The complexity of the issues affecting the European Union today forces us, paradoxically, to simplify things, otherwise we risk making some basic realities incomprehensible—realities around which we must bring together all those who still sincerely believe in the continent’s integration project.
Let’s recapitulate the essentials. Europe was born after the second world war of the 20th century, bringing together people around a project that could prevent such tragedies from happening again. It did this by creating an original model of cooperation, based mainly on economic issues. The existence of the European Commission, as interpreter and guardian of the common interest, was what set it apart from other less ambitious forms of intergovernmental cooperation.
The then European Communities, a club of democracies based on market economies, proved to be a success, creating growth and jobs. Several other countries later joined the “six” founding members, eventually including some of Europe’s poorer democracies – Greece, Ireland, Portugal, and Spain.
Generous support policies to help this less developed Europe recover, as well as more depressed areas of wealthy countries, aimed to create a more balanced and uniform space overall. The interest was mutual: by “enriching” the economically less fortunate parts of Europe, the more prosperous countries and areas gained new markets and created security in their neighborhood; the poorer ones received aid and, with prosperity, stable governments and less tension, became more attractive for trade and investment. It would be a “win-win” situation.
The Progress
Success sparked ambition. Encouraged by the benefits of the synergies created, Community Europe tried to expand the areas covered by its policies, beginning to handle centrally some matters that, in the past, were left to national governments. The Maastricht Treaty established this step, but also raised some concerns. Some States reacted to this “intrusion” into their powers and, unable to stop the Community’s progress, chose to exclude themselves from adopting all the policies. This opened the door to “opt-outs” and differentiated integration.
Meanwhile, the countries of Central and Eastern Europe, which had freed themselves from the “straitjacket” imposed by Moscow during the Cold War, naturally took advantage of the collapse of the Soviet Union to ask to join the “democratic club” created in the West. Although this inclusion brought some difficulties to managing the collective project – going from 15 to 28 members, with the new members at different levels of development, was not an easy task – the Union showed a great sense of historical responsibility and completed this expansion. Earlier, three neutral States – Austria, Finland, and Sweden – had felt comfortable, after the fall of the “wall,” to take the same step. The Union then changed in nature, having to deal with different philosophies and being driven by increasingly diverse and sometimes even contradictory agendas of interests and concerns.
Community Europe tried to make all this diversity compatible with the deepening of policies it had underway. It didn’t succeed. Just look at the single currency and the free movement of people to see the different effects on its members.
The Weaknesses
The European Union, which had shown its effectiveness in “business as usual” times, revealed unexpected weaknesses when new situations disrupted its routine.
The financial crisis proved that, in managing the euro, they had underestimated how some countries’ economic weakness would affect the overall sustainability of the project. Globalization had already had very different effects on Europe’s social and economic fabric, so not everyone benefited from this opening to the world. The European divide, in terms of competitiveness and wealth, was not overcome, and this leads citizens of some countries today not to see themselves as winners of the integration process. Worse: they blame Europe for their situation.
In the case of free movement, the post-expansion Union, under pressure from human flows—whether economic or humanitarian—caused by political and military instability in the Maghreb and the Middle East, revealed its shortcomings. In these and other States, the differences in national views came to light on issues where it was desirable, though perhaps not expected, that the Union respond in a coordinated way. In the eyes of citizens of some countries, migration and refugees, added to feelings of insecurity created by attacks or tensions in public order, now represent a disruption in their lives that no sense of European citizenship seems able to overcome. Here too, Europe increasingly appears, for many, as a threat to stability, living standards, and their own identity.
This social unease, which grows in some countries unable to live with what’s “different” (ethnicity, culture, religion, customs), combined sometimes (but not always) with tensions from lack of growth and rising unemployment, have made the Union the scapegoat for many frustrations.
Governments, in general, fail in their responsibility to educate, even against the tide, about the benefits that the integration process has brought to their citizens, the peace it has maintained for decades, the enormous progress in terms of improved living conditions that it has created in much of the continent.
As a result, national political processes are increasingly marked by selfish, nationalist speeches, where exploiting fears leads to closed borders and closed minds, to various forms of protectionism, sometimes promoted by anti-European, xenophobic parties that fuel divisions.
Europe is, by nature, an optimistic project. It will weaken and tend to break apart if skepticism, fear, and nationalism gain ground in its immediate future.
(Artigo publicado no n° 1 da revista "Feed", junho 2016)
Versão portuguesa
A Europa na encruzilhada
A complexidade das questões que hoje afetam a União Europeia obriga, paradoxalmente, a que sejamos tentados a simplificar as coisas, sob pena de tornarmos incompreensíveis algumas realidades básicas, em torno das quais é imperioso juntar quantos ainda se reveem, com sinceridade, no projeto de integração do continente.
Recapitulemos o essencial. A Europa nasceu após o segundo conflito mundial do século XX, federando vontades em torno de um projeto que pudesse evitar a reedição das tragédias. Fê-lo através do desenho de um modelo original de cooperação, assente em temáticas essencialmente económicas. A existência da Comissão Europeia, como intérprete e guardiã do interesse comum, representou a diferença face a outros formatos menos ambiciosos de cooperação intergovernamental.
