas Novas, em frente à Versailles, fiquei sem saber se havia de escrever Chiado com maiúscula ou não.

Mas tudo isto, meus amigos, será sempre apenas uma singela gota de água numa realidade hoje com uma riqueza quase inesgotável.

Todas as cidades, como sabemos, têm os seus sons. Questão diferente é selecionar aquelas raras urbes às quais uma forte presença auditiva confere um estatuto identitário próprio. À lembrança vem-me, de imediato, Nova Iorque, com aquela obsessiva e permanente confusão de sirenes de ambulâncias e carros de bombeiros, que alguém um dia chegou a pensar que eram pagos pelo serviço de Turismo da cidade, para lhe sustentarem, no imaginário dos viajantes e cinéfilos, essa típica marca sonora. Mas Lisboa, passe a imodéstia, não fica nada atrás de Manhattan.

O meu interesse por este tema, embora por muito tempo de forma pouco consciente, vem já de muito longe. O ruído lisboeta é, em mim, um eterno fator mobilizador, que me induz a certas atitudes, embora algumas, se acaso levadas até às últimas consequências, eu não garanta que evoluíssem sempre num registo de serena urbanidade.

Recordo-me de, quando vivia perto do Campo Pequeno, em noites de fim-de-semana, ter sido o roncar dos escapes dos motards que, por exemplo, suscitou em mim uma inesperada vocação cinegética. Só não comprei a caçadeira por falta de espaço lá em casa para a guardar.

Nos dias de hoje, na rua da Lapa onde vivo, a desportiva tendência dos carros para aí testarem os limites urbanos de velocidade, traz-me, por vezes, o impulso de complementar a minha reforma com uma atividade de bricolage, onde o uso de pregos e taxas é, como é sabido, imperativo.
E, não raramente, a saborosa diversidade dos claxons, saídos dos SUV a fingir que por aí abundam, guiados por graves metrossexuais de barba, travados no caminho para as start-ups, desperta em mim, nesse tráfico congestionado (e Lisboa tem evoluído para grandes confusões de trânsito, garantindo-se assim já ao nível das grandes cidades) saborosas memórias da sétima arte: mais precisamente uma nostalgia pelos gadgets que Q colocava no Aston Martin de James Bond, capazes de disparar rajadas em várias direções.

Mas aprendi que o ruído lisboeta, paradoxalmente, também convida à reflexão. Recordo-me de jantares em casa de um amigo que vivia no topo de um prédio sobre o qual passavam, na aproximação à aterragem, os aviões. Havia pausas de largos segundos nesses momentos de convívio, tipo “un ange qui passe”, que permitiam instantes valiosos de meditação ou, em alternativa, de concentração em mais umas garfadas.

É, contudo, o ruído humano lisboeta, em todo o esplendor da sua criatividade, que estimula em mim os mais inesperados sentimentos, mesmo que, por vezes, ele tenda a atenuar os efeitos dos hipertensores que tomo.

Quase sem igual no mundo, são os berros das adoráveis criancinhas nos restaurantes onde escolhemos ir ter uma conversa serena. Lisboa tem, nesse domínio, uma magnífica cultura liberal – e ainda há quem se queixe de sermos uma sociedade iliberal! – permitindo, desde a tenra idade, a vocalização do protesto ou da alegria. É uma espécie de aplicação do 25 de abril às creches, socializando a criança ao usufruto do seu inalienável direito à indignação ou à berraria em voz bem alta. Mas, entre nós, o que é mais notável é que os pais cuidam em não guardar essa expressão sonora dos rebentos para o recato egoísta da família, antes a partilham, com imensa generosidade, com a vizinhança, que assim pode apreciar a encantadora espontaneidade infantil. O facto de alguns circunstantes se sentirem tentados a (e cito o que, infelizmente, já ouvi) a “dar um par de bofardos no puto”, também deve ser levado à conta do inestimável efeito de impulso interventivo que é desejável poder suscitar na em nosso redor. A sociedade ou é interativa ou ficamos todos silenciosos de olhos nos iPads e iPhones. Não é disso de que todos se queixam?

A contemporaneidade, contudo, tem sabido trazer, neste domínio, uma generosa oferta sonora, mais high-tech. O telemóvel é hoje um imprescindível instrumento da nossa transparência urbana. O lisboeta típico, como os estrangeiros estasiados se fartam de constatar, dá-nos regularmente o gosto de partilhar connosco, em lugares públicos, diálogos da sua vida pessoal, como informações muito francas, por exemplo, sobre os seus padecimentos de saúde ou as crises existenciais dos conhecidos. Esperimente o leitor ir ler para um lugar público e, ao final de uns minutos, concluirá que lhe são oferecidas pausas divertidas que, tirando-lhe embora o fio à meada àquilo em que estava concentrado, o fará entrar num mundo novo de revelações alheias – excelentes para quem gosta de exercitar sociologia de pacotilha no Facebook.

Outros ainda capricham, nos cruzamentos ou nas filas, em nos fazer ouvir os ritmos “metal” que saem do altifalantes dos seus carros, num volume tão elevado que, às vezes, os incapacita de tomar nota de alguns alguns adjetivos qualificativos com que, muitas vezes sem uma explícita simpatia no nosso rosto, lhes retorquimos essa não solicitada partilha.

Mas os estrangeiros visitantes, ao que me chega, já também cuidam, cada vez mais, de participar no cuidado desse património de sonoridades atípicas. Ao que parece, pelas noites animadas dos hostels, ou em partilhas de Airbnb, surgem cada vez mais interações sonoras entre andares, as quais, com o tempo, acabarão pela certa nas páginas do Correio da Manhã ou nos apanhados noticiosos das urgências.

Esta Bica, que nasceu com uma explícita vocação de servir de guia a uma nova leitura de Lisboa, rompendo com estereótipos e tentando descortinar espaços inéditos de interesse para visitantes em busca de novos nichos de curiosidade, tem aqui um papel indispensável. Dar a conhecer a riqueza dos ruídos da cidade, chamar a atenção para essa Lisboa dos sons pretensamente não harmónicos, indicar mesmo oportunidades de criatividade ativa nessa área para quem nos visita, é levar à prática um imenso dever cívico.

Não deixemos silenciar esse inestimável património decibélico (por onde anda a Unesco, que não viu ainda isto?) que é o ruído urbano lisboeta, não façamos orelhas moucas à necessidade de cultivar essa riqueza e, acima de tudo, não calemos a nossa voz perante a óbvia conspiração que se está a fazer contra o chavascal popular, contra a (tão típica) conversa aos berros em voz alta pela rua, contra a espontaneidade das mães chamando crianças à distância, nos lugares públicos e outras amenidades correlativas. Cuidemos do que é nosso, povo de Lisboa!

Há alguma coisa melhor que isto? Pode haver, mas por cá ainda não se sabe.

16 de abril de 2017

Saudades nossas


Tinha um pequeno batente, nunca houve qualquer campainha. A porta era envidraçada, com portadas de madeira, idêntica às janelas que, na zona lateral, davam para uma estreita passagem exterior que levava à cozinha. Eu tinha por hábito anunciar a minha chegada de outra forma: batia nos vidros da porta ou na madeira adjacente. Instantes depois, um olhar inquisitivo de uma senhora idosa surgia por detrás dos vidros, logo transformado, à minha vista, num amplo e alegre sorriso. Foi assim durante anos. Bastantes, felizmente.

