4 de janeiro de 2017

Diário

Digo eu, não sei…


1 de novembro

O que sobrou em nós dos nossos mortos? Nestes dias em que, por um ritual também deles herdado, os evocamos intimamente, talvez valha a pena interrogarmo-nos sobre se soubemos construir, em nós mesmos, alguma coisa com aquilo que eles nos deixaram, como tributo da sua vida. É que se "isto" tem algum sentido, esse sentido só pode ser a consagração dos valores que deveriam ter transitado para nós. Se isso não aconteceu, se não fomos fiéis a essa boa herança (e todos encontraremos alibis conjunturais para o não termos sido), então talvez alguma da saudade que sentimos seja apenas um mal-estar íntimo por esses mortos estarem, afinal, já muito distantes daquilo que hoje, em realidade, somos.


3 de novembro

Quando disse a um amigo que hoje ia dormir a Talin, capital da Estónia, ele advertiu-me: “Não ponhas um S antes do nome da capital. Eles não iriam gostar…”


12 de novembro

Tenho muita pena que o aeroporto de Tempelhof, aqui em Berlim, onde vim charlar sobre a Europa, tenha acabado. Tive a sorte histórica de o ter utilizado um dia. Os alemães transformaram a pista que alimentou a ponte aérea da Guerra Fria num parque para piqueniques. Nunca percebi bem se este tipo de opções é feito numa lógica de exorcismo ou não. 


14 de novembro

Dizem que a lua que hoje nos está a maravilhar a noite, e que há pouco vislumbrei por cima da Fraga da Almotolia, aqui por Vila Real, arrasando em luminosidade a concorrência local (na minha infância, de um carro com grandes faróis dizia-se: "parece o arraial da Senhora da Pena!", mas esta lua! ), só terá tido um exempłar similar em 1948. Ainda bem. Gosto da ideia de que a mais bela lua que houve antes desta teve o privilégio de nascer comigo. E, melhor ainda, gosto bastante de andar por cá e poder ver também esta. E, confesso, espero ainda ver "muitas luas", como dizem os índios que têm o senhor Trump por presidente. Mas que esta é lindíssima, é um facto!


18 de novembro

São uma raça tão à parte que não sei bem o que lhes irá acontecer com o Brexit. Às tantas, ficam apátridas. Nasceram em Portugal (ninguém é perfeito), mas têm o coração numa grã-ilha a que pertencem por direito natural. Idealmente, a maternidade do St Antony's College seria o seu berço óbvio, mas têm de contentar-se com o facto de S. Sebastião da Pedreira figurar no seu Cartão de Cidadão. Quando atingidos pelos "blues", à falta dos coiros de Pall Mall, vão tomar chá à York House, numa tarde pardacenta, como a de hoje. São os inglusos. Nem são nem ingleses nem lusos. São uma espécie de náufragos do autocarro, do tempo em que a Carris era britânica.


2 de dezembro

Fidel agita as águas. Acho um tanto estranho que quantos por cá ainda hoje se obstinam em defender a sua herança política não consigam entender que muitos só toleraram o caráter ditatorial do regime cubano enquanto vivíamos num mundo bipolar, em que as ditaduras de direita eram estrategicamente protegidas, numa lógica anticomunista. Desde que esse mundo acabou, que sentido tem defender a existência de um regime de partido único, sem uma única voz dissonante no parlamento, sem imprensa livre e com a dissidência a ser motivo para detenção imediata? É que não deve haver nada mais parecido com uma prisão política de uma ditadura de direita do que uma prisão política de um regime que se afirme de esquerda.


8 de dezembro

Por muitos anos, o dia 8 de dezembro foi o dia da mãe. Não sei por que luas, deixou de o ser, oficialmente. A data ficou-me na memória afetiva, porque acho que, com estas coisas, não se deve andar aos trambolhões pelo calendário.


7 de dezembro

Na minha terra, em Vila Real, quando se queria dizer que alguém era autoritário, façanhudo e de modos rudes, dizia-se que era "pior do que um polícia da Régua". Nunca soube a origem da expressão mas, confesso, passei a utilizá-la ao longo da vida, à vista de alguns especimens que se assemelhassem ao modelo de um cívico grave, de larga bigodaça e, claro, com barriga - porque me habituei a associar a autoridade à existência de alguma proeminência abdominal. E, das muitas vezes que passo pela Régua, se me cruzo com um polícia, tento perceber se ele está à altura do mito. Há pouco, no Tweeter, um vila-realense com fortes ligações familiares à Régua, atirou-me com esta surpresa: o "polícia da Régua", afinal, era de Vila Real... Já nem nos mitos se pode confiar, caramba!