As então Comunidades Europeias, um clube de democracias apoiadas na economia de mercado, revelou-se um sucesso, gerando crescimento e emprego. Vários outros países juntaram-se entretanto aos “seis” fundadores, passando também a englobar algumas democracias mais pobres da Europa – Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha.
Generosas políticas de apoio à recuperação desta Europa menos desenvolvida, e também de zonas mais deprimidas dos seus países ricos, visavam promover um espaço global mais homogéneo e equilibrado. O interesse era comum : ao « enriquecer » a Europa menos afortunada economicamente, os países e áreas mais pujantes ganhavam novos mercados e geravam segurança na sua vizinhança ; os mais pobres obtinham ajudas e, com bem-estar, regimes estáveis e menos tensões, tornavam-se mais atrativos para o comércio e para o investimento. Seria uma situação de « win-win ».
Os avanços
O êxito despertou a ambição. Animada pelas vantagens das sinergias geradas, a Europa comunitária procurou alargar os domínios cobertos pelas suas políticas, passando a tratar centralmente algumas áreas que, no passado, estavam reservadas às soberanias nacionais. O Tratado de Maastricht consagrou esse passo, mas também despertou algumas consciências. Alguns Estados reagiram a esta “intrusão” nos seus poderes e, não conseguindo travar a passada comunitária, optaram por excluir-se da adoção da totalidade das políticas. Foi a abertura aos “opt out” e à integração diferenciada.
Entretanto, os países do centro e leste europeu, que se haviam soltado do « colete de forças » imposto por Moscovo durante a Guerra Fria, aproveitaram, com naturalidade, a implosão da União Soviética para pedir para integrar o « clube democrático » criado a ocidente. Não obstante essa inclusão acarretasse algumas dificuldades à gestão do projeto coletivo – passar de 15 para 28 membros, com os novos membros num estado desigual de desenvolvimento, não era uma tarefa fácil –, a União deu provas de um grande sentido de responsabilidade histórica e concluiu esse alargamento. Já antes, três Estados neutrais – Áustria, Finlândia e Suécia – se havia sentido à vontade, depois da queda do “muro”, para dar o idêntico passo. A União mudou então de natureza, passando a ter de conviver com diferentes filosofias e passando a ser mobilizada por agendas, de interesses e de preocupações, cada vez mais diversas e, por vezes, até contraditórias.
A Europa comunitária tentou que toda esta sua diversidade fosse compatível com o aprofundamento de políticas que tinha em curso. Não o conseguiu. Basta recordar a moeda única e a liberdade de circulação de pessoas para evidenciar o que foram os efeitos diferenciados provocados nos seus integrantes.
As fragilidades
A União Europeia, que havia mostrado a sua eficácia em tempos de « business as usual », revelou fragilidades inesperadas, quando novas realidades abalaram o seu quotidiano.
A crise financeira provou que, no caso da gestão do euro, haviam sido subavaliados os efeitos da debilidade económica de alguns países para a sustentação global do projeto. A globalização havia já tido efeitos muito distintos no tecido económico-social europeu, pelo que nem todos ganharam com essa abertura ao mundo. A dualidade europeia, em matéria de competitividade e riqueza, não foi superada e isso leva hoje os cidadãos de alguns países a não encontrarem razões para se verem como os ganhadores do processo integrador. Pior: a culparem a Europa por essa sua situação.
No caso da livre circulação, a União pós-alargamentos, colocada sob pressão de fluxos humanos, de natureza económica ou humanitária, provocadas pelas desregulações político-militares no Magrebe e no Médio Oriente, revelou as suas insuficiências. Nesses e em outros Estados veio ao de cima a disparidade das perceções nacionais face a temáticas em que era desejável, embora talvez não expectável, que a União reagisse de forma conjugada. Aos olhos dos cidadãos de alguns países, as migrações e os refugiados, somados a sentimentos de insegurança, gerados por atentados ou tensões na ordem pública interna, configuram hoje uma disrupção nas suas vidas que nenhum sentimento de cidadania europeia parece capaz de ultrapassar. Também aqui, a Europa surge cada vez mais, para muitos, como uma ameaça à estabilidade, aos padrões de vida, à sua própria identidade.
Este mal-estar social, que germina em alguns países incapazes de viverem com o “diferente” (etnia, cultura, religião, costumes), a que se somam por vezes (mas nem sempre) tensões resultantes da falta de crescimento e do aumento do desemprego, tornaram a União no bode expiatório de muitas frustrações.
Os governos, em geral, demitem-se da sua responsabilidade de fazerem, a contraciclo, uma pedagogia das vantagens que o processo integrador trouxe aos seus cidadãos, da paz que consolidou por décadas, do enorme progresso, em termos de melhoria de condições de vida, que soube gerar em grande parte do continente.
Desta forma, os processos políticos nacionais surgem, cada vez mais, marcado por discursos egoístas, soberanistas, onde a exploração dos medos conduz à tentação de fronteiras e de mentalidades, a protecionismos de vária natureza, às vezes titulados por partidos anti-europeus, xenófobos e potenciadores de clivagens.
A Europa é, por natureza, um projeto otimista. Fragilizar-se-á e tenderá a romper-se se o ceticismo, o medo e os nacionalismos ganharem terreno no seu futuro imediato.