Isto passava-se na “casa das tias”, e as tias de que vou falar eram irmãs da minha avó materna. A casa era nas Pedras Salgadas, numa das esquinas do cruzamento que constitui o eixo daquela aldeia que agora já é vila. Mesmo em frente, em paralelo com a estrada, passava nesse tempo o comboio da linha do Corgo.


O comboio já acabou há muito, a casa ainda lá está, mas já não é a mesma. Quem hoje sobe para a igreja de S. Martinho, encontra-a na esquina do lado esquerdo. Noutros tempos, a casa – na realidade, um primeiro andar, com um estabelecimento comercial por baixo - era bordejada por um belo terraço de contorno curvo, com um muro caiado de branco, encimado por uma pérgula que cobria de plantas quase metade desse espaço. Nos verões, cadeiras de verga e madeira almofadada serviam de pouso e cenário a amenas conversas.

O terraço foi sempre imenso, mas apenas na minha memória: na realidade, ocupava uns escassos metros, tornados gigantescos pela minha pequenez de infância. Acedia-se a ele da rua por um pequeno portão vermelho, de madeira, seguido de um curto lanço de escadas. Passado este, à direita, havia o “barraco”, com porta também vermelha (ou seria castanha?), atulhado de coisas imprestáveis que, num vício comum nas aldeias, se guardam sempre, vá lá saber-se para quê.

Tenho fotografias minhas nesse terraço, em diversos tempos, de criança a adolescente, com várias pessoas da família, e por elas meço as idades de quem fui, entretanto, perdendo. Numas, vejo-me no chão, a brincar com um cão de borracha; noutras, estou ao colo ou ao lado de primos, tios, avós e pais. Até enfarpelado e de laço, portador de alianças num casamento feliz, surjo retratado por ali, de braço dado com uma prima que já não vejo há décadas. Daquele terraço, então imenso, olhava a mulher do alguidar dos tremoços que oficiava na esquina em frente e encantava-me com a coreografia das bandeiras da guarda da passagem de nível. Aquele terraço foi um dos meus cenários dos tempos da vida que tenho por muito bons.

***

Voltemos à porta. Era quase sempre uma das tias que nela nos acolhia. Mas, afinal, quantas e quem eram essas tias?, perguntar-se-á o leitor não iniciado. Vou tentar simplificar a resposta.

A família da minha avó materna e dessas suas irmãs era originária de uma localidade não muito longe dali, de Soutelinho do Monte, perto de Sabroso de Aguiar, na estrada para Chaves. Por lá nasceu a minha mãe, segundo rebento do casamento da avó Olívia, irmã das tais tias, com o meu avô Francisco. Desse casamento, que teve lugar no virar da Monarquia para a República, iria resultar um total de cinco filhos – duas raparigas e três rapazes.

Em data que não consigo precisar, mas que se situa algures nos anos 20 do século passado, a casa e as propriedades de Soutelinho do Monte foram vendidas. Os meus avós, que ali tinham ficado a viver depois de casados, mudaram-se para a casa que o meu avô, entretanto, herdara da sua mãe, e minha bisavó, em Bornes de Aguiar, também a dois passos dali.

Como era muito comum à época, quer o meu avô, quer a minha avó tinham imensos irmãos. É sobre os irmãos e irmãs da minha avó que quero falar, porque é destes que fazem parte as tias que quero recordar neste texto.

O destino dos dez irmãos da minha avó foi distinto entre si. Dos irmãos, já só conheci um, o tio João, de que falarei adiante. Dos restantes, ouvi falar do tio Cândido, farmacêutico no Vidago (quem é da região diz “no Vidago”, quem não é diz “em Vidago”), do tio Armando, proprietário em Oura, às portas do Vidago, e do tio Acácio.  

O tio Acácio era médico e foi diretor clínico das Termas das Pedras Salgadas e da companhia que as geria. Por algum tempo, foi governador civil de Vila Real. Vivia em Vila Meã, a caminho de Vila Pouca de Aguiar. Conheci bem a viúva, a tia Elvira, de forte personalidade e génio, que se revelou por vezes menos compatível com as cunhadas.

Com ele viveu, por algum tempo, uma irmã da minha avó, a tia Aninhas (Ana), que casou muito jovem e enviuvou cedo. Tendo-se depois apaixonado por um rapaz de Ribeira de Pena, numa ligação que, por qualquer razão, não terá agradado à família, sobre ela caiu uma espécie de “fatwa” familiar, só quebrada nos anos sessenta, quando um imenso piquenique de reconciliação foi organizado por um dos irmãos da minha mãe, o tio Rogério, que, entretanto, tinha restabelecido a ligação com esse ramo da família. Lembro-me bem dessa alegre ocasião, em Ribeira de Pena, em que todas as irmãs então vivas caíram chorosas nos braços da tia Aninhas, pondo termo àquela ridícula separação. A tia Aninhas era uma senhora encantadora, que nos recebia com extrema generosidade e alegria e com cuja simpática descendência, em especial desde então, todos viemos a estabelecer uma forte e duradoura relação.

Tenho uma imagem fugaz de outra tia, de seu nome Palmira, também irmã da minha avó. Guardei dela uma cara sofrida e, muito em especial, tempos mais tarde, a evocação difusa do dia chuvoso da sua morte, nas Pedras Salgadas, na “casa das tias”, onde viera despedir-se da vida e da família. Foi num ambiente tenso e que imagino que deva ter sido difícil para a criança muito pequena que eu então era, mas a que os meus pais não terão podido poupar-me, nessa que, seguramente, foi a primeira vez que me confrontei com a ideia da morte de alguém.

Três outras tias – Tininha (Albertina), Helena e Maria – tinham ido viver para as Pedras Salgadas, nesses anos 20, depois da divisão das propriedades de Soutelinho do Monte. A data da chegada dessas três senhoras coincidiu com uma época áurea das termas. As Pedras, as suas águas medicinais, o seu parque, o hipismo e os seus muitos hotéis e pensões eram um sucesso, em especial entre maio e outubro, arrastando gente abastada de todo o país.

As três irmãs decidiram abrir um novo hotel. A casa em que ele foi criado ainda lá está, em frente à “casa das tias”, um interessante prédio com um terraço de colunas que, desde há muito, abriga serviços oficiais.

O Hotel Colonial, como foi chamado, não terá sido, de acordo com a história oral familiar, um empreendimento de grande sucesso. O conhecimento do negócio, por parte das tias, não foi suficiente. A sua extrema generosidade terá contribuído para esse fracasso: consta que muitos familiares e amigos, alguns vindos de longe, se iam acolhendo por lá, por temporadas, sem que isso se refletisse necessariamente a crédito na contabilidade da operação hoteleira. Um dia, foi declarada uma inevitável falência. O Colonial, como sempre o ouvi referir, foi sido vendido e, talvez com esse valor, foi adquirida, em frente, aquela que passou a ser a “casa das tias”.