9 de dezembro

Conversa com uma maquilhadora, num canal televisivo.A senhora falava da profissão de maquilhar os mortos, que não era a sua, mas que seria cada vez mais rentável. Ela estava numa tarde "gloriosa", divertida mas algo mórbida: "Deve ser uma experiência interessante: não se mexem, não falam e não se queixam da cor". Não resisti: "E, depois, dão muito menos trabalho, não é?". "Depois"? Ela não percebeu logo. "Porque não há que desmaquilhá-los, depois, como acontece connosco". Ela concordou, com um sorriso. "Então, até já!", esperando que eu regressasse daí a pouco. Mas eu decidi lavar a cara em casa. Fiz de morto…


12 de dezembro

Não consegui, até hoje, convencer a família de que, a minha prenda de Natal ideal seria uma camisola branca de alças, sem mangas, muito neo-realismo italiano nos domingos ensoleirados a preto e branco, que, em matéria de elegância e distinção, disputa com os fatos-de-treino que andam pelos centros comerciais. A grande dúvida é se terei de a complementar com um cordão de ouro e uma discreta tatuagem militar. Mas terá cachet operacional colocar no braço “EPAM, Lumiar, 1973”?


13 de dezembro

Ontem, jantar num restaurante. Aniversário de uma amiga, entre amigos. Levo gravata? "Vais ver que os homens vão de gravata!" Fui ver. Todos os homens iam de gravata? Não. Eu não ia. 

Hoje. Almoço noutro restaurante. De trabalho. De gravata, claro. Entrei. O meu elegante interlocutor estava sem gravata. Já não percebo nada...


21 de dezembro

Aquela figura da "geringonça" olhou para mim com um ar perplexo, quando deixei cair, em conversa, que podia estar interessado num determinado cargo oficial.  Ouvira-me, nos últimos anos, jurar a pés juntos que não estava disponível para exercer qualquer lugar no Estado: Havia qualquer coisa que não batia certo. “Era capaz de aceitar uma certa função não remunerada...”. Deve ter pensado que eu estava a meter uma discreta "cunha" para um lugar de prestígio. “É um cargo que ambiciono desde há cerca de três décadas.” Isso atirava para os anos 80. Pediu-me que concretizasse. “Era para membro da Comissão Permanente da Hora”. O que faz essa comissão? Expliquei que, por lei, lhe compete aplicar o regime de Hora Legal, assunto que tem a ver com a Europa e com o MNE. “Mas estás mesmo a falar a sério?”, questionou. “Claro que sim e agora tenho mais tempo, o que deve ser importante para um organismo que trata precisamente de temas de tempo...”. Terá acreditado? 


22 de dezembro

Participei numa interessante conferência sobre a Diáspora. Tempo bem aproveitado, talvez tirando o que eu próprio disse. Mas por que será que não gosto da palavra “diáspora”, que há anos evito dizê-la e fujo por circunlóquios para a contornar?


24 de dezembro

Hoje só falo da aletria. Sou um fã dessa delícia amarela, quadriculada a canela. Porém, as minhas desilusões nessa matéria excedem, em muito, os grandes momentos. Houve um ano em que desconfiei que a travessa de aletria fosse patrocinada pela Cimpor, tal a textura que o suposto doce apresentava. Outros houve em que a massa estava deslavada, permeada de um líquido que lhe dava uma consistência esquisita, menos agradável. Até este ano! O ano da aletria 20 valores! A tecitura era a ideal, o açúcar estava na medida certa, o sabor era "aquele" que devia ser. Nada a mais, nada a menos. A aletria 2016 foi um "vintage", uma colheita ímpar. Só por aquela (digo "aquela" porque, infelizmente, já lá vai) aletria valeu a pena este Natal. Mas já vou passar um ano angustiado: como será a aletria de 2017, com o "benchmark" de 2016 tão elevado?


27 de Dezembro

Mostraram-me hoje uma fotografia do Tião, meu colega de escola, que morreu há uns anos. Era extremo-esquerdo do Sport Clube de Vila Real e, um dia, numa visita do Sporting, deu um “baile” ao Pedro Gomes. Numa feira do livro, já há uns tempos, ouvi um elogio feito ao Pedro Gomes, de quem o discursante dizia que não “escapava” nenhum extremo. Por pouco não me contive: “E o Tião, lá em Vila Real?”. Mas o homem não devia saber nada de futebol, às tantas nem ouvira falar do Tião… 


29 de dezembro

Obama foi eleito, há 8 anos, com a promessa de encerrar Guantanamo, onde herdou centenas de suspeitos não condenados, sem acesso à justiça do comum dos mortais. Guantanamo continua e, nessa prisão, muitos vão permanecer, agora com Trump no seu horizonte. Obama irá dormir bem?


31 de dezembro

Soares é fixe!



(Publicado no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, em 4.1.17)

1 comentário:

  1. Excelentes textos... dá gosto ler pela grandeza do seu alcance e humor.

    Bem haja!

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