Um episódio dessa aventura hoteleira ficou para sempre na nossa memória coletiva. Por alguns meses, durante a Guerra Civil de Espanha, um “rojo”, por indicação de alguém da família, obteve refúgio no Colonial. Durante o dia, permanecia dentro de um grande armário de parede, onde lhe eram servidas as refeições, só regressando ao quarto à noite. Não sendo essa geração da minha família materna conhecida por qualquer inclinação antifascista e, ao que julgo saber, não sendo de considerar a relevância da questão pecuniária, ficam por explicar, embora sendo desde logo de louvar, as razões que terão levado as minhas tias a tão arriscado gesto. A verdade é que, para sempre, Avelino Sola Castro, mais tarde um bem-sucedido empresário em Chaves, ficou um bom amigo de toda a nossa família.

Entretanto, ainda o Colonial funcionava, uma das três irmãs que o geria, a tia Maria, ter-se-á encantado com um oficial do Exército que por ali se hospedou. Casou com ele e foi viver para o Porto. Com o marido, o tio Óscar, a tia Maria regressava anualmente às Pedras Salgadas, para o que me recordo ser uma longa jornada estival, em casa das irmãs.

Resta ainda falar de uma outra tia, a tia Alcina, que desempenha também nesta história um papel central. Fora casada com um para mim misterioso Castro, figura que ornava uma moldura oval numa parede da sala, cavalheiro de fartos bigodes e que, ao que me recordo, era originário de Murça. Nunca percebi bem o que teria feito na vida esse tio, que já não conheci, mas rezavam as crónicas que a tia Alcina viveu com ele no Porto e, creio, em Lisboa. Depois da morte do Castro, sem filhos, a tia Alcina viria a regressar às Pedras Salgadas, indo viver com as duas irmãs que aí tinham ficado.

***

É esse trio de tias-avós – tia Alcina, tia Tininha e tia Helena – que integra a minha mais viva memória de infância e adolescência. Não me conheço sem elas, tive-as por perto em todos os tempos, e a sua progressiva saída da paisagem da vida significou o meu confronto definitivo com uma espécie de fim da inocência, o acordar para o mundo das perdas irreversíveis que acabam por fazer parte do nosso crescimento.

Em certos anos, ainda na minha juventude, fui várias vezes passar alguns dias, em tempo de férias, às Pedras Salgadas, para casa das tias.

A primeira dessas experiências individuais, fora do controlo dos meus pais, com nove ou dez anos, ficou marcada pela minha queda acidental de um barco, no lago do parque das Pedras. Molhado que nem um pinto, refugiei-me no canavial, sem coragem de seguir naquele estado até à residência das minhas tias. Avisado o meu avô, ele negociou com um dos rapazes que faziam assistência ao jogo do “golfinho” o empréstimo do seu traje de trabalho. E o rapaz lá ficou, em cuecas, também no meio das canas, enquanto eu seguia para casa, pela artéria central da aldeia, imagino que escondendo a cara, vestido com o macacão cinzento de serviço desses apanha-bolas. Depois de um banho, sabe-se que as tias me esfregaram o corpo a álcool, não fosse a água do lago ter-me deixado impurezas na pele…

Em outros anos mais tarde, já adolescente, fui duas ou três vezes, em férias, passar uma semana por lá. Porém, como já tinha encetado o meu vício de ler pela madrugada dentro, as minhas manhãs de sono eram trágicas. O quarto que ocupava dava para a estrada nacional e para a linha férrea paralela, pelo que era invariavelmente acordado pelo trânsito da manhã, automóvel ou ferroviário, entre Vila Real e Chaves. Acrescia que, sob a casa, havia a “venda” do senhor Marçal, inquilino das tias, e, desde muito cedo, através do soalho, chegava a essa zona da casa uma perturbadora vozearia, acompanhada pelo odor dos eflúvios do vinho que se vendia ao balcão. E havia também os mosquitos que se infiltravam pelas frinchas das janelas e me arruinavam as leituras noturnas. A isso se somava, finalmente, um relógio na sala anexa, que me irritava os ouvidos, de hora a hora. Hoje, pensando bem, devem ter sido estas circunstâncias, inconformes com os meus incorrigíveis hábitos horários, que terão limitado uma maior frequência minha em férias na “casa das tias”.

Marcante na minha memória foi um dia em que, de surpresa, aportei à “casa das tias”, de mochila às costas. Tinha andado mais de um mês à boleia pela Europa, de Lisboa à Suécia. Numa tarde, em França, à saída de Bordéus, numa paragem do trânsito na velha N10, consegui boleia com o condutor de um táxi português. Ele ia para Ribeira de Pena, passava mesmo à porta da “casa das tias”! Até lhe fui útil, para o entreter com conversa, evitando o perigoso sono da noite, na estrada de Tordesilhas a Verín, por Puebla de Sanabria. Aguardámos em Feces de Abajo a abertura da fronteira (é verdade: fechava à noite, como a “guerra” do Solnado) e, bem cedo, de manhã, bati àquela “santa” casa. Dessa vez, nem a barulheira da “venda” do Alcino nem os carros ou os comboios ou o relógio perturbaram uma dúzia de horas seguidas de sono, numa cama a sério, com que me desforrei de uma noite em branco e do bom cansaço acumulado da alegre jornada europeia.

Os quartos da casa das tias eram impressionantes de organização. Recordo a garrafa de água com copo a tapar que era regra na mesa-de-cabeceira, a bacia de louça com jarro e a toalha de linho, bem como, na casa de banho coletiva, os tapetes brancos ainda com os dizeres Hotel Colonial, a recordar uma experiência que, talvez por trauma, nunca as ouvi a elas abordar.

A frustrada experiência do Colonial não anulara, contudo, por completo a vocação hoteleira das tias. Por alguns anos, entre maio e outubro, dois ou três quartos da casa eram alugados a pessoas que ali chegavam por recomendação, que ficavam por períodos “a águas” e que, com o tempo, acabavam por converter-se em amigos da família. Os meios nunca foram muito fartos na vida modesta daquelas senhoras e, estou certo, esse contributo sazonal devia ser interessante para o seu orçamento.

***

As tias, essas três tias, eram bastante diferentes entre si.

A tia Alcina tinha um evidente ascendente sobre as outras duas, por ser a mais velha e quiçá (estas coisas não se pressentiam, ao tempo) por dar um contributo financeiro importante para a gestão da casa, fruto da herança de viuvez do Castro (ela e as irmãs referiam-se-lhe sempre como “o Castro”, pelo que fiquei sem saber o primeiro nome desse meu tio). O seu caráter um pouco cerimonioso ungia-a de uma imagem de distinção. Era uma figura de modos requintados e voz pausada, levantava o dedo mindinho quando erguia a chávena de chá e dava ares de ter uma educação formal muito elaborada. Lia as Seleções (do Reader’s Digest) e romances, de óculos na ponta do nariz. Um dia, contou-me que, quando se deslocava de comboio ao médico, a Vila Pouca de Aguiar, o chefe da estação fazia sempre questão de ir buscar um pequeno banco para a ajudar a subir à carruagem.

Das outras duas tias, a que sempre me foi mais próxima, sendo-o também da minha mãe, era a tia Tininha. Desde muito pequeno, era com ela que eu tinha as brincadeiras, é da sua constante companhia que rezam as minhas memórias mais antigas. Uma ida com ela ao Teatro-Circo, em Vila Real, para uma longa-metragem infantil, antecedida pelo filme da coroação de Isabel II, comigo com cinco anos, é um desses momentos impressivos. Era uma mulher de uma suavidade extrema, incapaz de dizer uma palavra mais alta, com um sorriso bondoso que rimava com a sua maneira de ser. O meu pai, que tinha pelas minhas tias uma dedicação e uma amizade que iam muito para além do seu vínculo por afinidade, dizia que ela “viveu para ser útil e agradável aos outros”. E assim era. Adorava a minha mãe e todos os meus tios, como se fossem os filhos que não teve. Nunca entendi por que nunca casou. Nunca percebi também se era apenas uma brincadeira o rumor de que um galante e aventureiro irmão do meu avô, o tio Filipe, lhe tinha, em tempos, andado a “arrastar a asa”.

A outra tia era a Helena. Era uma figura com um toque muito particular, que às vezes parecia um pouco ausente, distante. Na cara trazia um sorriso que era um permanente esgar, com umas maçãs do rosto salientes e rosadas. Lembro-me bem do cheiro do seu pó de arroz, o invariável “Maderas de Oriente”, com que vivia sempre muito empoada. Quando a casa passou a ter televisão, passava horas deliciadas em frente ao aparelho, “do hino de abertura à Meditação”, como ironizava o meu pai. Cozinhava lindamente e era seu um irrevogável “pelouro”: fazer o chá. Tinha o que se chama um “feitiozinho” e, não raramente, implicava com as irmãs. Mas, valha a verdade, aquela casa era um oásis de calma e bom entendimento.

***

Creio que, com o seu irmão, e meu tio, Fernando, que as visitava com grande frequência, a minha mãe era talvez, em toda a família, a pessoa mais intimamente ligada às tias. Talvez por isso eu tenha herdado algo dessa sua muito forte relação. Por uma razão para a qual nunca obtive uma explicação muito concreta, a minha mãe fora, desde muito nova, criada na casa dessas senhoras, que distava pouco mais de um quilómetro da Casa do Pereiro, onde o meu avô Francisco e a minha avó Olívia, em Bornes de Aguiar, viviam com os restantes quatro filhos. Essa circunstância, contudo, não conduziu à mais leve distância entre ela, os pais e os irmãos e talvez tenha mesmo contribuído para que uma relação muito forte existisse entre os meus avós e aquelas minhas tias.

De facto, elas eram como que um prolongamento natural dos meus avós, figuras presentes, a toda a hora e sem exceção, nas ocasiões que reuniam a família, como o demonstra a imensidão de fotografias de encontros e picnics em que todos sempre participavam.

O meu avô, que se licenciara em Direito em Coimbra no fim da Monarquia, decidiu desistir da carreira judicial que iniciara, por não querer “circular” pelo país e por desejar ficar perto da sua terra de origem, Bornes. No final dos anos 30, foi viver para Vila Real, aí ocupando o cargo de Conservador do Registo Predial. Sempre que podia, “fugia” para a casa de Bornes, tomando o comboio da linha do Corgo para as Pedras Salgadas, em viagens em que me recordo de algumas vezes o ter acompanhado.

Desde sempre, criou-se o hábito de essas irmãs da minha avó passarem a ficar, por largos períodos, em Vila Real, naquilo que, nas casas onde por lá vivi, sempre se chamou “o quarto das tias”.

Iam para o Natal, em meados de dezembro, e só regressavam às Pedras com fevereiro à vista, depois do meu aniversário. Antes da Páscoa, voltavam a tomar o comboio até Vila Real e aí ficavam por cerca de um mês. Depois, insistiam em regressar às Pedras Salgadas, para o período termal.

Todas essas tias tinham uma adoração pelo meu avô, seu cunhado, que as tratava, coletivamente, pelo nome carinhoso de “as pequenas”, talvez justificado por alguma diferença de idade que entre eles existia. O meu avô Francisco, que tinha grande sentido de humor, era um patriarca que adorava ter a família à sua volta. E as “pequenas” eram parte desse cenário, com todas elas a tratarem-no, invariavelmente, por “Chiquinho”.

Uma noite, nos anos 50, depois de jantar, em Vila Real, saído para o café Excelsior com o meu pai, como costumava fazer em muitas ocasiões, o meu avô decidiu improvisar uma falsa chamada telefónica para uma das tias, que, com a minha mãe e a minha avó, tinham ficado em casa. Fingindo a voz de um genro que se tinha deslocado ao Brasil – e que era então presidente do município de Vila Real, casado com a única irmã da minha mãe, Benedita (a tia Zinha) -, criou uma falsa chamada internacional, coisa muito rara à época, pedindo para falar com a tia Alcina, a mais velha das tias. Não se sabe como foi a conversa, só sei que, no regresso do meu avô a casa, a tia Alcina contava, deliciada, a conversa que tinha tido com o Humberto, esse genro do meu avô, tendo o que então disse ficado na memória divertida de todos nós: “Ó Chiquinho! Ouvia-se tão bem! Até parecia que era daqui!” A revelação do logro deixou a tia Alcina encavacada e a sala num riso que se prolongou nos dias seguintes, nesse tempo em que as coisas simples podiam ser interessantes.

O prazer do meu avô de brincar com a tia Alcina, talvez por ser a mais sénior das três, assumiu o ponto supremo quanto um dia esta recebeu, durante uma estada em Vila Real, uma carta enviada das Pedras Salgadas, assinada pelo padre Domingos, o pároco da freguesia, convidando-a, “com outras três distintas senhoras das Pedras”, a integrar a procissão anual, carregando ao ombro um inédito “andor feminino”, já não sei com que santa ou santo.

Eu fora, dias antes, com o meu avô à tipografia do senhor Agostinho, na esquina da rua das Pedrinhas, quase em frente à casa onde então vivíamos, para a impressão do papel timbrado “da Paróquia”. O meu avô tivera o cuidado de pedir a alguém, que entretanto se deslocava às Pedras, para enviar a carta de forma a poder ter o credibilizante carimbo dos correios local. Contava-me o meu pai que o embaraço da tia Alcina, quando abriu a carta e se confrontou com o “pedido”, foi imenso. Por um lado, não queria afrontar com uma recusa o “gesto simpático do senhor padre Domingos”, mas, por outro, a ideia bizarra de carregar um andor, tarefa até ali inédita para senhoras nas Pedras, deixava-a mais do que perplexa e dividida. O seu avô, com ar sério, apelava ao seu “sentido de responsabilidade, até para a imagem da família…”. A santa senhora só sossegou quando, passadas muitas horas, lhe foi revelada a patranha.

É ainda a tia Alcina quem me oferece o título que dei a este texto. O único filho do meu avô que vivia fora de Vila Real, o tio Luís, tinha por hábito telefonar todas as noites, de Lisboa, ao pai. No final desses telefonemas, as tias, sentadas ali ao lado, queriam enviar ao “nosso Luizinho” o seu carinho e, representando as irmãs, a tia Alcina deixava sempre, alto, para que o meu avô se não esquecesse: “Saudades nossas!”  

 ***

Até aos 13 anos, vivi, com os meus pais, em casa dos meus avós. A vinda das tias era, para mim, um momento de satisfação e, como criança única a vaguear e a crescer pela casa, neto único por muitos anos, imagino-me privilegiado pelo ambiente afetivo que se criava à minha volta. As tias adoravam-me e eu retribuía-lhes. Um dia em que estava previsto o regresso delas às Pedras Salgadas, depois de um desses períodos em Vila Real, rezam as crónicas familiares que as deixei fechadas no quarto que ocupavam e saí com a chave para a rua. Terão perdido o comboio e imagino a imensa confusão que se deve ter criado. Eu teria quatro ou cinco anos, mas essa nota de carinho exagerado pelas tias ficou para sempre inscrita nas histórias da família.

Os meus avós morreram, entretanto, com escassa diferença de tempo. As tias continuaram a ir passar os Natais connosco, na casa dos meus pais, em Vila Real. E a minha forte relação afetiva com elas mantinha-se. Talvez porque então vivia mais longe, um qualquer regresso a Trás-os-Montes, mesmo que por escassos dias, levava à quase imediata questão por parte da minha mãe: “Quando vais às tias?” E eu ia, sem custo, a gosto, pelo prazer de estar uma boa hora de conversa com aquelas senhoras, numa intimidade única, serena e carinhosa. Ela mostravam-me então, orgulhosas, a coleção dos postais que eu lhes enviara de todos os locais por onde viajava pelo mundo. Até muito tarde, até elas começarem a desaparecer, mantive o hábito dessa correspondência que, no fundo, sinalizava a sua permanente lembrança em mim.

Quando casei, as tias adotaram a minha mulher, que passou a devotar-lhe uma dedicação em tudo similar à minha. Na modéstia de meios que era a sua, ofereceram-nos, como prenda de casamento, uma pequena cafeteira que só fazia dois cafés, acompanhada de duas chávenas e de um comovente pedido de desculpas por não poderem ser mais generosas.

Um dia, levei-lhes, para uma tarde de convívio que ficou memorável, uma simpática tia da minha mulher que tinha uma idade próxima da delas: E por ali ficámos, a ouvir desfiar conversas e memórias, de mundos próximos embora distantes. As tias eram de uma gentileza e de uma atenção sem par para os outros e recebiam todos os nossos amigos com imensa generosidade, como se da sua própria família se tratasse.

***

Volto, por uma última vez, à porta da “casa das tias”, nas Pedras. Eram a tia Tininha ou a Tia Helena quem nos abria a porta. Nunca essa tarefa foi, que me recorde, da tia Alcina, que usufruía do seu estatuto etário.

Não se ficava na sala envidraçada de entrada, uma espécie de antecâmara que dava acesso à sala de estar. Esse era o lugar para receber alguém menos íntimo, pessoas da aldeia, a quem, pela certa, acabava por ser oferecido um cálice de “vinho fino”.

Por lá, havia uma estante que recordo ter Almanaques Bertrand, romances já sem capa e, sempre, exemplares antigos da Modas & Bordados, leitura regular lá de casa, a par da Flama e das Seleções. Numa das paredes, havia uma gravura, representando a sequência majestosa das palmeiras do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, talvez oferta de algum dos membros da família que tiveram o Brasil como destino de vida.

A sala adjacente, a “saleta”, era, na realidade, o centro da vida da casa. Tinha a inevitável mesa com braseira, por muitos anos a brasas e que, numa tarde de salto tecnológico, vi passar a elétrica. Havia um móvel com um imenso espelho, cobrindo grande parte da parede, o que dava profundidade à divisão. Além de um relógio de cuco e da fotografia do já referido Castro, por lá estava um retrato dos meus bisavôs, pais das tias e da minha avó.

Entrados para essa sala, sentados à volta da braseira, trocadas as primeiras histórias, um momento inevitável seguia-se, como ao dia se segue a noite: a vinda do chá. Discretamente, a tia Helena, minutos depois da nossa chegada, deslizava do banco almofadado junto à janela e encaminhava-se para a cozinha, para preparar a “chazada”, como eu jocosamente qualificava o momento. Quantas vezes, mal entrado na sala, as arreliava com um “hoje não quero chazada!”, pretextando com um almoço tardio ou algo que pudesse impedir essa rotina. Qual quê! O servir um chá era sagrado naquela casa, que vinha sempre com pão, marmelada (as tias faziam ótima marmelada!) e queijo flamengo. E eu, que afivelara por rabugice a inicial recusa da “chazada”, quase sempre acabava por me alambazar com um lanche completo.

A casa das tias era grande. Tinha um longo corredor, com quatro quartos, que partia da cozinha e desembocava na sala de jantar. A cozinha era um espaço com um cheiro inesquecível, confortável, um misto de mercearias e legumes. O chão do corredor rangia, no caminho para a sala de jantar. Aí, onde as refeições eram servidas num belo serviço que tinha vindo do Colonial, havia um relógio “de violão”, entre duas varandas.

Para a sala de jantar, davam ainda mais dois quartos. Um deles era aquele em que eu tentava, debalde, dormir nas manhãs barulhentas de férias, o outro era conhecido como o “quarto do Óscar”. Era ocupado pela tia Maria e pelo seu marido, o tio Óscar, o tal militar que desencaminhara essa irmã mais nova, quando vinham do Porto para a vilegiatura anual. Nesse período, “o Óscar”, como era referido pelas cunhadas, ocupava o papel do homem da casa.

***

Sou suspeito ao falar do tio Óscar. Criei com ele, desde a minha infância até à sua morte, uma relação magnífica e dele recebia um tratamento ímpar. Com ele e com a tia Maria, passei férias na casa em que viviam no Porto, à Ramada Alta. Da sua janela, via passar o comboio para a Póvoa e, ao longe, vislumbrava o monumento da Boavista. O tio Óscar levava-me a passear de elétrico até à Foz, mostrava-me com cuidado a Baixa, sentava-me, junto aos seus camaradas “na reserva”, no Rialto, aos domingos eu acompanhava o casal aos almoços na messe da Batalha. O meu gosto pelo Porto começou aí.

O tio Óscar tinha, recordo, a coleção completa encadernada da revista oficiosa do Porto, O Tripeiro, lia O Primeiro de Janeiro e assinava a Vida Mundial, quando aquela publicação era, apenas, uma folha impressa sem imagens, com tradução de artigos publicados na imprensa estrangeira. Interessava-se por temas internacionais e despertou a minha curiosidade por questões militares – ele que fora oficial em África, durante o primeiro conflito mundial. Era um homem com uma cultura de factos e eventos, a depreciativamente chamada cultura “de almanaque”, dado às vezes a conclusões simples sobre temas complexos. Conservador e julgo que salazarista, recordo-me de ter assistido à emergência de algumas contradições suaves, em conversas com o meu pai, que nunca escondia as suas convicções democráticas.

O tio Óscar, na imagem que dele guardo, era uma figura baixa, com proeminente barriga. Todos os anos, fazia uma varinha tirada de uma cana que cortava no parque das Pedras e ela acompanhava-o durante todo o resto das férias. Dava um passeio “higiénico” após cada refeição, pela avenida e pelo parque, em passo próximo do militar, com a minha tia ao lado e o chapéu na cabeça. Pela tarde, não dispensava uma sesta sob a pérgula do terraço da casa das tias. Eu invejava-lhe a disciplina de rotina que se autoimpunha e pensava que um dia, quando “fosse grande”, conseguiria essa capacidade de regrar a vida. Enganei-me redondamente: nunca consegui e, valha a verdade, nunca tentei. O tio Óscar era um homem bom, de gostos simples e de uma grande bonomia.

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Conheci o tio João, irmão das tias, muito menos do que desejaria. Porquê? Porque era uma personalidade muito simpática, suave, um homem pesado, com uma maneira pausada de falar, muito marcada pelo inconfundível sotaque de Chaves, onde era secretário da Câmara municipal e onde vivia há muito. Tinha um grande carinho por mim e dava-me uma atenção especial, num mundo de adultos onde, muitas vezes, eu era a única criança.

Vinha, em algumas épocas, em especial nas vindimas, passar semanas para uma bela casa que tinha à entrada de Bornes. Ia visitá-lo com os meus pais, e tenho na memória os refrescos oferecidos pela sua mulher, a tia Tininha (não confundir com a homónima irmã da minha avó, de quem tenho falado), uma mulher culturalmente interessante e com uma forte personalidade, que parecia (mas só parecia) contrastar com o carater mais sereno do marido.

O tio João era um caçador emérito e recordo, muito miúdo, a imagem de o ver embarcar numa camioneta, com outros parceiros, para uma jornada cinegética. Dizem-me que era um bom garfo, qualidade sempre estimável que, com o tempo, me faz apreciá-lo ainda mais.

Há uma história deliciosa, passada numa tarde, no terraço das tias. O tio João devia regressar a Chaves, ainda nesse dia. A certa altura, as “cancelas” fecharam-se e o comboio, vindo da Régua e de Vila Real, entrou, fumegante, na estação, com os apitos da praxe. Velho habitué daquele meio de transporte, o tio João, fiando-se na sua intuição do tempo, prolongou a conversa por um período para além do prudente. A certo passo, ofegante, entrou pelo portão um funcionário da CP: “Senhor Joãozinho, o senhor chefe da estação diz que o comboio está pronto para partir e pediu para o senhor se apressar.” O tio João (o “Joãozinho” é o diminutivo que, nas aldeias transmontanas, se dá a quem é querido por lá) lá se despediu e, nos seus vagares, desceu para a estação. Era assim a vida, por esses tempos.

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Nos últimos anos da vida das tias, a sua existência pelas Pedras Salgadas manteve-se muito simples. Como destino termal, as Pedras eram cada vez menos procuradas. Os hóspedes feitos amigos, que tinham chegado a dar alguma animação à casa, deixaram de aparecer. Com a morte sucessiva do meu avô e da minha avó, bem como do seu irmão João, em Chaves, elas passaram a ter como laço familiar, essencial e constante, a nossa família de Vila Real.

A minha mãe e o seu irmão, o meu tio Fernando, eram, como disse, as âncoras mais regulares dessa existência, mas valha a verdade que toda a família, de Chaves a Lisboa, visitava-as com a frequência que a respetiva vida permitia.

A tia Maria, uns anos depois de enviuvar, saiu do Porto e juntou-se às restantes três irmãs. O agora “quarteto” desenhou, por alguns anos, a nova paisagem humana da casa (“Do alto desta braseira, bem mais de três séculos nos contemplam", napoleanizava o meu pai). As “senhoras”, como eram chamadas na aldeia, tinham frequentes visitas de figuras femininas das suas relações, muitas delas mais novas, o que induzia alguma animação às suas tardes – e aos seus chás (que eu passei a trazer-lhes da Twinings).

Um dia, chegou o 25 de abril. A Revolução não era, com certeza, algo que as sossegasse, tanto mais que, na nossa família, acarretara algumas consequências pessoais menos agradáveis e, em outros casos, suscitara temores exagerados, que eu me divertia sempre em tentar amenizar.

Um dia de 1975, antes das eleições para a Assembleia Constituinte, numa "saltada" de Lisboa a Vila Real, fiz a minha visita habitual às tias, nas Pedras. Que me recorde, a política nunca havia sido tema de conversa entre nós. Mais por curiosidade do que por outra coisa, perguntei-lhes se já tinham decidido em que partido ou partidos tencionavam votar, nas eleições que estavam à porta, de que tanto então se falava.

Com exceção da tia Maria, a mais nova, regressada pouco antes do Porto, que talvez votasse no PS, eu estava em absoluto convicto de que o CDS ou o então PPD seriam o destino normal dos votos das outras minhas tias. Talvez tivessem mesmo sido já "apalavradas" pelo prior da freguesia, o excelente e simpático padre Domingos, o homem que me batizara, que fizera casamentos e todos os funerais da nossa família. Embora ele fosse liberal noutros domínios, suspeitava que seguia a onda do clero nortenho que, à época, "diabolizava" fortemente a esquerda.

As tias mostraram-se muito hesitantes, julgo que chegaram a perguntar-me a minha opinião (eu ia votar no MES, mas não tinha coragem de as tentar convencer...), embora sem necessariamente prometerem seguir o que eu lhes dissesse, claro. Até que uma delas contou: “Esteve cá, há dias a dona Albertina - que tu conheces! - e falou-nos das eleições, dos comunistas e coisas assim. Deu-nos um conselho...”

Fiquei imensamente curioso sobre qual teria sido o "conselho" da dona Albertina, uma senhora bastante mais nova, que tinha vivido até há pouco em Lisboa, que devia andar a fazer proselitismo conservador, pela certa. A minha curiosidade foi logo saciada: “Ela disse-nos que não se deve votar nos partidos que tenham ferramenta no emblema...”

Dei uma imensa gargalhada, lembrei-me da imensidão de foices e martelos que adornavam as imagens dos partidos, bem como de enxadas e rodas dentadas que ilustravam outras formações. O conservadorismo da dona Albertina, afinal, era muito moderado. Aliás, a senhora informara-as de que ia votar no "partido da mãozinha", do Mário Soares, que "parecia boa pessoa e que não gostava dos comunistas". Nunca soube ao certo em quem votaram as minhas queridas tias. Essa era, aliás, a minha última preocupação.
               

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Os anos foram passando. As quatro tias, uma a uma, foram desaparecendo. Eu vivia então longe, no estrangeiro e da morte de cada uma ia tendo notícia pelos meus pais, sempre tardia, porque o dar com tempo as novidades desagradáveis faz parte dos hábitos da nossa família. Quando, numa visita às Pedras, voltava a bater no vidro daquela porta, sabia que faltaria mais alguém, pelo que os sorrisos que nos recebiam passaram a ser cada vez mais tristes. Eu fazia boa cara, dizia umas patetices, para animar os espíritos, entregava a lembrança que trazia, falava por algum tempo, bebia o chá da praxe, mas, em cada minuto que passava, ia-me invadindo uma insuperável nostalgia. Eram, são as saudades nossas.

Vila Real, Natal de 2016
  
Dedico estas recordações, muito pessoais, aos meus primos, a todos eles. Os mais velhos terão, das tias, as suas memórias próprias, que cruzarão com as minhas. Aos mais novos, hoje ou no futuro, o que ficou escrito pode ajudar a entender que todos somos felizes herdeiros de um mundo ímpar de afetividade, criado por umas senhoras que viveram para os outros e que, talvez sem o saberem, ajudaram muito àquilo que somos como família. 

26 de janeiro de 2017

Que futuro, nesta Europa

Lamento não poder corresponder à promessa que fiz ao Miguel Almeida Fernandes de hoje estar aqui convosco, a trocar algumas ideias sobre a Europa. Pode ter sido algum vento europeu que me trouxe a gripe que agora provoca a minha ausência. Ou são talvez só os maus ventos que sopram de Almaraz...

Em 2007, há precisamente dez anos, fui convidado a ir do Brasil a Harvard para falar sobre um tema que, na altura, era candente – e que hoje está posto nas calendas da plausibilidade: a entrada da Turquia para a União Europeia. Numa conversa coletiva durante o almoço que antecedeu a conferência, um professor canadiano perguntou-me, com uma desarmante candura, se Portugal se tinha já preparado para a iminência de ter de sair do euro. 

Segundo ele, o facto de os mais poderosos membros da moeda única estarem, já então, a incumprir com os princípios a que se tinham comprometido deixava bem claro que, para os mais fracos (como manifestamente era o caso de Portugal), a situação seria insustentável, ao menor abalo a que o sistema viesse a ser sujeito. A minha resposta foi ingénua na sua sinceridade: disse-lhe que, na nossa avaliação, os custos que significaria um eventual abandono da moeda única seriam sempre superiores a tudo quanto tivessemos que fazer para nos manter dentro do clube. Não sei se convenci quem então me ouviu, muito menos o meu interlocutor. Mas, é verdade, essa era – e ainda hoje continua a ser, a manterem-se certos pressupostos – a minha leitura.

Estávamos em 2007. A crise financeira internacional ainda se não vislumbrava no horizonte, se bem que muitos – aqueles que costumam ter a pouco credível razão antes do tempo – já apontassem então para as bolhas imobiliárias e para as correlativas disfunções financeiras que minavam o sistema. 

Portugal vivia, então, nessa linha estatística plana de um mediocre crescimento, que apontava para a persistência de uma endémica falta de competitividade e da falta de soluções para a colmatar. A dívida, então mais a privada do que a pública, ia aumentando a olhos vistos, mas a ideia de que o para-raios do euro nos protegeria parecia preponderar em quem ia tendo responsabilidades políticas.

Há algo que muitos tendem a esquecer. Estava criada, à época, a sensação de que a Europa, em última rácio, viria sempre a encontrar uma solução para os seus problemas menores. Desde logo, porque os consideraria seus, isto é, europeus, sujeitos a uma resposta coletiva. Por outro lado, porque uma economia como a portuguesa seria sempre um problema menor, quiçá até barato, que, em caso de desregulação seria absorvido, com facilidade, pela zona euro. 

Medimos mal o peso da realidade, avaliámos erroneamente o sentido da solidariedade europeia e, depois, foi o que se viu. A Europa económico-financeira, sujeita à pressão da crise, claudicou politicamente. E nunca mais se reencontrou. 

Essa parte importante da Europa, para quem o euro fora uma solução em tempos do otimismo, deixou de se considerar responsável, de forma solidária, quando as coisas passaram passaram a correr menos bem. O sucesso era europeu, os fracassos eram individuais – e as responsabilidades também.

Se refletirmos um instante, verificaremos que, mais do que as instituições europeias, o que se fragilizou foi a vontade política para a tomada de decisões com real impacto comum. De facto, enquanto uma instituição como o Banco Central Europeu se mostrou a partir daí resiliente, e capaz de se afirmar com relativa eficácia, as lideranças europeias, ao cederem à tentação de autonomizaram as dívidas soberanas, depois do acordo Merkel-Sarkozy em Deauville, confirmaram que, a partir daí, seria o “sauve qui peut” – o salve-se quem puder. Alguns economistas na sala estarão, por esta altura, a pensar, intimamente, que, se acaso tivesse sido outra a decisão política então tomada, o BCE acabaria por ter uma tarefa impossível. E, provavelmente, têm alguma razão. Isto só prova que, nos dias europeus que atravessamos, a moeda, mesmo a única, tem sempre duas faces…

Mas é sobre a crise política europeia que lhes quero falar. Sei que pode ser impopular dizer isto num país como o nosso, mas há uma realidade, bem comezinha, com que todos temos hoje que viver. Cada país europeu tem uma agenda de interesses e de preocupações diferente das dos restantes, às vezes mesmo contraditória entre si. A ideia comum europeia, esse cimento ideológico de liberdade, progresso e potencial desenvolvimento coletivo funcionou, por muito tempo, como saudável fator agregador. 

E vamos ser claros: funcionou enquanto a Alemanha, por razões históricas que me abstenho de trazer à colação, se dispôs a pagar o essencial do cheque, que dava aos deserdados da sorte no continente a ideia de que um dia iriam poder vir a colar-se ao “pelotão da frente” dos ganhadores do Mercado Único europeu. Essa Europa acabou. Esse sonho também. 

A Europa dual está aí para ficar e é à volta dessa sua dualidade, da forma de a gerir, com o mínimo possível de tensões, que os entendimentos futuros terão de ser feitos. Os alargamentos – e não só os últimos – introduziram uma mudança qualitativa profunda nos valores comuns que todos dávamos por adquiridos, naquele “politicamente correto” que nos habituáramos a ver como o “template” do discurso comunitário. As várias Europas que aí andam mudaram de prioridades, passaram a colocar os interesses nacionais muito acima de qualquer registo solidário de sentido europeu. No plano imediato, passaram a vir ao de cima preconceitos que todos sabíamos estarem subjacentes no pensamento prevalecente em muitas opiniões públicas: países do Sul, laxistas, gastadores, etc. E as consequências fizeram-se logo sentir, por exemplo, nas dificuldades sentidas para montar o consórcio de ajuda na concessão do pedido de resgate de Portugal. Basta lembrar a atitude do partido dos “Novos Finlandeses” para regressarmos com facilidade a esse tempo. 

(E, já agora, conviria lembrar que, nos tempos que correm, seria ainda mais difícil reconstituir uma ajuda dessa dimensão, no caso de ser necessário um segundo resgate.)

Mas voltemos ao que interessa, que é o plano politico. É fácil condenar o que pode ser visto como egoísmo por parte de alguns Estados membros, em especial daqueles que nunca tinham estado na anterior Europa comunitária. 

Mas, repito, temos de ser realistas. É um facto que a generalidade dos dirigentes desses mesmos países nunca enveredaram por uma pedagogia interna das vantagens gerais retiradas da integração europeia. É óbvio que a maioria deles seguiu o caminho fácil de considerar Bruxelas e o que ela representa como o “bode espiatório” de tudo quanto possa correr mal nos seus Estados. Mas a verdade é que estamos a falar de democracias e as democracias respondem perante os seus eleitores e repercutem os seus sentimentos. Estamos a falar de Estados em que as lideranças, muitas vezes frágeis e em forma de coligação, representam opinões públicas que não estão “nem aí” para essa coisa de auxiliar os outros, muitas vezes sob constantes campanhas mediáticas de denegrimento sistemático desses mesmos outros. 

Acresce o evidente: o receituário para o combate aos défices excessivos passou a ser praticamente único na maioria dos governos da zona euro, os quais, seguramente, olham com ironia o facto das medidas antiausteritárias serem contestadas precisamente, e quase em exclusivo, por quem é forçado a implementá-las. Daí que o espaço para a consensualização de mecanismos de diferente natureza, como a mutualização da dívida, seja hoje praticamente nulo, com uma maioria a olhar como uma espécie de devida punição os rigores inflingidos pelas medidas de contenção dos défices. Devo dizer que, no auge da crise grega, cheguei a pressentir algum sadismo em certas declarações de dirigentes da Europa rica e, em especial, em alguma imprensa menos preocupada com a brutalidade com que diz as coisas. 

Mas esta é, meus amigos, a Europa que temos. Respeito muito as reuniões, como a que há dois dias teve lugar em Lisboa, em que dirigentes da Europa do Sul procuram conjugar posições para tentar mudar o sentido do discurso europeu. Tudo deve ser tentado, mas a História prova que raramente a soma das fraquezas conduziu a uma grande força. Porque a chave do problema, que o mesmo é dizer, a chave do cofre, está a Norte e, por aí, as coisas não parecem tender a mudar.

Essa Europa rica não parece disposta, apesar das lições negativas retiradas das políticas de austeridade, a enveredar por fórmulas de mutualização de risco. O que é menos compreensível, porque isso já toca um elemento relativamente mais gerível, é que não se gerem consensos mínimos no sentido de políticas de discriminação positiva, seja nos acessos aos programas de financiamento público, seja no aliviar dos juros da dívida – em especial dos países que se constate terem feito um percurso de redução nominal do seu défice. Mas a grande barreira, que parece inultrapassável, é a questão da dívida, sem cuja reestruturação – ou renegociação, como o eufemismo recomenda – nada se conseguirá, com qualquer efeito significativo.

Estamos então num impasse? Estamos numa navegação à vista. E os ventos não parecem favoráveis. Senão vejamos.

Está ainda por medir o efeito da onda Trump na economia americana e, por reflexo, na economia europeia. E se pensarmos que agora podemos esperar sentados pelos efeitos positivos que a Parceria Transatlântica a todos nos traria, não é líquido que certo tipo de estímulos à economia, que a nova administração em Washington possa vir a desenvolver, não acabe por ter impactos entre nós, o menor do quais não seria a subida das taxas de juros – o que, para um país como Portugal, acarretaria uma asfixia, a prazo.

Numa segunda linha de preocupações, situa-se o Brexit. Embora fique a sensação, entre fantarronices ouvidas de ambos os lados da Mancha, de que muito pouca gente tem ainda real consciência do que poderá vir ocorrer, a verdade é que, em qualquer circunstância, o impacto na confiança em que assenta o principal tecido económico que é para nós relevante vai ser muito forte. Devo dizer, mesmo não sendo economista, que me preocupa mais o período negocial, com todas as suas indecisões e “recados” para os mercados, do que a situação pós-divórcio. Mas, quanto a este, também convém sermos realistas: uma economia europeia amputada de um dos seus principais elementos, um orçamento que já não disporá de um dos seus principais contribuintes líquidos, é um cenário muito pouco prometedor. E, volto a repetir, isto é particularmente relevante para Portugal, que será sempre um elo fraco da cadeia europeia.

A este cenário de indecisões soma-se a situação francesa. Alguém dizia, há dias, que uma vitória presidencial de Marine Le Pen significaria o fim da União Europeia, pelo menos como hoje a conhecemos. Concordo com essa perspetiva. Goste-se ou não, o eixo politico franco-alemão é um elemento essencial no equilíbrio do projeto integrador. Ter no Eliseu uma interlocutora anti-euro, que em nenhum cenário minimamente realista, conhecendo o sistema politico francês, lhe poderia assegurar uma maioria parlamentar, transformaria a França num catavento à deriva, numa coabitação desastrosa. Dificilmente a Europa sobreveria a este panorama e, com toda a certeza, parte dela procuraria gizar um outro modelo de cooperação integrada. 

Mas há alguma hipótese de vitória Le Pen? Até ontem, parecia que não, tudo indicava que o candidato da direita normal tinha praticamente assegurada a vitória à segunda volta, em especial depois da esquerda aparentar escolher o mais inelegível dos seus possíveis candidatos. Mas algumas trapalhadas, nas últimas horas, em torno da família Fillon podem vir a mudar este cenário.

Restam a Itália, a Holanda e, finalmente, e como sempre, a Alemanha. Falando apenas desta última, de quem o essencial depende, eu diria que estamos condenados a desejar que tudo continue na mesma no poder em Berlim, que a aliança da Grande Coligação se renove, muito embora haja sinais de que nunca será tão forte como tem sido até agora. A estabilidade no país central da União Europeia é um elemento chave para o futuro coletivo e, nesse futuro, para aquela parte dele que também nos toca. O ponto decisivo, nesta corda bamba em que vivemos, é garantir que a verdadeira aliança que à Europa importa, a aliança entre Berlim e Frankfurt, se não desequilibra em desfavor das políticas que favorecem o statu quo que nos tem vindo a proteger. 

Será essa a solução para os nossos problemas? Para um país com uma dívida monstruosa, cujo serviço limita fortemente o exercício de políticas públicas amigas do crescimento, com uma economia exportadora que poderá estar a atingir os limites plausíveis de expansão, com uma economia de serviços baseada num surto turístico que não está a salvo de um qualquer sobressalto securitário, num tempo de crise geral de confiança económica que retrai naturalmente o investimento, o panorama não é brilhante. 

Mas como nós cá estamos, como isto não fecha para obras, tentemos pelo menos fazer o trabalho de casa tão bem feito quanto nos for possível. Tentemos ganhar credibiidade externa ao cumprir aquilo com que nos comprometemos. E, o que não é menos importante, tentemos manter, na nossa cultura política, uma luta tenaz contra o “quanto pior melhor”, que parece apostado em que tudo corra o pior possível, que afeta a generalidade da imprensa económica e estimula o “tremendismo” de certa classe política. Apenas lembraria que, como tivemos mostras muito recentes, quando as coisas correm mal, correm mal quase sempre para todos.

No que me toca, longe de ser hoje tão definitivo como fui face ao meu interlocutor canadiano de 2007, de que lhes falei no início, de que estava em absoluto fora do cenário sairmos do euro, não deixo de pensar que passou entretanto uma década, e que o país resistiu. E o euro também.
Não estamos mais fortes, não temos defesas mais seguras face aos imponderáveis do futuro, mas creio que é tempo de, com alguma regularidade, nos perguntarmos que não será por acaso cá continuamos, um dos mais antigos países do mundo, com quase nove séculos com fronteiras definidas, que atravessou crises existenciais bem piores. Eu, pelo menos, quando coloco esta questão a mim mesmo sinto bastante confiança.

Muito obrigado pela vossa atenção.